COMENTÁRIO

Reinfecção por SARS-CoV-2: O que sabemos?

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

25 de agosto de 2020

Nesta segunda (24) um grupo de pesquisadores de Hong Kong publicou o primeiro caso bem documentado de reinfecção por SARS-CoV-2. Trata-se de um homem de 33 anos, diagnosticado com covid-19 em 26 de março de 2020, que foi internado, se recuperou e teve alta hospitalar. Em 15 de agosto, Ele apresentou novamente um teste positivo para o vírus. O sequenciamento do genoma completo dos vírus nos dois momentos mostrou que eram cepas diferentes. Nesta breve entrevista, o Dr. Hélio Magarinos, patologista, diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, e diretor da área de análises clínicas da Rede D'Or São Luiz, coloca em perspectiva o impacto dessa informação nos esforços de combate à pandemia, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento de vacinas contra o novo coronavírus.

Dr. Fabiano Serfaty: Hélio, essa publicação é o primeiro ou o último capítulo em relação a esse tema que interessa a toda população mundial?

Dr. Hélio Magarinos: Acho que o relato foi muito bem documentado, mas é ainda muito cedo para tirarmos conclusões sobre as consequências dele. Como já amplamente discutido, penso que nunca fizemos tantos testes para uma única doença como estamos fazendo para essa. Então, estamos aprendendo mais sobre as nossas respostas de defesa não apenas para essa, mas também para outras doenças. A publicação desse estudo é muito importante, mas ainda precisaremos aprofundar mais o conhecimento do tema para termos conclusões mais concretas.

Dr. Fabiano Serfaty: Na publicação citada o paciente apresentou sintomas como febre e tosse produtiva durante a primeira infeção, e apresentou um RT-PCR detectado para SARS-CoV-2. A alta hospitalar foi dada em 14 de abril, após dois RT-PCR não detectados para SARS-CoV-2, realizados com um dia de intervalo entre eles. Em agosto, o paciente apresentou RT-PCR para SARS-CoV-2 durante a triagem no aeroporto de Hong Kong, pois estava voltando de uma viagem feita da Espanha para Hong Kong com escala no Reino Unido. O paciente foi hospitalizado, mas permaneceu assintomático e afebril.  As únicas anormalidades laboratoriais foram a PCR ultrassensível elevada e a hipocalcemia. O paciente teve a IgG para SARS-CoV-2 dosada 10 dias após o início do primeiro episódio e um dia após o início do segundo episódio. Nos dois episódios a IgG para SARS-CoV-2 foi negativa. Apenas na amostra de soro coletadas no dia 5 após o segundo episódio foi detectado IgG positivo para SARS-CoV-2. A explicação que está sendo mais comumente dada é o que o paciente não desenvolveu IgG para combater a segunda infecção. Entretanto, sabemos que muitos pacientes desenvolvem anticorpos durante a fase tardia, ou seja, de 15 a 30 dias depois. Não temos este dado em relação ao primeiro episódio. E possível afirmar que este paciente não desenvolveu IgG? Como você enxerga esse quadro clínico descrito pelos pesquisadores?

Dr. Hélio Magarinos: Acho o fato de não se ter conseguido demonstrar a presença de anticorpos após a primeira infecção bastante importante, mas há uma limitação, porque a coleta da amostra de sangue foi feita ainda um pouco precoce, no 10º dia após o início dos sintomas – sabemos hoje que os testes atingem maior grau de sensibilidade após a 3ª semana. Por isso, não dá para afirmar com certeza se o paciente não formou anticorpos por ter tido uma doença leve ou se formou e os anticorpos tiveram seus níveis diminuídos durante este período, subindo novamente após a segunda infecção. O mais provável é que não tenha mesmo formado uma quantidade significativa de anticorpos, como pode acontecer em cerca de 40% dos casos.

Dr. Fabiano Serfaty: Então, assim como outros tipos de coronavírus podemos inferir que o SARS-CoV-2 pode permanecer presente na população, mesmo que esta tenha adquirido imunidade por meio de infecções prévias por SARS-COV-2?

Dr. Hélio Magarinos: Novamente, penso que o fato de não ter sido possível confirmar a presença dos anticorpos após a primeira infecção é bastante importante, pois não invalida a imunidade após processos de imunização, como a aplicação de vacinas. E também demonstra que pode ter havido algum tipo de sensibilização, talvez do tipo resposta celular, que possibilitou a formação rápida de anticorpos (após o 5º dia) na segunda infecção. Acho importante ter em mente que este relato não significa que um procedimento de vacinação não irá funcionar adequadamente, pois só teremos essas respostas após a conclusão dos estudos com vacinas. Mas, é importante para nos alertar de que pacientes que já foram infectados podem se reinfectar, mesmo que possam permanecer assintomáticos, como foi demonstrado na descrição desse caso. Mas, lembrando mais uma vez, ainda é um pouco precoce tirarmos algum tipo de conclusão.

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