Teste com ‘esponja ingerível’ facilita diagnóstico de câncer de esôfago

Neil Osterweil

Notificação

9 de setembro de 2020

Um dispositivo experimental de coleta de células, que pode ser administrado sem anestesia na atenção primária, se mostrou superior na detecção do esôfago de Barrett em comparação com o procedimento padrão, em um ensaio clínico comunitário.

O uso deste dispositivo, chamado Cytosponge-TFF3, pode permitir que os médicos realizem o diagnóstico de doenças esofágicas, como displasia ou câncer, em estágio inicial e potencialmente curável, disseram os pesquisadores. No entanto, também aumentaria a probabilidade de endoscopias desnecessárias, devido aos falsos-positivos, alertaram.

"Neste ensaio clínico pragmático, randomizado e multicêntrico, descobrimos que a indicação do teste Cytosponge-TFF3 aumentou a incidência de diagnóstico de esôfago de Barrett em comparação com o procedimento padrão na prática clínica", escreveu a Dra. Rebecca C. Fitzgerald, médica do Hutchison/MRC Research Centre, Reino Unido, e colaboradores.

O estudo foi publicado on-line em 1º de agosto no periódico The Lancet.

"Este é um estudo muito importante, um divisor de águas", disse o Dr. Stephen J. Meltzer, médico e professor de medicina e oncologia da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, que foi solicitado a comentar o trabalho.

"O estudo mostra que optar por fazer esse procedimento aumenta em muito a probabilidade ter o Barrett diagnosticado, em comparação com não fazer", disse ele.

Ele parabenizou a Dra. Rebecca e colaboradores pela conclusão bem-sucedida de um grande ensaio clínico utilitário na atenção primária.

"Esses são estudos muito difíceis de fazer. Trata-se de olhar para o impacto real de uma intervenção, que é a esponja", disse o médico em entrevista ao Medscape.

Absorção de células

O Dr. Stephen foi autor sênior de um estudo caso-controle publicado em 2019 no periódico Clinical Cancer Research, que descreveu o uso de um dispositivo semelhante. Como relatado anteriormente, esse dispositivo, chamado EsophaCap, usa uma técnica de "metilação numa pílula" para coletar o DNA por meio de uma esponja, que é ingerida pelo paciente. O DNA é então extraído da esponja e analisado com um painel de biomarcadores de metilação.

Assim como o EsophaCap, o Cytosponge-TFF3 consiste em uma esponja comprimida e revestida de gelatina para coleta presa a um fio. O paciente ingere o dispositivo e, depois que a gelatina tiver dissolvido e a esponja expandido, é gentilmente retirado pelo esôfago, coletando células por onde passa.

As células coletadas são então analisadas com um teste in vitro para o biomarcador fator trifólio 3 (TFF3, acrônimo do inglês, Trefoil Factor 3), um sinal de metaplasia intestinal, que é uma característica histológica do esôfago de Barrett, explicaram os autores.

Estudo Cytosponge-TFF3

O estudo da Dra. Rebecca e colaboradores foi realizado em pacientes que faziam uso de medicamentos para refluxo gastroesofágico. Os pacientes estavam em tratamento em 109 clínicas gerais da Inglaterra.

Os critérios de inclusão foram: ter a partir de 50 anos de idade, estar em uso de inibidores da secreção de ácido para refluxo gastroesofágico por mais de seis meses e não ter realizado endoscopia nos últimos cinco anos.

O estudo foi randomizado em nível de clínica (randomização por cluster) e em nível individual. Os pacientes foram designados para fazer o procedimento padrão em caso de refluxo gastroesofágico, com realização de endoscopia apenas quando recomendada pelo médico, ou para o grupo intervenção, no qual os fizeram o procedimento padrão e foi oferecida a possibilidade de realizar o teste Cytosponge-TFF3. Os pacientes cujas amostras produziram células positivas para TFF3 foram posteriormente submetidos à endoscopia.

Dos 6.834 pacientes designados para o grupo intervenção, 2.679 (39%) concordaram em realizar o teste Cytosponge-TFF3; destes, 1.750 preencheram todos os critérios de elegibilidade para o rastreamento por telefone e foram submetidos ao procedimento.

A grande maioria dos pacientes (95%) que concordou em realizar o procedimento conseguiu engolir a cápsula com o fio.

Os pacientes no grupo intervenção que recusaram o teste Cytosponge-TFF3, bem como todos os pacientes no braço procedimento padrão foram submetidos a endoscopia apenas em caso de recomendação médica.

Durante um acompanhamento médio de 12 meses, 140 dos 6.834 pacientes no grupo intervenção (2%) receberam diagnóstico de esôfago de Barrett, em comparação com 13 dos 6.388 pacientes no grupo procedimento padrão (0,2%). A diferença absoluta por 1.000 pessoa-anos, o desfecho primário do estudo, foi de 18,3. A razão de risco ajustada para a randomização do cluster foi de 10,6 (P < 0,001).

Quatro pacientes do grupo intervenção receberam diagnóstico de esôfago de Barrett displásico e cinco receberam diagnóstico de câncer esofagogástrico em estágio I. Nenhum paciente no grupo procedimento padrão teve qualquer um destes diagnósticos.

Dos 1.654 pacientes do grupo intervenção que optaram por realizar o teste Cytosponge-TFF3 e engoliram a esponja com sucesso, 221 foram submetidos a endoscopia após resultado positivo para TFF3. Destes pacientes, 131 (59%) receberam diagnóstico de esôfago de Barrett ou câncer.

O evento adverso mais comum ao teste Cytosponge-TFF3 foi dor de garganta, relatado por 4% dos que optaram pelo exame. Em um paciente, o fio se soltou do Cytopsonge-TFF3, e foi necessário realizar uma endoscopia para remover o dispositivo.

Promissor, mas ainda precisa melhorar

Em um editorial que acompanha o estudo, a Dra. Yuri Hanada e o Dr. Kenneth K. Wang, ambos médicos do Departamento de Gastroenterologia da Mayo Clinic, nos EUA, afirmaram que o teste Cytosponge-TFF3 "é uma ferramenta de rastreamento não endoscópica promissora, e será um componente do rastreamento para o esôfago de Barrett e do câncer gastroesofágico".

Eles disseram, no entanto, que é improvável que seja a única ferramenta de rastreamento para o esôfago de Barrett, e que o seu uso na atenção primária pode ser problemático durante a pandemia de covid-19, devido à liberação de partículas aerossolizadas quando a esponja é retirada do esôfago.

"Também pode ser necessário aumentar a prevalência da doença na população rastreada, limitando essa população a homens e pessoas com outros fatores de risco, a fim de tornar este exame mais custo-efetivo do que o demonstrado anteriormente", escreveram eles.

Taxa de aceitação baixa?

O Dr. Stephen destacou que, apesar de ser menos invasivo do que a endoscopia, apenas 39% do grupo que poderia realizá-lo concordou em fazê-lo.

"Foi meio surpreendente, porque, na minha experiência, quando eu ofereço aos pacientes a aceitação é muito maior, mas isso não é em uma situação de ensaio clínico controlado, então realmente não sei qual é a verdadeira porcentagem", disse ele.

Ele ressaltou que os pacientes que atendidos em sua clínica são mais propensos a serem sintomáticos e altamente motivados para aceitar um exame, diferente da população geral do estudo.

Ele também disse que a taxa de prevalência confirmada por endoscopia de esôfago de Barrett ou câncer em 221 pacientes no grupo intervenção foi de 59%, indicando que 41% foram submetidos a endoscopia desnecessária após a triagem do estudo Cytosponge-TFF3.

Dra. Rebecca e colaboradores reconheceram o potencial de diagnósticos prescindíveis com este tipo de rastreamento. Eles citaram um debate sobre se segmentos mais curtos de até 1 cm do esôfago de Barrett seriam de relevância clínica. E também explicaram que o teste TFF3 (usado no dispositivo CytoSponge) é sensível, e detecta alguns segmentos curtos do esôfago de Barrett, e que "por tratar-se de um ensaio pragmático que se baseou em um diagnóstico codificado de esôfago de Barrett, também identificamos pacientes no grupo de procedimento padrão que tinham segmentos curtos do esôfago de Barrett (≤ 1 cm de comprimento) e foram diagnosticados como tendo a doença, refletindo a variabilidade do atendimento nos hospitais do Reino Unido.

"Esperamos que esses pacientes possam se sentir tranquilos e seguros, e que provavelmente não necessitem de vigilância", eles disseram. "Isto é consistente com as diretrizes clínicas, que sugerem que pacientes com > 1 cm de epitélio cor de salmão contendo metaplasia intestinal devam ser monitorados".

O estudo foi financiado por: Cancer Research UK, UK National Institute for Health Research, UK National Health Service, Medtronic e MedicalResearchCouncil. A Dra. Rebecca C. Fitzgerald foi nomeada em patentes relacionadas com o teste Cytosponge-TFF3. O Dr. Stephen J. Meltzer foi cofundador de uma empresa, Capsulomics, para comercializar o painel de biomarcador de metilação usado em estudos EsophaCap. O Dr. Kenneth K. Wang recebeu financiamento da eNose para a pesquisa de um dispositivo usado em um estudo de rastreamento do esôfago de Barrett.

Lancet. Publicado on-line em 1º de agosto de 2020. Texto completo, Editorial

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