Pesquisa brasileira destaca ausência de benefício com hidroxicloroquina na covid-19

Dra. Sabrine Teixeira Grünewald, MSc

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30 de julho de 2020

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Recentemente, uma pesquisa brasileira ganhou destaque internacional por ser um dos maiores estudos publicados até o momento a respeito do uso da hidroxicloroquina para tratar pacientes com covid-19.

O artigo, que reuniu dados de 55 hospitais brasileiros, foi publicado em julho no periódico The New England Journal of Medicine.

O estudo mostrou que, em pacientes adultos hospitalizados com covid-19 leve a moderada, a hidroxicloroquina (com ou sem azitromicina) não apresentou benefícios e aumentou o risco de eventos adversos.

A recomendação do Ministério da Saúde, no entanto, permanece a favor do uso da hidroxicloroquina para todos os casos ─ inclusive em gestantes e crianças.

Detalhes do estudo

A pesquisa incluiu 667 pacientes adultos consecutivos dos hospitais participantes da Coalizão Covid-19 Brasil. Os participantes foram randomizados em três grupos para receber hidroxicloroquina isolada, hidroxicloroquina + azitromicina ou tratamento padrão.

Todos os pacientes selecionados apresentavam quadro leve ou moderado, sendo excluídos, por exemplo, aqueles que necessitaram de altas frações inspiradas de oxigênio. Os pacientes internados nos hospitais participantes eram incluídos no estudo em caso de suspeita de infecção por SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2). A confirmação do diagnóstico foi realizada com o teste por reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR, sigla do inglês, Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction) em 504 participantes.

O tratamento padrão poderia incluir corticoides, imunomoduladores, antibióticos não macrolídios, dentre outros, a critério das equipes responsáveis pelos pacientes.

O desfecho principal foi a condição clínica do paciente 15 dias após a randomização, em uma escala ordinal de 1 (paciente em domicílio e sem limitações) a 7 (óbito). Os desfechos secundários incluíram resultados como necessidade de entubação, eventos tromboembólicos, óbito intra-hospitalar e duração da hospitalização.

Não houve diferença estatisticamente significativa entre os três grupos de tratamento quanto à razão de chances (OR, sigla do inglês, odds ratio) de se obter uma pior pontuação na escala de condições clínicas:

  • Hidroxicloroquina + azitromicina versus controle: OR de 0,99; intervalo de confiança (IC) de 95%, de 0,57 a 1,73; P = 1,00;

  • hidroxicloroquina isolada versus controle: OR de 1,21; IC 95%, de 0,69 a 2,11; P = 1,00; e

  • hidroxicloroquina + azitromicina versus hidroxicloroquina isolada: OR de 0,82; IC 95%, de 0,47 a 1,43; P = 1,00).

Para os desfechos secundários, também não houve diferença estatisticamente significativa em nenhuma das análises.

Os grupos de pacientes que receberam hidroxicloroquina apresentaram maior frequência de eventos adversos, especificamente de alterações eletrocardiográficas e elevação de marcadores de lesão hepática. Entretanto, esses grupos realizaram eletrocardiograma e exames de enzimas hepáticas com maior frequência do que o grupo de controle.

Perspectivas

O Dr. Alexandre Biasi Cavalcanti, diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração e primeiro autor do artigo, destacou que os estudos anteriores sobre cloroquina ou hidroxicloroquina são predominantemente observacionais ou com uma amostra pequena. Isso dificulta a avaliação dos efeitos do medicamento sobre os desfechos clinicamente relevantes, e pode favorecer fatores de confusão.

“A principal força do estudo é o delineamento, com alocação randomizada do tratamento e tamanho amostral de algumas centenas de pacientes, permitindo avaliar o efeito do tratamento em desfechos clinicamente relevantes”, ele explicou.

O Dr. Alexandre também informou que a equipe realizou outras análises, que combinarão os dados do estudo Coalizão I, que envolveu pacientes com covid-19 leve a moderada, com os do estudo Coalizão II (ainda não publicado), que comparou o uso de hidroxicloroquina + azitromicina versus hidroxicloroquina isolada em pacientes graves.

Lamentando a falta de eficácia da hidroxicloroquina, o Dr. Alexandre comentou sobre sua expectativa quanto a outros tratamentos para a covid-19.

“Alguns tratamentos com eficácia para a covid-19 já começam a surgir”, ele disse ao Medscape por e-mail. “Por exemplo, corticosteroides para pacientes hospitalizados e com necessidade de oxigênio suplementar, conforme demonstrado no estudo RECOVERY, ou rendesivir, um antiviral que inibe a DNA polimerase do SARS-CoV-2, que se mostrou útil também em pacientes hospitalizados”.

“As chances são muito altas de que novos antivirais com eficácia clínica sejam identificados nos próximos dois a quatro meses”, comentou.

Na opinião do Dr. Alexandre, pesquisas clínicas bem conduzidas são fundamentais para responder a questões médicas de modo confiável e informar as decisões terapêuticas. 

“Não é razoável administrar tratamentos cuja eficácia e segurança não tenham sido apropriadamente avaliadas por meio de ensaios clínicos randomizados”, disse. “Há ainda menos sentido em persistir administrando tratamentos comprovadamente ineficazes.”

O Dr. Alexandre também ressaltou a importância do cenário mundial de pesquisas na atualidade. “A realização de pesquisas clínicas ocorreu em velocidade e quantidade jamais vistas durante a pandemia”, disse. “Muitos pacientes participaram de estudos randomizados, e por isso, começa a haver melhor compreensão na sociedade sobre o papel da pesquisa médica.”

“A razão e a ciência devem continuar norteando a boa prática médica e as informações que são transmitidas à população”, concluiu o Dr. Alexandre.

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