Vacina contra o HPV demonstrou reduzir significativamente o risco de câncer de colo do útero

M. Alexander Otto

Notificação

15 de outubro de 2020

A vacina quadrivalente contra o papilomavírus humano (HPV, sigla do inglês, Human PapillomaVirus) foi relacionada com uma redução significativa da incidência de câncer de colo do útero em uma revisão sueca com mais de um milhão de meninas e mulheres vacinadas entre 2006 e 2017.

Foi demonstrado que a vacina Gardasil ajuda a prevenir verrugas genitais e lesões cervicais de alto grau, mas até agora faltavam dados sobre a capacidade da vacina de prevenir o câncer de colo do útero, embora isso seja amplamente presumido.

"Nossos resultados ampliam o repositório de conhecimento, mostrando que a imunização com a vacina quadrivalente contra o HPV também está associada a uma redução significativa do risco de câncer cervical invasivo, que é a maior intenção do programa de vacinação contra o HPV", disseram os pesquisadores liderados pela Dra. Jiayao Lei, Ph.D., pesquisadora no Departamento de Epidemiologia Médica e Bioestatística do Karolinska Institutet, na Suécia.

O estudo foi publicado on-line em 1º de outubro no periódico New England Journal of Medicine.

"Este trabalho traz evidências de prevenção real do câncer", comentou a Dra. Diane Harper, médica especialista em HPV e professora dos Departamentos de Medicina da Família e Ginecologia e Obstetrícia da University of Michigan, nos Estados Unidos. A Dra. Diane foi a pesquisadora responsável do ensaio clínico original da vacina Gardasil.

Este estudo "mostra que a vacina quadrivalente contra o HPV previne a infecção pelo HPV por transmissão sexual e realmente reduz a incidência de câncer de colo do útero nas mulheres jovens até os 30 anos de idade", disse a médica ao ser convidada a comentar.

No entanto, a Dra. Diane também acrescentou uma nota de cautela. Esses novos resultados mostram "que as mulheres vacinadas ainda desenvolvem câncer de colo do útero, porém em menor escala. Isso faz com que a conexão entre a vacinação precoce e o rastreamento contínuo durante a vida adulta seja importantíssima", disse a comentarista para o Medscape.

Foi feito diagnóstico de câncer cervical em 19 das 527.871 mulheres (0,004%) que receberam pelo menos uma dose da vacina, em comparação com 538 das 1.145.112 mulheres (0,05%) que não receberam a imunização.

A incidência cumulativa foi de 47 casos por 100.000 mulheres vacinadas e de 94 casos por 100.000 mulheres não vacinadas. A razão da incidência de câncer cervical da comparação entre as mulheres vacinadas e as não vacinadas foi de 0,37 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,21 a 0,57).

A redução do risco foi ainda maior entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos de idade, com uma incidência cumulativa de 4 versus 54 casos por 100.000 entre as mulheres vacinadas após os 17 anos. A razão da incidência foi de 0,12 (IC 95%, de 0,00 a 0,34) entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos vs. 0,47 (IC 95%, de 0,27 a 0,75) entre as mulheres vacinadas entre 17 e 30 anos de idade.

Globalmente, "o risco de câncer de colo do útero entre as participantes que iniciaram a vacinação antes dos 17 anos foi 88% menor do que entre aquelas que nunca foram vacinadas", observaram os pesquisadores.

Esses resultados "respaldam a recomendação de administrar a vacina quadrivalente contra o HPV antes da exposição ao vírus, a fim de obter o maior benefício", disseram os pesquisadores.

Detalhes da revisão sueca

Na sua revisão, Dra. Jiayao e colaboradores usaram vários registros demográficos e de saúde suecos para relacionar o status vacinal com os tipos de câncer cervicais incidentes, usando os números de identificação pessoal dos residentes da Suécia.

As participantes foram acompanhadas a partir do seu 10º aniversário ou desde 1º de janeiro de 2006. As participantes foram acompanhadas até, entre outras coisas, receberem diagnóstico de câncer cervical invasivo; completarem 31 anos; ou até 31 de dezembro de 2017, o que tivesse ocorrido primeiro.

A vacina quadrivalente contra o HPV aprovada na Suécia em 2006 foi usada quase exclusivamente durante o período do estudo. As participantes foram consideradas vacinadas se tivessem recebido apenas uma dose, mas os pesquisadores começaram a analisar a relação entre a incidência do câncer cervical invasivo e o número de doses administradas.

Entre outras coisas, a equipe controlou por idade no acompanhamento, ano civil, município de residência, história de doença materna e características dos pais, como escolaridade e renda familiar.

Os pesquisadores comentaram que é possível que as mulheres vacinadas contra o HPV possam ter sido globalmente mais saudáveis do que as mulheres não vacinadas e, portanto, teriam menor risco de câncer do colo do útero.

"Fatores de confusão por estilo de vida e questões de saúde das mulheres (como tabagismo, atividade sexual, uso de contraceptivo oral e obesidade) não podem ser excluídos; esses fatores são reconhecidamente associados ao risco de câncer de colo do útero", disseram os autores.

O HPV também está associado a outros tipos de câncer, como câncer anal e orofaríngeo. Mas esses tipos câncer ocorrem em um período mais longo do que o câncer de colo do útero.

A Dra. Diane observou que "a probabilidade de câncer pelo HPV 16 desde o momento da infecção atinge o auge 40 anos após a infecção para o câncer anal e quase 50 anos após a infecção para o câncer orofaríngeo. Isso significa que os registros, como os suecos, irão capturar evidências durante os próximos 40 anos para dizer se a vacinação contra o HPV dura o suficiente para evitar que esses outros tipos de câncer associados ao HPV 16 ocorram tardiamente".

O trabalho foi financiado pela Stiftelsen för strategisk forskning, pela Svenska cancerföreningen e pelo Vetenskapsrådet; bem como pelo Conselho de Bolsas de Estudo da China. A Dra. Jiayao Lei e dois outros pesquisadores informam ter recebido financiamento para pesquisas de vacinas contra o HPV da empresa Merck, fabricante da Gardasil. A Dra. Diane Harper informou não ter conflitos de interesses relevantes.

N Engl J Med. Publicado on-line em 1º de outubro de 2020. Abstract

M. Alexander Otto é assistente médico de formação, sendo um premiado jornalista médico que trabalhou para diversos veículos de notícias importantes antes de ingressar no Medscape, como McClatchy e Bloomberg.Ele é fellow do MIT Knight Science Journalism. E-mail: aotto@mdedge.com

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A vacina quadrivalente contra o papilomavírus humano (HPV, sigla do inglês, Human PapillomaVirus) foi relacionada com uma redução significativa da incidência de câncer de colo do útero em uma revisão sueca com mais de um milhão de meninas e mulheres vacinadas entre 2006 e 2017.

Foi demonstrado que a vacina Gardasil ajuda a prevenir verrugas genitais e lesões cervicais de alto grau, mas até agora faltavam dados sobre a capacidade da vacina de prevenir o câncer de colo do útero, embora isso seja amplamente presumido.

"Nossos resultados ampliam o repositório de conhecimento, mostrando que a imunização com a vacina quadrivalente contra o HPV também está associada a uma redução significativa do risco de câncer cervical invasivo, que é a maior intenção do programa de vacinação contra o HPV", disseram os pesquisadores liderados pela Dra. Jiayao Lei, Ph.D., pesquisadora no Departamento de Epidemiologia Médica e Bioestatística do Karolinska Institutet, na Suécia.

O estudo foi publicado on-line em 1º de outubro no periódico New England Journal of Medicine.

"Este trabalho traz evidências de prevenção real do câncer", comentou a Dra. Diane Harper, médica especialista em HPV e professora dos Departamentos de Medicina da Família e Ginecologia e Obstetrícia da University of Michigan, nos Estados Unidos. A Dra. Diane foi a pesquisadora responsável do ensaio clínico original da vacina Gardasil.

Este estudo "mostra que a vacina quadrivalente contra o HPV previne a infecção pelo HPV por transmissão sexual e realmente reduz a incidência de câncer de colo do útero nas mulheres jovens até os 30 anos de idade", disse a médica ao ser convidada a comentar.

No entanto, a Dra. Diane também acrescentou uma nota de cautela. Esses novos resultados mostram "que as mulheres vacinadas ainda desenvolvem câncer de colo do útero, porém em menor escala. Isso faz com que a conexão entre a vacinação precoce e o rastreamento contínuo durante a vida adulta seja importantíssima", disse a comentarista para o Medscape.

Foi feito diagnóstico de câncer cervical em 19 das 527.871 mulheres (0,004%) que receberam pelo menos uma dose da vacina, em comparação com 538 das 1.145.112 mulheres (0,05%) que não receberam a imunização.

A incidência cumulativa foi de 47 casos por 100.000 mulheres vacinadas e de 94 casos por 100.000 mulheres não vacinadas. A razão da incidência de câncer cervical da comparação entre as mulheres vacinadas e as não vacinadas foi de 0,37 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,21 a 0,57).

A redução do risco foi ainda maior entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos de idade, com uma incidência cumulativa de 4 versus 54 casos por 100.000 entre as mulheres vacinadas após os 17 anos. A razão da incidência foi de 0,12 (IC 95%, de 0,00 a 0,34) entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos vs. 0,47 (IC 95%, de 0,27 a 0,75) entre as mulheres vacinadas entre 17 e 30 anos de idade.

Globalmente, "o risco de câncer de colo do útero entre as participantes que iniciaram a vacinação antes dos 17 anos foi 88% menor do que entre aquelas que nunca foram vacinadas", observaram os pesquisadores.

Esses resultados "respaldam a recomendação de administrar a vacina quadrivalente contra o HPV antes da exposição ao vírus, a fim de obter o maior benefício", disseram os pesquisadores.

Detalhes da revisão sueca

Na sua revisão, Dra. Jiayao e colaboradores usaram vários registros demográficos e de saúde suecos para relacionar o status vacinal com os tipos de câncer cervicais incidentes, usando os números de identificação pessoal dos residentes da Suécia.

As participantes foram acompanhadas a partir do seu 10º aniversário ou desde 1º de janeiro de 2006. As participantes foram acompanhadas até, entre outras coisas, receberem diagnóstico de câncer cervical invasivo; completarem 31 anos; ou até 31 de dezembro de 2017, o que tivesse ocorrido primeiro.

A vacina quadrivalente contra o HPV aprovada na Suécia em 2006 foi usada quase exclusivamente durante o período do estudo. As participantes foram consideradas vacinadas se tivessem recebido apenas uma dose, mas os pesquisadores começaram a analisar a relação entre a incidência do câncer cervical invasivo e o número de doses administradas.

Entre outras coisas, a equipe controlou por idade no acompanhamento, ano civil, município de residência, história de doença materna e características dos pais, como escolaridade e renda familiar.

Os pesquisadores comentaram que é possível que as mulheres vacinadas contra o HPV possam ter sido globalmente mais saudáveis do que as mulheres não vacinadas e, portanto, teriam menor risco de câncer do colo do útero.

"Fatores de confusão por estilo de vida e questões de saúde das mulheres (como tabagismo, atividade sexual, uso de contraceptivo oral e obesidade) não podem ser excluídos; esses fatores são reconhecidamente associados ao risco de câncer de colo do útero", disseram os autores.

O HPV também está associado a outros tipos de câncer, como câncer anal e orofaríngeo. Mas esses tipos câncer ocorrem em um período mais longo do que o câncer de colo do útero.

A Dra. Diane observou que "a probabilidade de câncer pelo HPV 16 desde o momento da infecção atinge o auge 40 anos após a infecção para o câncer anal e quase 50 anos após a infecção para o câncer orofaríngeo. Isso significa que os registros, como os suecos, irão capturar evidências durante os próximos 40 anos para dizer se a vacinação contra o HPV dura o suficiente para evitar que esses outros tipos de câncer associados ao HPV 16 ocorram tardiamente".

O trabalho foi financiado pela Stiftelsen för strategisk forskning, pela Svenska cancerföreningen e pelo Vetenskapsrådet; bem como pelo Conselho de Bolsas de Estudo da China. A Dra. Jiayao Lei e dois outros pesquisadores informam ter recebido financiamento para pesquisas de vacinas contra o HPV da empresa Merck, fabricante da Gardasil. A Dra. Diane Harper informou não ter conflitos de interesses relevantes.

N Engl J Med. Publicado on-line em 1º de outubro de 2020. Abstract

M. Alexander Otto é assistente médico de formação, sendo um premiado jornalista médico que trabalhou para diversos veículos de notícias importantes antes de ingressar no Medscape, como McClatchy e Bloomberg.Ele é fellow do MIT Knight Science Journalism. E-mail: aotto@mdedge.com

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