COMENTÁRIO

Tecnologia e o futuro na cardiologia

Dra. Mariana Perroni

Notificação

30 de setembro de 2020

Uma em cada três pessoas morrem por doenças cardiovasculares por ano no mundo. Elas constituem a principal causa de morte no planeta, sendo responsáveis por 17,9 milhões de óbitos anualmente. A situação é tão expressiva, que ganhou o título de "epidemia silenciosa". A razão para isso é o fato de essas doenças demorarem a manifestar sintomas e serem consequência de anos e mais anos de maus hábitos, como alimentação inadequada e sedentarismo.

A prevenção e a detecção precoces são cruciais para mudar esse cenário. Historicamente, médicos lançam mão de dois tipos de abordagens no consultório: a orientação dos pacientes a respeito dos fatores de risco modificáveis e da necessidade de mudanças no estilo de vida e a limitação dos danos, por meio de tratamentos medicamentosos e intervencionistas.

O grande problema é que a saúde não acontece apenas dentro do hospital ou do consultório, mas sim naqueles outros 364 dias fora da data da consulta ou da avaliação anual. E, por isso, sempre foi tão difícil combater essa epidemia silenciosa.

Até agora.

Vivemos um momento único na história da humanidade. Três revoluções industriais ocorreram no mundo. Estamos vivenciando a quarta, que faz com que tecnologias antes disponíveis apenas para grandes corporações fiquem cada vez mais acessíveis, catalisando o processo de transformação digital em todos os setores e esferas, inclusive na medicina. Sensores, inteligência artificial (IA), internet of things e wearables começam a fazer parte do cotidiano na medicina, quebrando paradigmas e trazendo novas possibilidades.

Por meio de modernos sensores e algoritmos de inteligência artificial, smartwatches já são capazes de detectar (e notificar) alterações no ritmo cardíaco desde 2018, inclusive com a aprovação da Food and Drugs Administration (FDA) dos Estados Unidos. Em novembro de 2019, foi publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) o maior estudo de rastreamento de fibrilação atrial do mundo: o Apple Heart Study , que contou com uma impressionante amostra de quase 420.000 pacientes monitorados por meio de smartwatches.

Os relógios monitoram a pressão arterial ao longo do dia e geram relatórios de tendência que auxiliam cardiologistas a escolher o esquema terapêutico mais adequado para tratar pacientes hipertensos. Sensores semelhantes a pequenos adesivos são capazes de monitorar até 12 variáveis à distância, sem a necessidade de cabos, transformando a monitorização remota, seja em enfermarias ou domicílios.

É possível simular a resposta de um paciente a um determinado esquema terapêutico por meio de soluções tecnológicas que emulam um "gêmeo digital" e cruzam diversos tipos de dados como perfil farmacogenético, peso, altura, função hepática e renal, por exemplo. Auxiliando, assim, a personalização de tratamentos e um maior avanço em direção à medicina de precisão.

A inteligência artificial também se torna aliada para otimizar a realização de ecocardiogramas, com algoritmos capazes de auxiliar o médico na aquisição e interpretação das imagens ou mesmo para permitir análises até então impossíveis como, por exemplo, realizar o rastreamento para a doença cardiovascular por meio da análise de fundo de olho, como foi demonstrado em um estudo publicado no periódico Nature.

Modernos (e pequenos) sensores podem ser inseridos por meio de um cateterismo e auxiliar no manejo de pacientes com insuficiência cardíaca, por meio da monitorização constante das pressões da artéria pulmonar. Com isso, alterações são detectadas (e podem ser abordadas) antes que a descompensação se instale e o edema e ganho ponderal ocorram ou mesmo que uma internação hospitalar seja necessária.

Esses são apenas alguns exemplos da transformação que se iniciou. O denominador comum é a percepção de que o futuro, não só da cardiologia, mas da medicina como um todo, caminha cada vez mais para a predição, intervenção precoce e prevenção de agravos do que para o tratamento de doenças já estabelecidas. E para uma maior sinergia com a tecnologia.

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