Terapia intensiva: trabalho coletivo em um mundo individualista

Rodrigo Rocha; Dr. Rafael Vasconcellos; Dr. Paulo Cesar Pereira de Souza; Dr. Charles Souleyman Al Odeh

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13 de agosto de 2020

 

Em parceria com o podcast Polaris, o Conversa de Médico oferece aos colegas um delicioso bate-papo com uma figura histórica da medicina intensiva no Brasil: o Dr. Paulo Cesar Pereira de Souza, o PCzão, como é mais conhecido e chamado pelos colegas.

Com mais de 45 anos de prática dentro da medicina, PCzão vem de uma família recheada de médicos – pai, avôs, um bisavô, além de tios e primos –, e cuja trajetória se mistura com a própria história do país. O avô materno, conta ele, teve a formatura antecipada no quinto ano para poder atuar como médico no Rio de Janeiro durante a pandemia de gripe espanhola.

Da decisão de se tornar médico, ainda muito jovem, ao ingresso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1968 – depois de ter frequentado um curso preparatório cujo diretor era o Dr. Enéas Carneiro–, PCzão viveu os anos de ebulição política e social dentro de uma faculdade de medicina, à época, totalmente centrada em um ensino humanista.

“Foi um período difícil durante os militares. Os estudantes eram revistados diariamente nas dependências da faculdade. No ano em que me formei, cinco colegas meus estavam presos. Eles vieram da cadeia apenas para colar grau e depois voltaram para a prisão”, lembra.

Um pouco depois da formatura PCzão decidiu que queria estagiar no Hospital do Andaraí. As vagas, não remuneradas, eram superdisputadas. Mas o jovem médico conseguiu a sua e, uma vez lá, sob a batuta do Dr. Antônio Jorge, entre outros, bebeu de um modelo de ensino baseado na máxima “A medicina é aprendida à beira do leito e não nos anfiteatros”, de William Osler. À época ninguém poderia imaginar, mas o grupo forjado no Andaraí acabou por estabelecer os alicerces da terapia intensiva como uma especialidade médica no país.

De lá para cá muita coisa mudou na medicina e na própria especialidade. A tecnologia evoluiu, os desfechos melhoraram bastante, mas, segundo PCzão, a terapia intensiva segue sendo um trabalho essencialmente coletivo.

“Intensivista precisa ter espírito agregador, gostar de trabalhar em equipe. Se você é mais individualista, não escolha essa especialidade”, aconselha o médico veterano.

Desde o surgimento da medicina intensiva, a formação médica vem mudando muito. Na carona desta mudança, os vínculos do intensivista com o emprego dentro do hospital também foram, pouco a pouco, se deteriorando.

“Até antes da pandemia o intensivista era um funcionário de segunda-classe, sem plano de carreira, e sem muita perspectiva de ascensão dentro do hospital”, diz PCzão.

“Temos a responsabilidade de mudar o status quo pré-pandemia”.

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