Como auxiliar o processo decisório dos pacientes durante a pandemia

Mônica Tarantino

Notificação

11 de setembro de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

Nesta quinta-feira (10) o Brasil somava mais de 4,1 milhões de casos e 128 mil óbitos pelo SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), o vírus que causa a covid-19, e a maioria dos estados do país avançava na execução dos planos de retomada das atividades sociais e econômicas. Motivo de polêmica, a reabertura das escolas foi anunciada em alguns estados e adiada em outros.

Além disso, nessa conjuntura instável, cada mudança nas categorias de risco de regiões e cidades gera muitas dúvidas sobre a melhor conduta diante dos novos limites. Uma parte da população age como se a ameaça do novo coronavírus estivesse indo embora e a outra tenta decidir sobre a volta às aulas, se é seguro encontrar amigos e familiares, ir ao trabalho, à padaria, à academia ou andar nas ruas com mais tranquilidade.

Como encontrar respostas e se posicionar com mais segurança?

O Medscape abordou esse desafio com quatro especialistas. Eles sugeriram possíveis atitudes aos profissionais de saúde que desejam auxiliar as pessoas a tomarem as melhores decisões possíveis.      

Antes de qualquer coisa, é importante saber se o outro está disposto a falar de temas relacionados com a pandemia, disse o Dr. Marco Akerman, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

"Pode ser que a pessoa não ache que falar sobre as suas dúvidas e angústias a respeito da pandemia seja uma conversa para ter com o médico. Mas é interessante trazer para a relação médico-paciente a discussão sobre as interações sociais, perguntar como a pessoa está pensando a volta às aulas, a ida à padaria, a prática de atividade física, e buscar entender a forma como cada um vive isso, porque está havendo muito sofrimento mental."

Além do cansaço acumulado em mais de seis meses de pandemia, há o desgaste causado pela infodemia – termo criado para designar o excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma das consequências disso é que as dúvidas começam a se acumular, aumentando a tensão. O fato de o Brasil apresentar diferentes momentos da epidemia em diferentes regiões representa um peso adicional, prolongando a convivência com a doença.

"Em boa parte das situações, perguntar se a pessoa tem alguma dúvida pode ser suficiente para fazer aflorar as angústias e as perguntas", disse o cirurgião oncológico Dr. Gustavo Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

"O paciente que marca consulta por um problema na próstata precisa sentir que as portas estão abertas para que esse momento possa ser também uma fonte de informação confiável sobre a pandemia. Médico não é só aquele que trata, mas aquele que educa."

Outro passo importante para estabelecer um diálogo proveitoso é reconhecer as condições de cada um: "Podemos estar todos no mesmo mar, mas não estamos todos no mesmo barco", pontuou o Dr. Marco. Por isso, é importante conhecer a condição do outro, se está em situação de vulnerabilidade, se existem fatores de risco onde ele vive, quais são as condições da região, o que deseja – a pessoa quer sair para passear? Acolher um parente? Ir a uma festa de casamento na praia? Questionamentos como esses ajudam a pensar a partir da própria realidade e riscos.

Decisões individuais e coletivas

Na visão da epidemiologista Dra. Ana Luiza Curi Hallal, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estabelecer uma boa linha de diálogo com os pacientes sobre a pandemia é uma atitude apropriada, especialmente no momento atual. De acordo com a Dra. Ana Luiza, há várias decisões difíceis sendo feitas em nível individual, mas muitas pessoas não se sentem aptas a decidir se seus filhos devem voltar a frequentar a escola ou não, e se perguntam como tomar essas decisões. Ela observou que a transferência de responsabilidade sendo feita pelo poder público ao cidadão comum "é algo muito complicado".

"As decisões vão ficar a cargo de cada um com base em quê?" questionou o Dr. Marco. "Para a pessoa tomar uma decisão, ela precisa ter informações bem produzidas e deve haver um certo alinhamento e articulação entre os níveis do governo. Mas, quando o presidente diz uma coisa, o governador diz outra e o prefeito ainda outra, isso cria um ruído muito grande na informação. Quanto menos divergência houver, mais segurança as pessoas terão a respeito das decisões que estão tomando", observou o especialista.

Os profissionais de saúde entrevistados pelo Medscape observaram que o retorno às aulas presenciais, um tema urgente que tira o sono de milhares de famílias e tem grande impacto social, precisa ser mais discutido entre os pais, professores e profissionais de saúde.

"Está faltando algo comunitário, uma conversa entre pais, professores, diretores das escolas privadas e públicas, que pode ter também a participação da unidade básica de saúde ou de médicos, na qual as pessoas possam compartilhar os seus receios, medos e dificuldades de tomar uma decisão desde que isso possa ser algo pactuado entre todos", disse o Dr. Marco. É um caminho que pode diminuir o peso desse tema sobre os ombros dos pais, que aumenta se o assunto permanecer restrito ao âmbito familiar.

Como contribuição ao debate, o professor observou que as instituições de ensino precisam garantir condições mínimas para os estudantes, como banheiros limpos, sabonetes, dispensadores de álcool em gel espalhados pela escola, máscaras, proporcionar alimentação. Tudo isso precisa ser discutido e combinado.

Outra ação ao alcance dos médicos, segundo a Dra. Ana Luiza, é ajudar a população a entender os quatro indicadores de saúde usados para avaliar a magnitude da pandemia: as taxas de mortalidade, incidência, transmissibilidade (Rt) e ocupação de leitos.

"Os médicos estão familiarizados com essas informações, eles podem esclarecer o que significam e se estão aumentando ou diminuindo em determinada região, o que mostra se a área está ou não em condições de proceder com a abertura do sistema escolar. Uma espécie de atuação pedagógica, que os profissionais de saúde podem desempenhar na sua comunidade, área de atuação ou com os pacientes."

Orientar a comunidade sobre os protocolos e melhores práticas a serem adotados pelas escolas é mais uma maneira de dar suporte. "Nem todo mundo tem acesso a informação ou consegue entender as recomendações. Mesmo que o profissional não conheça os detalhes, pode se atualizar facilmente sobre esses assuntos e repassar em uma linguagem clara as orientações sobre higienização, distanciamento social, ventilação, entre outras coisas", disse a Dra. Ana Luiza.   

Igualmente oportuno é auxiliar as famílias a identificarem se convivem com alguém que tenha fatores que favoreçam o desenvolvimento da forma grave da doença em caso de contaminação com o SARS-CoV-2, como ocorre com algumas doenças crônicas. Isso é algo "importante para ter maior clareza dos riscos aos quais a família estará exposta ao decidir sobre a volta à escola", disse a médica.

Onde os profissionais de saúde podem encontrar suporte e respostas para as suas dúvidas? A pandemia multiplicou as dificuldades de um cotidiano de cargas horárias extensas e acelerou uma exigência de atualização científica que já era alta.

"Mais do que todos os outros profissionais, precisamos nos manter atualizados para conhecer as condutas seguras e passá-las adiante", disse o Dr. Gustavo.

Com foco nos profissionais da atenção básica, a solução encontrada pelos coordenadores do programa PROFSAÚDE, um mestrado strictu sensu em Saúde da Família oferecido em rede por 22 universidades, foi incorporar a leitura de artigos e a discussão de evidências sobre a covid-19 às suas disciplinas e promover workshops e eventos on-line para discutir as estratégias do cuidado na atenção básica.

Mais de 380 médicos de todo o país participam dessa formação. "Usamos esse espaço para mitigar dúvidas, a ideia é aprender um com o outro", explicou o Dr. Deivisson Vianna Dantas dos Santos, psiquiatra, coordenador do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e responsável regional pelo programa.

No início de agosto, um encontro promovido por essa iniciativa abordou cinco experiências de UBSs no atendimento dos casos de covid-19. "Houve unidades que separaram a recepção, abriram plantão de chamadas e também que organizaram um kit cloroquina, o que trouxe a discussão sobre a pressão sofrida pelos médicos para prescrever esse medicamento, as dúvidas sobre a eficácia e a falta de evidências científicas", descreveu o psiquiatra e especialista em saúde coletiva.

"Não se pode deixar os médicos à mercê das informações falsas", disse o Dr. Deivisson. Essa é mais uma preocupação: "Precisamos manter o alerta contra tratamentos sem evidência científica. Pessoas morreram porque tomaram soda cáustica por acreditar em crendices disseminadas em redes sociais", reforçou o Dr. Gustavo. 

A intenção é que esse aprendizado se multiplique. "Todos esses médicos de família estão sendo formados para orientar equipes e atuar como professores", explicou o Dr. Deivisson. Lamentavelmente, o impacto dessa ação será menor do que se poderia esperar sobre os profissionais que atuam no contato direto com a população.

"Desde 2013, o número de agentes comunitários de saúde em todo o país diminuiu cerca de um terço. Curitiba, por exemplo, que tinha cerca de 1.000 agentes, hoje tem apenas 390, mas precisaria ter mais de 1.500", disse o Dr. Deivisson.  

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