Na saúde e na doença: Estilo de vida de casais tem impacto no risco de diabetes

Becky McCall

Notificação

13 de outubro de 2020

Como era de se esperar, fatores de risco relacionados com estilo de vida, como prática de atividade física e qualidade da alimentação, foram identificados como tendo mais influência no risco de diabetes tipo 2 entre pessoas casadas do que fatores fisiológicos, como tolerância à glicose ou sensibilidade à insulina, mostraram pesquisadores.

"Essencialmente, esses dados sugerem que intervenções em casais voltadas para as semelhanças entre os cônjuges podem ser uma maneira eficiente de realizar intervenções no estilo de vida", disse o líder do estudo, Dr. Omar Silverman-Retana, Ph.D., médico do Steno Diabetes Center Aarhus, Aarhus University Hospital, na Dinamarca.

"Nós identificamos que a conformidade conjugal foi mais forte para fatores de risco comportamentais, em particular atividade física e alimentação", o Dr. Omar disse ao Medscape em uma entrevista.

O médico relatou os achados em um pôster no encontro anual da European Association for the Study of Diabetes (EASD) de 2020, realizado on-line devido à pandemia de covid-19.

Efetivamente, os pesquisadores descobriram que a conformidade foi mais fraca nos marcadores fisiopatológicos, pois estes têm maior influência biológica na sua determinação em comparação com os fatores de estilo de vida.

A Dra. Janice Kiecolt-Glaser, Ph.D., é uma pesquisadora biocomportamental de casais interessada na conformidade conjugal para muitas doenças crônicas.

Segundo a Dra. Janice, esta "pesquisa pertence ao corpo de evidências cada vez maior transmitindo uma mensagem clara: 'Tenha cuidado com quem você se casa, sua vida pode depender disso!'"

"O comportamento do seu cônjuge definitivamente influencia o seu, e no caso do diabetes, os pesquisadores encontraram associações comportamentais claras e que fazem sentido", disse ela ao Medscape.

"Além disso, dados provenientes do nosso e de outros laboratórios mostram que os microbiomas intestinais de casais que moram junto são mais semelhantes do que os de pares não relacionados", observou a Dra. Janice, que é professora de psiquiatria e saúde comportamental na Ohio State University College of Medicine, nos Estados Unidos.

"Alimentação e exercício têm influências significativas no microbioma intestinal, e há cada vez mais evidências de que o microbioma intestinal contribui para o risco de diabetes. Esta pesquisa está de acordo com o nosso conhecimento, e o amplia."

Uma visão abrangente dos mecanismos que causam o diabetes

A pesquisa liderada por Dr. Omar e colaboradores envolveu uma análise transversal de casais que participaram do The Maastricht Study , um amplo estudo de fenotipagem que foca nas causas do diabetes tipo 2, suas complicações clássicas e suas comorbidades emergentes.

Os pesquisadores mediram uma abrangente lista de indicadores de estilo de vida e fisiológicos e, usando a dimensão da rede social do estudo, identificaram 172 casais com informações completas para a análise final.

A conformidade conjugal em relação aos fatores de estilo de vida e os mecanismos fisiopatológicos do diabetes tipo 2 (como função de células beta e sensibilidade à insulina) foram determinados por meio de análise de regressão. Os fatores de risco foram circunferência da cintura, porcentagem de gordura corporal, atividade física, tempo sedentário, Dutch Healthy Diet Index (DHDI) e consumo total de energia.

Além disso, os pesquisadores avaliaram o estado do metabolismo da glicose por meio da glicemia de jejum e sérica de duas horas, bem como hemoglobina glicada (HbA1c), e também derivaram os índices de função das células beta usando um teste de tolerância à glicose em sete momentos e sensibilidade à insulina.

"Mais importante, medimos os fatores de risco e os fatores fisiopatológicos no mesmo estudo, e com o mesmo nível de detalhes em ambos os parceiros, fornecendo uma visão mais completa dos mecanismos que levam ao diabetes tipo 2", destacou Dr. Omar.

Existem estudos anteriores abordando o risco de doença e a conformidade dos casais. Um estudo anterior, também realizado por Dr. Omar e colaboradores da Aarhus University, encontrou uma associação entre o peso de um dos cônjuges e as chances de diagnóstico de diabetes tipo 2 no outro cônjuge.

Outro estudo, relatado pelo Medscape em 2018, mostrou que, quando um dos cônjuges tentava perder peso com um programa de controle ponderal, o outro cônjuge "não tratado" provavelmente também perdia peso.

O Dr. Omar observou que outra pesquisa avaliando as semelhanças e diferenças entre casais estudou a atividade física por meio de questionários e relatos dos próprios pacientes, mas o estudo em pauta usou dados de acelerômetro. "Eles fornecem uma medida mais precisa da atividade física", disse ele, ao apontar um aspecto que diferencia o estudo em questão dos anteriores.

Os achados sugerem que, para os homens, a conformidade conjugal mais forte foi para o DHDI, o que significa que o aumento de uma unidade no DHDI das esposas foi associado a uma diferença de 0,53 unidade no DHDI dos homens.

Para as mulheres, a conformidade mais forte foi para o tempo dedicado à atividade física de alta intensidade, de forma que o aumento de uma unidade no tempo gasto pelos maridos praticando atividade física de alta intensidade foi associado a uma diferença de 0,36 unidade no tempo dedicado pelas mulheres.

"Se compararmos a conformidade, ela enfraquece à medida que avançamos para os fatores de risco causais imediatos do diabetes tipo 2", explicou o Dr. Omar. "A conformidade mais fraca foi encontrada nos índices de função das células beta e indicadores do metabolismo da glicose, porque estes são determinados principalmente por fatores biológicos."

A conformidade se explica principalmente pelo fato de que temos uma tendência a escolher um parceiro com características semelhantes às nossas, em termos de classe social e/ou escolaridade, tabagismo, prática de exercícios e hábitos alimentares, explicou o pesquisador.

"Seria interessante saber como a semelhança comportamental depende da duração do casamento ou do tempo como casal. Estudos futuros precisarão avaliar a questão", concluiu.

O Dr. Omar e a Dra. Janice informaram não ter relações financeiras relevantes.

Encontro Anual da European Association for the Study of Diabetes (EASD): Abstract 332. Apresentado em 21 a 25 de setembro de 2020.

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