Brasil não atinge metas de vacinação pela primeira vez no século: o que isso significa?

Dra. Sabrine Teixeira Grünewald, MSc

Notificação

1 de outubro de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponíveis na plataforma do DataSUS, mostram informações alarmantes: em 2019, a cobertura vacinal em todo o Brasil foi a menor desde o início do século.

O país atingiu apenas 45,65% da meta de vacinação para o ano. O menor índice até então havia ocorrido em 2016, com 50,44% da meta. Curiosamente, o maior índice ocorreu no ano anterior, com 95,07% da meta.

Em todas as regiões do país, analisando-se todas as vacinas disponíveis em 2019, a cobertura foi menor do que em 2018, com o pior resultado na região Nordeste e o melhor resultado na região Sul.

A vacina tríplice viral foi a que alcançou o melhor resultado em 2019, possivelmente devido às campanhas de vacinação contra o sarampo. Ainda assim, houve uma queda de quase 32% nas imunizações em relação ao ano anterior.

Vacinas como a BCG e a primeira dose da vacina contra a hepatite B, que apresentavam índices de cobertura bastante elevados em 2018 (97,72% e 86,73%, respectivamente) e nos anos anteriores, tiveram quedas expressivas, para 52,95% e 48,33%, respectivamente. Essas vacinais, muitas vezes aplicadas na maternidade, logo após o nascimento da criança, sempre estiveram entre os índices mais elevados de adesão.

A meta de vacinação para crianças no primeiro ano de vida varia de 90% a 95%, a depender da vacina. Abaixo desse índice, existe o risco de retorno de doenças já eliminadas ou de aumento da transmissão de doenças que estavam sob controle.

Os dados mostram que oito das nove vacinas indicadas para crianças de até um ano tiveram queda na adesão, e nenhuma delas atingiu a meta de 90% a 95%.

O Dr. Paulo Lotufo, médico e diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da Universidade de São Paulo (USP), concorda com o risco do aumento de casos de doenças, inclusive algumas de alta letalidade, como o sarampo. Entretanto, ele alerta que é preciso ter certeza de que esses números são reais, e de se identificar em quais locais e estratos sociais houve, de fato, uma redução da vacinação.

"Hipoteticamente", explicou ele, "pode estar havendo sobrenumeração da população por limitação dos instrumentos de estimativa".

Manifesto da SBP

Diante desses resultados, em 08 de setembro a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um manifesto pela saúde das crianças brasileiras, solicitando empenho do Ministério da Saúde, dos estados e municípios, para a superação do problema.

"A queda na adesão da população às principais vacinas indicadas para crianças de até um ano, conforme foi revelado, configura grave sinal de alerta para as autoridades sanitárias", escreveram os especialistas da SBP.

"Independentemente do contexto da pandemia de covid-19, estratégias devem ser elaboradas de modo urgente para que pais e responsáveis possam manter as cadernetas de vacinação das crianças em dia."

Perspectivas para 2020

Uma preocupação adicional que surge para 2020 refere-se à pandemia do novo coronavírus, que poderia levar a uma queda ainda mais expressiva.

Já se antecipando a essa possibilidade, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) lançou em junho desse ano uma cartilha de orientações sobre a vacinação durante a pandemia.

Nesse documento, os autores destacam: "Interromper a vacinação rotineira, em especial de crianças menores de cinco anos, gestantes e outros grupos de risco, bem como as estratégias de seguimento e contenção de surtos (sarampo e febre amarela, por exemplo), pode levar ao aumento de casos de doenças imunopreveníveis e ao retrocesso nas conquistas."

"No curto, médio e longo prazo, as consequências dessa perda para as crianças podem ser mais graves do que as causadas pela pandemia de COVID-19", explicaram eles.

Os autores defendem a vacinação como uma das prioridades em saúde pública, devendo ser mantida sempre que possível, com a adoção de estratégias adaptadas às realidades locais. É importante preservar a segurança dos profissionais de saúde e respeitar as regras de distanciamento social, por exemplo.

As crianças menores de cinco anos, as gestantes e os grupos de risco devem ser priorizados. Além disso, em situações em que o oferecimento da vacinação precise ser interrompido por conta da covid-19, devem ser pensadas estratégias de retomada com localização e acompanhamento daqueles que não foram vacinados.

O Dr. Paulo alerta ainda que os profissionais de saúde devem estar atentos à emergência de dois movimentos antivacina: O primeiro deles, já tradicional, vem do que seria a "medicina alternativa ou natural", e o segundo teria fundamentação política, vindo dos Estados Unidos, e que nega qualquer ação ou atividade de interesse coletivo, como por exemplo, as vacinas.

Ele sugere também que as escolas poderiam ter um papel fundamental nesse processo: "Se as escolas cumprirem o dever legal de exigir a vacinação atualizada, o problema será reduzido", afirmou.

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