Distanciamento social influencia transmissão de outras doenças infectocontagiosas

Christine Kilgore

Notificação

30 de setembro de 2020

Os diagnósticos de 12 doenças comuns da infância em uma grande rede de atendimento primário infantil diminuíram significativamente nas semanas subsequentes ao distanciamento social por causa da covid-19 ter sido instituído em Massachusetts, nos Estados Unidos, em comparação com o mesmo período de 2019, revelou uma análise de dados de prontuários eletrônicos.

Embora a diminuição da transmissão das doenças infectocontagiosas com o distanciamento social não causem surpresa, "esses dados demonstram até que ponto a transmissão das doenças comuns da infância pode ser alterada quando o contato próximo com outras crianças é eliminado", Dr. Jonathan Hatoun, médico no Pediatric Physicians' Organization at Children's in Brookline, Massachusetts, e coautores escreveram no periódico Pediatrics. "Especialmente, três das doenças estudadas (a saber, a gripe, o crupe e a bronquiolite) praticamente desapareceram com o distanciamento social."

Os pesquisadores analisaram a incidência semanal de cada diagnóstico para períodos semelhantes em 2019 e 2020. O período pré-distanciamento social foi definido como da 1ª a 9ª semana, começando em 1º de janeiro, e o período pós-distanciamento social foi definido como da 13ª a 18ª semana. (A lacuna de várias semanas representou o período de implementação, visto que o distanciamento social foi instituído no estado no início de 2020, com o decreto de "estado de emergência" em todo o estado até o fechamento das escolas e as recomendações para ficar em casa.)

Para isolar o efeito do distanciamento social generalizado, os pesquisadores fizeram uma "análise de regressão de diferença em diferenças, com a contagem do diagnóstico em função do ano civil, período de tempo (pré- vs. pós-distanciamento social) e da interação entre os dois". A rede pediátrica de Massachusetts atende aproximadamente 375.000 crianças de 100 localidades no estado.

No resumo da pesquisa, Dr. Jonathan e coautores apresentaram incidências semanais de diagnósticos expressas em 100.000 pacientes/dia. A incidência de bronquiolite, por exemplo, foi de 18 e 8 nas semanas pré e pós-distanciamento social equivalentes de 2019, respectivamente, e 20,0 e 0,6 nas semanas pré e pós-distanciamento social de 2020. A análise do grupo mostrou que a incidência no período pós-distanciamento social de 2020 foi de 10 diagnósticos por 100.000 pacientes/dia abaixo do esperado pela tendência de 2019.

As incidências de pneumonia, otite média aguda e faringite estreptocócica foram de modo semelhante de 14, 85 e 31 diagnósticos por 100.000 pacientes/dia mais baixos, respectivamente. A prevalência de cada um dos outros quadros analisados – resfriado comum, crupe, gastroenterite, faringite não estreptocócica, sinusite, infecção cutânea e de partes moles e infecção urinária – também foi significativamente menor no período pós-distanciamento social de 2020 do que seria esperado pelos dados de 2019 (P < 0,001 para todos os diagnósticos).

Pondo em perspectiva

"Este estudo coloca em números o que todos nós percebemos na pediatria – que o distanciamento social parece ter tido um efeito considerável na transmissão das doenças comuns da infância, especialmente por outros vírus respiratórios patogênicos", disse em uma entrevista a Dra. Audrey R. John, Ph.D., médica e chefe do serviço de infectologia pediátrica do Children's Hospital of Philadelphia.

Os autores reconheceram a possibilidade de as famílias não terem procurado atendimento, mas disseram que a diminuição menos expressiva dos diagnósticos de infeção urinária na unidade de terapia intensiva – que geralmente não ocorre por doença contagiosa – "sugere que as mudanças no comportamento de procura por atendimento tiveram um efeito relativamente discreto nas outras quedas observadas." (A incidência de infeção urinária nos períodos pré e pós-distanciamento social foi de 3,3 e 3,7 por 100.000 pacientes/dia em 2019, e 3,4 e 2,4 em 2020, para uma diferença em diferenças de - 1,5.)

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. David W. Kimberlin, médico, e a Dra. Erica C. Bjornstad, Ph.D., médica da University of Alabama em Birmingham, disseram que o artigo é "provocante", e escreveram que observações semelhantes na queda do número de infecções em períodos de isolamento – ou seja, quedas consideráveis do número de casos de gripe e de outros vírus respiratórios em Seattle após uma tempestade de neve recorde em 2019 –, junto com os achados de outros estudos de modelagem, "sugerem que a queda descrita em Boston é de fato real" ( Pediatrics 2020. doi: 10.1542/peds.2020-019232).

No entanto, "agora também sabemos que a prevalência de imunização entre as crianças norte-americanas despencou desde o início da pandemia de SARS-CoV-2 por causa de uma diminuição acentuada da utilização dos serviços de saúde durante os primeiros meses da pandemia", escreveram os comentaristas. "Deste ponto de vista", as quedas descritas em Boston podem refletir infecções "não diagnosticadas e não tratadas".

Em última instância, disseram Dr. David e Dra. Erica, "o caso ainda não foi encerrado".

A Dra. Audrey disse que os profissionais de saúde estão "preocupados com as crianças que não procuram atendimento em tempo hábil e que as reduções descritas das infecções possam refletir o fato de não terem sido identificadas, e não a inexistência de transmissão."

Na Filadélfia, no entanto, a queda do número de internações por crise de asma, "que costuma ser causada por infecção respiratória viral, sugere que este possa não ser o caso", disse Dra. Audrey, convidada a comentar o estudo.

Além disso, disse a comentarista, os dados de Massachusetts mostrando que os diagnósticos de infeção urinária "foram quase tão comuns este ano quanto em 2019" são "tranquilizadores".

Existem lições para o futuro?

O coautor Dr. Louis Vernacchio, diretor médico da Pediatric Physicians' Organization at Children's Network, disse em uma entrevista que, além da pandemia, é provável que "a atenção mais criteriosa às práticas comprovadas de controle da infecção nas creches e nas escolas possa ter reduzido o número de doenças comuns da infância".

A Dra. Audrey também vê uma vantagem em longo prazo da quantificação do impacto do distanciamento social. "Sempre soubemos, por exemplo, que a bronquiolite decorre de uma infecção viral". Descobertas como os dados de Massachusetts "nos ajudarão a orientar as famílias que podem tentar proteger seus bebês prematuros (em risco de bronquiolite grave) por meio do distanciamento social".

A análise foi feita com consultas presenciais e de telemedicina realizadas nos dias de semana.

Os autores do resumo da pesquisa informaram que não tinham conflitos de interesse financeiros relevantes e que não houve financiamento externo. Os comentaristas também informaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes. A Dra. Audrey John informou não ter conflitos de interesse financeiros relevantes.

Fonte: Hatoun J et al. Pediatrics. 2020. doi: 10.1542/peds.2020-006460.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge — Medscape Professional Network.

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