Estudo sugere reação cruzada inversa entre vírus da dengue e SARS-CoV-2

Mônica Tarantino

Notificação

23 de setembro de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

O SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), vírus causador da covid-19, desafia a ciência a encontrar formas de vencê-lo. No dia 21 de setembro, um novo estudo disponibilizado em preprint na plataforma MedRxiv.org lançou mais uma hipótese nessa batalha.

Liderado pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor da Duke University, nos Estados Unidos, o trabalho aponta a existência de uma possível interação imunológica entre os vírus da dengue e o SARS-CoV-2, que pertencem a famílias diferentes (Flaviviridae e Coronaviridae ). Essa interação levaria ao surgimento de uma imunidade cruzada.

O achado ocorreu durante os estudos sobre os fatores que impulsionam a distribuição geográfica desigual dos casos e mortes por covid-19 no Brasil. Os autores descobriram que, apesar de ter desembarcado no aeroporto, o novo coronavírus rapidamente pegou as estradas brasileiras. Uma das conclusões do grupo é que 26 rodovias federais responderam por cerca de 30% da propagação de casos do SARS-CoV-2. A disseminação rápida da covid-19 pelo interior do país estaria também correlacionada à distribuição geográfica dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) do país, o que ajudaria a entender algumas distorções na distribuição das mortes pela doença. Por fim, os cientistas observaram que a distribuição geográfica da dengue era complementar à da covid-19.

De acordo com os pesquisadores, nos estados onde uma grande fração da população havia contraído dengue em 2019 e 2020, a covid-19 demorou mais tempo para atingir a transmissão exponencial, e as notificações de casos e óbitos por covid-19 foram menores. A mesma correlação inversa entre covid-19 e dengue foi vista em alguns países da Ásia, da América Latina e em ilhas nos oceanos Pacífico e Índico.

Em entrevista ao Medscape, o Prof. Nicolelis falou sobre as descobertas de seu trabalho, os estudos necessários para comprová-las, e o possível impacto na contenção dos casos e óbitos pelo SARS-CoV-2.

No decorrer do estudo sobre a disseminação geográfica da covid-19 e o papel das rodovias, o senhor já tinha em mente algo sobre imunidade cruzada?

Prof. Miguel Nicolelis: Nós tínhamos um modelo de espalhamento do vírus pela rede rodoviária brasileira, que está nesse artigo também, e que explicava os casos de todos os municípios do país. Só que os dados não batiam na região Sul como um todo, no oeste de São Paulo, em Minas Gerais e na Bahia. E não bateram por muitos dias. Quebramos a cabeça por semanas e não encontramos nada errado com o modelo. Então falei para pensarmos sobre o que poderia ser um fator que tivesse criado uma barreira nesses estados – e fiquei com isso na cabeça, até que uma jornalista me perguntou por que os casos de dengue tinham caído no Brasil, em vez de subir. Essa conversa foi no dia 18 de agosto. Eu respondi que não tinha a menor ideia, porque a previsão é que este fosse o pior ano da dengue. Eu receava, inclusive, que os vírus Influenza, da dengue e o novo coronavírus fossem ocorrer ao mesmo tempo no Brasil. Foi o que chamei de tempestade perfeita, em junho ou julho. Na madrugada de 21 de agosto, eu tinha parado de fazer algumas coisas e fui ao site do Ministério da Saúde ver os relatórios. Ao abrir o primeiro boletim, vi um mapa com a distribuição da dengue em 2020 e foi aí que eu quase caí da cadeira.

Por quê?

Prof. Miguel Nicolelis: Como eu tinha decorado o mapa do coronavírus, ao olhar os mapas da dengue percebi que as imagens se sobrepunham. Tirei uma foto do mapa e abri as imagens em uma tela grande. Coloquei um mapa sobre o outro e aumentei a transparência. Parecia aquele momento em que você coloca a peça final em um quebra-cabeças.

Qual é a correlação entre a dengue e a covid-19?

Prof. Miguel Nicolelis: Os nossos resultados sugerem que existe uma reação cruzada inversa entre os vírus da dengue e o SARS-CoV-2. Os estudos epidemiológicos mostraram que, nos locais onde houve muitos casos de dengue no ano passado e em 2020, a incidência de casos e mortes por covid-19 e a velocidade da disseminação do novo coronavírus foram bem menores. Os dois vírus parecem competir, só que o SARS-CoV-2 tem uma vantagem: ele é transmitido mais rapidamente, pelo contato homem-homem, enquanto o da dengue precisa do mosquito, do vetor.

Quando o novo coronavírus entra no ambiente, ele ganha; e por isso, as curvas de casos de dengue em 2020, para quando estava prevista a maior pandemia de dengue da história, de repente caíram. As agências pensavam – e ainda pensam – que era subnotificação. O que nós encontramos foi que o SARS-CoV-2 ocupou o pool de pessoas susceptíveis, impedindo que a dengue proliferasse nessas pessoas.

O novo coronavírus se espalha mais rapidamente onde tem muita gente.

Prof. Miguel Nicolelis: Sim. Ele é um corredor mais rápido do que o vírus da dengue. Nas grandes cidades do Brasil, talvez com exceção de Belo Horizonte, onde o índice de casos de dengue é muito alto, o SARS-CoV-2 entrou e ganhou a competição, porque ele se espalha muito rapidamente onde há aglomeração de pessoas. Então, em 2020, a dengue perdeu essa disputa.

Na segunda parte de uma das figuras (fig. 6) que ilustram o nosso trabalho, [1] há alguns círculos indicando a densidade demográfica das cidades, o que nos permite observar que a dengue ganha nas cidades de pequeno e médio portes, e que o novo coronavírus ganha nas cidades grandes. Tanto é, que na Índia ele ganhou a competição. Mas a dengue foi suficiente para atrasar a curva epidêmica do Paraná, de Minas Gerais e das regiões Sul e Centro-Oeste – algo que ninguém entendia. Todo mundo achou que estava ocorrendo algum tipo de subnotificação demasiada nos dados de Minas Gerais, por exemplo; mas não, provavelmente foi a dengue que adiou a disseminação do novo coronavírus.

Quais são os próximos estudos a serem feitos para validar essa hipótese?

Prof. Miguel Nicolelis: A primeira coisa seria fazer um estudo com pessoas com história comprovada de dengue, a fim de verificar a porcentagem de indivíduos que não foi infectada pelo o novo coronavírus em comparação com um grupo de controle (sem história de dengue). Em seguida, é necessário fazer estudos imunológicos, analisando amostras sanguíneas de pessoas com história comprovada de dengue, mas sem história de infecção pelo novo coronavírus, e verificar a porcentagem de falsos-positivos para o novo coronavírus. Se a proteção cruzada for de 30% ou 40%, isso pode ajudar muita gente em uma situação emergencial. Particularmente, o uso da vacina de dengue mais eficaz pode melhorar dois problemas com uma vacinação só.

O senhor e seus colaboradores farão esses estudos?

Prof. Miguel Nicolelis: Vamos tentar. Estamos em busca de financiamento. Nós todos trabalhamos voluntariamente, da sala de estar de cada um, sem nenhum recurso, sem nenhum tostão envolvido. Como dizia o meu orientador – a propósito, eu sou neurocientista –, isso foi feito "só no suco de miolo".

Qual será a próxima publicação?

Prof. Miguel Nicolelis: Estamos terminando agora a segunda parte do estudo, para 71 países. Ficaria muito longo colocar tudo isso no mesmo trabalho. Reproduzimos o achado em todo o cinturão global de alto risco de dengue. São 25 países do Caribe, 15 da América Latina, 12 da Ásia e 19 da África.

De que modo os achados desse estudo podem contribuir para o enfrentamento da pandemia de covid-19?

Prof. Miguel Nicolelis: Eu acho que as variáveis que encontramos são inéditas. Ninguém as tinha descrito ainda. Vimos que as 26 maiores rodovias federais do Brasil respondem por 30% do espalhamento do SARS-CoV-2, também pudemos observar que a cidade de São Paulo é maior super spreader do mundo – tendo respondido por mais de 80% do espalhamento do vírus no início da pandemia; ou seja, se tivéssemos fechado as estradas de São Paulo, provavelmente teríamos tido uma chance de evitar essa tragédia. Outra variável são os locais de distribuição dos leitos de unidades de terapia intensiva, o que deslocou milhares de pessoas do interior do Brasil para as capitais. E há também a distribuição da dengue.

O mais interessante é que o mesmo estudo feito para os estados brasileiros também foi realizado para os estados mexicanos e colombianos, e nós obtivemos as mesmas curvas. Eu escrevi em algum lugar que, o que nós achamos é uma pequena luz de esperança no final do túnel. Se conseguirmos desenvolver isso rapidamente, talvez consigamos algo que reduza o risco de covid-19.

O Paraná foi o único estado brasileiro que fez uma campanha de vacinação massiva contra a dengue. O estudo apontou algo a esse respeito?

Prof. Miguel Nicolelis: O Paraná foi um dos estados que mais demoraram para acumular casos de covid-19; foi por causa dele, e do Mato Grosso do Sul, que eu conectei os pontos. Eu estava encafifado: Por que os casos não aumentavam nesses estados? São Paulo, a maior cidade espalhadora do vírus, tem um fluxo muito grande com Curitiba (um dos maiores do Brasil), mas a curva de covid-19 no Paraná foi uma das que mais demorou a aumentar em todo o país. Aí fui olhar e vi que a curva do Paraná é parecida com a de vários países, como o Vietnã, onde no ano passado houve centenas de milhares de casos de dengue, e onde quase não há casos de infecção pelo novo coronavírus.

Esses achados podem estar relacionados com alguns falsos-positivos dos testes sorológicos?

Prof. Miguel Nicolelis: Sim. Todo mundo reclamou dos testes, mas ninguém pensou que poderia ser um anticorpo produzido pela pessoa que tem dengue que ataca o novo coronavírus. No nosso trabalho, propusemos uma proteína em potencial, que é semelhante nos vírus da dengue e no SARS-CoV-2, no núcleo capsídeo que envolve o RNA dos vírus. Essa proteína gera resposta imunológica quando o indivíduo tem ou dengue ou coronavírus. Então, poderia haver imunidade cruzada.

Qual foi a sua reação quando teve esse momento 'Eureka!'?

Prof. Miguel Nicolelis: Não me aguentei, fui até varanda (eram três e meia da manhã), e gritei: 'BINGO!', a plenos pulmões. Devo ter acordado a metade do prédio. Só fui dormir ao meio-dia do dia seguinte, porque comecei a fazer as análises estatísticas e elas iam batendo, uma atrás da outra. Sinceramente, foi o típico processo de dedução científica, como disse uma colega da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), quando comentei sobre o artigo. E acontece quando a gente menos espera, nos momentos mais absurdos. É o que eu sempre falo aos meus alunos: Quando a ciência 'atomizou', quando ela virou a formadora de especialistas que conhecem tudo do nada, ela perdeu a chance de olhar por cima das nuvens. Então, as descobertas hoje em dia às vezes são feitas por pessoas que não são da área específica, porque elas têm um olhar diferente. E, eu sempre aprendi, desde a pós-graduação, que você precisa ter um olhar sistêmico, e não um olhar atômico. Tem de olhar para o conjunto. Biologia não é átomo, é interação, é dinâmica. Vamos ver se dá certo.

Foi o seu primeiro artigo publicado em uma plataforma de preprint? O que pensa a esse respeito?

Prof. Miguel Nicolelis: Veja, eu fiz essa descoberta na madrugada do dia 21 para 22 de agosto. Depois disso, me vi, com 40 anos de atividade, subindo um artigo junto com os meus colaboradores brasileiros, às cinco horas da manhã do dia 19 de setembro. Pensei comigo mesmo: 'Inovando aos 59 anos... Tá bom!' No dia 20 o artigo estava no site, disponível para o mundo. E eu acho que é assim que tem que ser! Por que não deixar o artigo aberto para todo mundo ver, e milhares de pessoas poderem opinar? Concorda? Qual é o drama? Não podemos ficar reféns da opinião de três ou quatro pessoas, que levam meses para isso. É preciso acabar com esse monopólio de publicações e com o tempo que leva para a comunicação científica ser trazida para a sociedade, ainda mais em uma emergência como essa que estamos vivendo. Uma jornalista perguntou hoje se o estudo já foi publicado. Eu disse: 'Claro que já foi.' Está no site de preprint, com meu nome lá. Eu tenho 40 anos de carreira, você acha que eu ia pôr o meu nome em uma coisa na qual não acredito?

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