Zika no primeiro trimestre da gestação aumenta risco de microcefalia em 41%

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

10 de agosto de 2020

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em junho no periódico BMC Public Health [1] revela que a ocorrência de infecção pelo vírus Zika sintomática no primeiro trimestre de gestação de um bebê/feto do sexo masculino aumenta o risco de microcefalia na infecção congênita por zika.

O trabalho, que foi desenvolvido durante o doutorado em medicina tropical da médica veterinária Dra. Luciana Gallo na Universidade de Brasília (UnB), sob orientação do Dr. Wildo Araújo, médico veterinário da UnB, e coorientação da Dra. Maria Velez, médica da Queen's University, no Canadá, partiu de uma busca em plataformas científicas (Ovid MEDLINE, Ovid MEDLINE (R) Epub ahead of print, Embase, Embase Classic, Web of Science, CINAHL, Cochrane CENTRAL, LILACS) e bancos de teses resultou na inclusão de 12 estudos observacionais na revisão sistemática.

Todas as pesquisas foram conduzidas nas Américas, sendo três nos Estados Unidos, uma no Caribe, seis no Brasil, uma na Guiana Francesa e uma na Colômbia.

Os estudos reuniram 6.154 neonatos/fetos, dos quais 1.120 (18,20%) foram diagnosticados com infecção por vírus Zika e 509 apresentaram microcefalia. A análise mostrou que recém-nascidos/fetos de mães que tiveram infecção por vírus Zika durante a gestação apresentaram chance até 21,9 vezes maior de microcefalia do que aqueles gerados por mulheres que não tiveram essa infecção durante a gestação.

Dos 12 estudos incluídos na revisão, seis autores forneceram dados primários das investigações, o que possibilitou a inclusão desses trabalhos na metanálise. Desses, três eram estudos de coorte com desenho prospectivo [2,3,4] e dois eram controles de caso com desenho retrospectivo. [5,6] Como a sexta pesquisa [7] foi a única a apresentar desenho transversal, esta foi excluída da metanálise.

A análise dos trabalhos prospectivos indicou três fatores prognósticos de microcefalia: sexo do bebê, com meninos apresentando risco relativo de 1,30 em relação às meninas; estágio da gestação no momento da infecção – infecção no primeiro trimestre foi associada a risco relativo de 1,41 em relação aos demais períodos gestacionais –; e infecção sintomática durante a gestação. Neste último caso, a taxa de risco de detecção de microcefalia em mulheres que não apresentaram sintomas como conjuntivite, prurido e rash foi reduzida (risco relativo de 0,68). Apenas o sexo do bebê pôde ser testado como fator de exposição na análise envolvendo os estudos retrospectivos e os autores também encontraram tendência a favor da proteção do sexo feminino.

Em entrevista ao Medscape, a Dra. Luciana Gallo e a Dra. Maria Velez explicaram que existem algumas teorias apontando para uma maior resistência dos indivíduos do sexo feminino para algumas infecções, contudo, estas teorias variam de acordo com a doença.

"Nós não esperávamos confirmar esta teoria para a infecção congênita pelo Zika. Pelo contrário, alguns autores tinham a impressão de que, na prática clínica, havia um maior número de meninas. Depois de nossa revisão sistemática, que incluiu casos de óbitos fetais, surgiu a hipótese de que estes pesquisadores talvez atendessem mais meninas porque os meninos podiam estar morrendo antes de nascer", afirmaram as pesquisadoras.

Por outro lado, o fato de a infecção no primeiro trimestre gestacional ser um fator de risco de microcefalia não surpreendeu a equipe, visto que é sabido que há uma maior vulnerabilidade do feto aos agentes externos durante esse período. As autoras lembraram, no entanto, que a pesquisa também corroborou achados da literatura que apontam que infecção pelo vírus Zika é um risco de microcefalia, independentemente do trimestre gestacional em que ocorra.

Quanto aos sintomas, a Dra. Luciana e a Dra. Maria explicaram que, embora algumas infecções se mostrem mais brandas de acordo com as manifestações apresentadas, este não pareceu ser o caso da infecção congênita pelo vírus Zika – especialmente considerando a alta proporção de casos assintomáticos. Por isso, embora fosse uma hipótese, ainda não era consenso entre os pesquisadores envolvidos na revisão sistemática que os casos de microcefalia estariam mais associados aos sintomas.

Embora o grupo de cientistas não tenha encontrado diferenças estatísticas que sustentem outras características avaliadas como fatores de risco para microcefalia, a investigação revelou uma tendência de que a etnia materna branca e a ausência de uso de tabaco, álcool e outras drogas podem atuar como fatores de proteção, enquanto a presença de comorbidades pode contribuir negativamente para a ocorrência desse evento.

Segundo a Dra. Luciana e a Dra. Maria, é importante lembrar que a maior parte dos estudos foi realizada em locais com população majoritariamente miscigenada (América Latina e Caribe) e que provavelmente a etnia, por si só, não seja um fator prognóstico, mas revele associações que existem por trás dela.

"Peguemos o caso do Brasil, fonte de dois dos estudos incluídos na nossa metanálise, por exemplo. Neste país, a etnia, mais do que um marcador genético ou hereditário, é um marcador socioeconômico, e é possível que pessoas de etnia branca tenham menor exposição ao vírus Zika pelas suas condições de vida e, também, podem ser pessoas com melhor status de saúde. Esta segunda possibilidade, de alguma forma apoia a hipótese de que a presença de comorbidades pode contribuir para a ocorrência da microcefalia", afirmaram.

Elas lembraram ainda que o uso de tabaco, álcool e outras drogas durante a gestação representa um risco de malformação fetal e, portanto, pode interagir com outros agentes e ampliar o risco de diversas morbidades conhecidas.

"Acreditamos que a nossa metanálise não tenha se apresentado estatisticamente significante para estes fatores pelo baixo número de estudos (e, consequentemente, de casos) incluídos, contudo, é plausível que este seja o caso", ponderou a dupla.

De fato, além do número de estudos (casos) restringir a capacidade estatística, é necessário atenção a outros elementos que podem impactar os resultados. Todas as metanálises, ressaltaram as pesquisadoras, estão sujeitas a erros nos resultados por conta de possíveis equívocos ocorridos nos estudos incluídos na análise, mas o fato de o grupo ter usado os dados primários das pesquisas contribui para reduzir esse problema.

Para as autoras, os achados podem auxiliar os responsáveis por tomar decisões, tanto no atendimento como na gestão de saúde. "Esperamos que os profissionais de saúde responsáveis pelo planejamento familiar e pelo pré-natal atentem para a importância de reforçar a prevenção da infecção pelo vírus Zika desde três meses antes da gestação – pois este é o tempo que o vírus pode ficar no sêmen – e por todo o período gestacional, com especial cuidado no primeiro trimestre. Infelizmente, hoje essa é ainda a única estratégia de prevenção da infecção congênita e seus efeitos. Contudo, também aguardamos que nossos resultados reforcem que a presença de sintomas sugestivos de zika durante a gestação deve ser investigada e acompanhada atentamente, a fim de detectar possíveis malformações oportunamente e de ofertar os serviços necessários para a gestante e sua família, incluindo cuidados de saúde mental e habilitação precoce para a criança", afirmaram, acrescentando que os resultados também podem contribuir para reduzir estigmas relativos à idade da mãe, assim como da etnia materna como fatores prognósticos.

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