Vacinas contra covid-19: As expectativas estão alinhadas com a realidade?

Roxana Tabakman

Notificação

30 de julho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Em junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a realização da fase 3 do ensaio clínico testando a vacina contra o SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), desenvolvida pela University of Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca. Inicialmente a agência autorizou os testes em 2.000 voluntários, e posteriormente liberou para 5.000 participantes.

Os resultados do ensaio clínico de fase 2, publicados on-line em 20 de julho, mostraram que a vacina é segura e foi bem tolerada, sem causar nenhum evento adverso grave.

Um ensaio clínico testando outra vacina contra o SARS-CoV-2 – criada pela empresa chinesa Sinovac Biotech –, começou a ser realizado no Brasil no dia 21 de julho em conjunto com o Instituto Butantan. Os resultados das fases anteriores do estudo ainda não foram publicados em revistas científicas. Neste caso, as evidências com que contam hoje os médicos são dados confidenciais da companhia, referentes basicamente a estudos pré-clínicos.

A corrida pela vacina está veloz, e muitas perguntas importantes estão ficando sem respostas. Isso ficou evidente no evento"Trópicos Quentes: Vacinas para SARS-CoV-2",realizado recentemente pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT).

A reunião on-line ocorreu no mesmo dia que mais um estudo para testar uma terceira vacina contra o SARS-CoV-2 (neste caso desenvolvida pela Pfizer em parceria com a BioNTech) recebeu sinal verde no Brasil. No entanto, como os centros participantes ainda não haviam sido divulgados oficialmente, os detalhes deste imunizante não foram discutidos no encontro.

Durante a reunião da SBMT, o Dr. Pedro Folegatti, infectologista e líder do estudo que testa segurança e eficácia da vacina ChAdOx1 nCOV-19 (University of Oxford/AstraZeneca), falou sobre o medicamento. O Dr. Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do Instituto Butantan, falou sobre o ensaio clínico testando a vacina da Sinovac Biotech no Brasil, que está sendo coordenado por ele.

De acordo com o Dr. Ricardo, "não há como esperar destas vacinas, pelo menos destas primeiras, uma imunidade esterilizante ─ mesmo havendo uma diminuição da quantidade de vírus recuperada das vias aéreas superiores". Segundo o médico, essa diminuição pode ter algum efeito indireto em função da queda da carga viral, reduzindo a possibilidade de transmissão. Mas não se pode falar em imunidade esterilizante, como ocorre, por exemplo, no caso do sarampo, no qual o objetivo é a erradicação.

"A erradicação não é uma perspectiva factível neste momento", afirmou ele. O médico citou ainda que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vacina que demonstre ao menos 50% de proteção já seria suscetível a aprovação para comercialização e distribuição.

"Precisamos falar sobre isso para ajustar as expectativas", ressaltou o Dr. Ricardo.

"É muito bom saber que temos vacinas promissoras sendo testadas no Brasil, e que provavelmente teremos outras. Quanto mais produtos, mais chances de conter a pandemia", observou a Dra. Marta Heloísa Lopes, médica e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que também participou da reunião virtual. Mas ela advertiu: "Para garantir que isso aconteça precisamos de dados. Há muitas lacunas ainda, e ─ se dirigindo aos palestrantes ─ acho que vocês têm mais consciência disso do que a gente. As lacunas têm que ser muito discutidas, explicadas, para chegar a um bom resultado. Com pressa, mas não com pressa exagerada."

A Dra. Rosana Richtmann, médica infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que também participou do painel de especialistas, foi assertiva em relação à distância entre as expectativas da população e a realidade apresentada pelos líderes de pesquisa.

"Todo mundo está esperando 'a vacina', e a imagina com 100% de eficácia". A médica explicou que haverá a necessidade de um árduo trabalho de alinhamento de expectativas sobre a eficácia da vacina, que, pelo visto, pode significar imunização contra a doença, contra a infecção, contra a doença grave ou apenas conceder 50% de proteção à população vacinada.

Segundo a Dra. Rosana, a vacina de Oxford é muito nova, e os médicos ainda não estão familiarizados com a nova tecnologia de vetor viral. "Temos de aprender todos os aspectos ─ segurança, imunogenicidade, resposta imune celular. E começamos a fase 3 do ensaio clínico com a vacina da Oxford sem ter a publicação, que agora temos. Mas é muito importante ter transparência. No caso da outra vacina, estamos falando de um fabricante que não é rotina por aqui, e precisamos ler a publicação para tirar nossas conclusões", disse ela.

Consultado pelo Medscape, o médico infectologista Dr. Jamal Suleiman, que assistiu à apresentação, disse que esta é a primeira geração desta vacina ─ com todos os riscos que a primeira geração envolve.

"É importante, fundamental, que a gente tenha os dados para transmitir a informação de maneira muito clara. A vacina não tem caraterística terapêutica, ela não elimina o vírus, ao contrário de outras vacinas que podem ter essa caraterística. É fundamental deixar isso claro", disse o Dr. Jamal, que não participa como pesquisador dos ensaios clínicos, porque atua como porta-voz dos resultados do Instituto Emílio Ribas, então precisa "ficar independente", informou.

Vacinas diferentes, ensaios clínicos diferentes

A vacina da Oxford é feita a partir de um vetor viral, mais especificamente, um adenovírus símil não replicante. A plataforma do vetor viral é um "coringa", porque nela são feitas as modificações necessárias para substituir os genes responsáveis pela replicação do adenovírus por genes que vão codificar proteínas de quaisquer outras doenças. Uma vez inoculado, o vetor infecta, expressa o antígeno e, a partir de então, já não se replica. O vetor viral da vacina da Oxford expressa proteínas de superfície do SARS-CoV-2.

"A vantagem de utilizar o símil em vez do adenovírus humano, que emprega outros, é a diminuição da chance de as pessoas produzirem anticorpos neutralizantes contra o vetor, o que poderia implicar uma imunogênese reduzida da vacina", explicou o Dr. Pedro.

Se a vacina de Oxford representa a modernidade, a vacina da Sinovac exemplifica a tradição – ela é feita a partir do vírus inativado, mais especificamente a partir de uma cepa isolada de uma paciente da China, e selecionada por apresentar boa resposta imune e produção de anticorpos neutralizantes em modelos animais. O Dr. Ricardo explicou que o processo de produção é similar ao das vacinas contra raiva e dengue, e a inativação viral é semelhante à da vacina contra influenza, segundo o médico, talvez a diferença seja, nesta última, a fragmentação que ocorre em seguida. "Isso nos dá uma vantagem; são processos conhecidos pela instituição e podemos nos adaptar para receber essa nova tecnologia", acrescentou.

O Dr. Pedro apresentou os resultados recém-publicados dos estudos de fase 1 e 2 da vacina da Oxford atestando a segurança e tolerabilidade.

A vacina de dose única se mostrou imunogênica (com pico aos 14 dias), produzindo resposta imune significativa por pelo menos dois meses, o que, segundo o Dr. Pedro, "é o período que temos de resultados preliminares até o momento". Não houve redução da reatogenicidade com o uso profilático de paracetamol ─ que foi administrado em aproximadamente 100 participantes. Os resultados eram de alguma forma esperados, em função das publicações anteriores descrevendo achados em modelos animais e dos testes com outra vacina, contra o MERS-CoV (sigla do inglês, Middle East Respiratory Syndrome-Coronavirus).

A vacina da Oxford foi capaz de induzir a produção de anticorpos neutralizantes quando administrada tanto em dose única (90%) como em duas doses (100%) ─ esquema testado em um pequeno subgrupo. O Dr. Pedro ressaltou que este "é um relatório preliminar dos dados; ainda não foram processadas todas as amostras", e que está prevista uma avaliação um pouco mais profunda da resposta celular: "pretendemos divulgar os dados assim que estiverem disponíveis", afirmou.

No protocolo do ensaio clínico desta vacina a comparação é feita com uma dose da vacina meningocócica. "Sabemos que as vacinas com vetor viral são um pouco reatogênicas e optamos por usar uma vacina licenciada como comparador. Escolhemos a antimeningocócica basicamente por ser de dose única". Para avaliar os resultados, os pesquisadores coletam uma amostra de sangue no início, em um mês e a cada três meses, e vão buscar seroconversão e anticorpos neutralizantes.

Os cerca de 8.870 participantes do ensaio clínico Profiscov, testando a segurança e eficácia da vacina da Sinovac/Butantan, vão receber duas doses do medicamento. O placebo vai ser composto de adjuvantes e excipientes sem componente ativo. A eficácia vai ser avaliada diretamente pelo diagnóstico virológico, a partir de duas semanas após a segunda dose. Não foi apresentada a metodologia completa, nem discutido como serão calculadas as variáveis importantes, que podem impactar os resultados, como o isolamento social, por exemplo.

Nos dois ensaios clínicos foram convidados a participar profissionais de saúde com elevado risco de exposição ao SARS-CoV-2. "Apenas no estado de São Paulo tivemos de fevereiro até junho, 271.380 casos confirmados e mais de 53.000, ou seja, 19% dos casos confirmados em professionais da saúde. Nada mais lógico do que testar neste grupo", justificou a Dra. Rosana.

O Dr. Ricardo acrescentou que a carga infecciosa dos que estão trabalhando na linha de frente é diferente da carga infecciosa da comunidade. "Estamos colocando a vacina à prova em uma população que tem maior exposição, não apenas em termos de frequência, mas também em termos de dose infectante. É uma prova de fogo, algo extremamente exigente para uma vacina."

Na opinião do Dr. Ricardo, "uma vacina que funcione na comunidade não necessariamente irá funcionar em profissionais de saúde", mas o contrário deve ocorrer: "uma vacina que funcione em professionais da saúde deve funcionar de sobra na comunidade", afirmou.

Evidências anteriores

O ensaio clínico de fase 1 com a vacina da Oxford começou em abril no Reino Unido com 1.077 participantes, dos quais, 1.067 foram randomizados e 10 receberam duas doses (intervalo de quatro semanas). Antes disso, relatou o Dr. Pedro, a universidade havia realizado mais de 12 estudos com 330 pessoas vacinadas. Em diversos outros ensaios, a plataforma tinha sido utilizada em mais de 6.000 indivíduos para doenças como malária, influenza, etc.

"A plataforma tem um perfil consistente de segurança e imunogenicidade, e as vacinas têm sido desenvolvidas também para uso veterinário." Ele apresentou os trabalhos publicados com a plataforma ChAdOx1 expressando antígenos para influenza, tuberculose, chicungunha e zika. "A plataforma trabalha sempre da mesma forma e isso permitiu que o desenvolvimento clínico fosse acelerado."

A plataforma com o antígeno do novo coronavírus ainda tem estudos pré-clínicos em andamento, "dois em primatas não humanos, dois em furões e um que já está no preprint em porcos", informou o Dr. Pedro, fazendo uma ressalva: "Não existe nenhum modelo animal adequado para avaliar a ação de uma vacina contra o SARS-CoV-2. Os primatas não humanos não adoecem como os humanos, e é um pouco difícil transferir os achados destes estudos."

No dia 29 de maio foi iniciado um ensaio clínico com mais de 10.000 participantes voluntários de 18 anos ou mais. "Vacinamos quase 9.000 pessoas até agora." No Reino Unido, estão sendo feitos ensaios de fase 2 e 3 com participantes de 56 a 69 anos e de 70 anos ou mais. Há também a previsão de um estudo com um grupo de pacientes pediátricos.

Pular ou acelerar etapas foi considerado uma opção segura pelos britânicos, porque eles vinham desenvolvendo, na mesma plataforma, uma vacina contra o MERS-CoV que já havia sido amplamente testada em modelos animais (camundongos e primatas não humanos). Quando foi divulgado o sequenciamento do SARS-CoV-2, em janeiro, eles começaram a trabalhar com a nova vacina em camundongos, e os resultados foram semelhantes aos da vacina contra o MERS-CoV. Estudos de fase 1 da vacina contra o MERS-CoV foi feito em três diferentes doses, e esse foi o estudo que informou sobre a dose dos ensaios clínicos da covid-19.

De acordo com o Dr. Jamal, "a apresentação foi extremamente clara, cristalina em relação as informações". O comentarista pontuou que os dados sobre a vacina da Oxford foram publicados, e estão disponíveis para análise e críticas, ao contrário da vacina desenvolvida pela Sinovac, cujos dados não foram divulgados. "A Sinovac tem uma grife, que é o Dr. Ricardo, a gente acredita no que Dr. Ricardo diz, mas a ciência precisa de provas", afirmou Dr. Jamal, que destacou ainda que as informações sobre a vacina sendo testada pela Sinovac precisam ser compartilhadas, porque a ausência de divulgação cria a sensação de insegurança. "Esse aspecto eu acho frágil, mesmo entendendo que o modelo de produção da vacina não é novo", afirmou.

O Dr. Ricardo disse confiar, não apenas por ter visto pessoalmente os dados apresentados para a agência regulatória, mas porque durante a epidemia de SARS-CoV-1 ─ controlada com sucesso em 2004 por meio de rigorosas medidas de distanciamento físico, testagem de contatos e isolamento social ─, muitas empresas tentaram desenvolver vacinas, e uma delas foi a Sinovac. Eles publicaram os resultados da fase 1 com um esquema de duas doses, e evidências de que em duas semanas havia um pico de anticorpos neutralizantes. Segundo o líder do estudo PROFISCOV, "essa foi a carta de apresentação da empresa, dizendo: 'Sabemos o que estamos fazendo, já fizemos isto antes. (...) É realmente impressionante a quantidade de dados que a Sinovac gerou em um período tão curto".

De acordo com o Dr. Ricardo, para avaliar a parceria com a Sinovac – que pode não ser a única, já que há outras em estudo – foi fundamental a leitura de dois artigos; em primeiro lugar ele refere um trabalho publicado em 1990 por pesquisadores da MRC Common Cold Unit, Harvard Hospital, no Reino Unido, que define o modelo de infecção humana por outro coronavírus que causa resfriado comum, o coronavírus 229E.

"É interessante, porque mostra um modelo do que pode acontecer com o novo coronavírus. Os vírus chegaram e começaram a nos acompanhar, vamos morrer e os coronavírus provavelmente vão continuar", refletiu. O outro trabalho citado pelo Dr. Ricardo consiste em um compilado de estudos pré-clínicos feitos com primatas não humanos que não foram publicados (mostrados durante o evento como "dados confidenciais" da empresa), em que após a vacina não houve recuperação do vírus nas vias aéreas superiores nem nos pulmões.

"Isso é uma luz de esperança, porque o que queremos controlar é a doença grave, e em particular a doença pulmonar, que vai levar a internação e morte." O Dr. Ricardo mostrou a lâmina de patologia dos animais e afirmou: "Isso nos dá uma esperança."

Uma ou duas doses?

Um outro ponto discutido no evento foi o número de doses necessárias. Do ponto de vista de saúde pública, a estratégia de aplicar duas doses de uma vacina é sempre avaliada como arriscada, porque o dropout é muito grande. O ensaio da vacina da Oxford administra a vacina em dose única e em duas doses, e a vacina da Sinovac é administrada em duas doses. Mas os esquemas definitivos ainda não estão definidos.

De acordo com o Dr. Pedro, sabe-se por diversos outros grupos que estão trabalhando com plataformas semelhantes à da Oxford, que após uma única dose é possível induzir imunidade celular e humoral. Estudos prévios da University of Oxford indicam melhor resposta com duas doses.

"Com uma dose única há anticorpos neutralizantes após um mês, com duas doses há um aumento significativo da produção de anticorpos neutralizantes até 14 dias depois da segunda dose", explicou. Mas a conclusão não é tão simples assim, segundo ele, pois a avaliação do efeito varia muito com relação ao ensaio utilizado. "Por enquanto estamos administrando uma dose, mas não sabemos como a proteção se correlaciona com o número de doses."

Ele mencionou um ensaio clínico em andamento no Reino Unido, no qual "decidimos aumentar o número de pessoas que receberam o esquema em duas doses; a segunda dose quatro semanas após a primeira. A depender dos resultados vamos a avaliar, mas, a princípio a proposta é dose única". Ele informou que a segunda dose é significativamente mais bem tolerada que a primeira.

O ensaio clínico da vacina da Sinovac, pelo contrário, já contempla duas doses. O que chamou a atenção dos especialistas foi o intervalo de 14 dias, mas este período de duas semanas é considerado um esquema emergencial.

"O pico de neutralização começa duas semanas após a última dose, então o esquema 0-14, já poderia permitir a obtenção dos níveis adequados, que podem proteger já aos 28 dias." O Dr. Ricardo explicou que foram estudadas duas doses diferentes versus placebo com intervalos de 14 e 28 dias, e ambos esquemas responderam adequadamente.

"Frente à urgência, a pergunta foi se era possível encurtar e assim surgiu o esquema de 14 dias." Do ponto de vista de uma futura campanha de saúde pública, administrar duas doses em um intervalo de 14 dias seria difícil de gerir, destacou a Dra. Marta Lopes.

O Dr. Ricardo imagina o futuro com a implementação em larga escala, comunitária, do esquema de 28 dias, e para um grupo restrito, com urgência por maior exposição, o esquema de 14 dias faria mais sentido. Os testes clínicos nos profissionais da saúde não seriam, portanto, versões preliminares dos esquemas comunitários.

Como medir a resposta?

Outro problema a ser resolvido é a comparação dos resultados dos testes para avaliar a eficácia. "Não sabemos ainda qual é o melhor ensaio para analisar anticorpos neutralizantes, porque há uma variabilidade imensa no título, dependendo do método que escolhermos. Por exemplo, o valor foi de 100% no ensaio comum a 37% quando utilizamos um ensaio um pouco mais estrito dois meses depois. Existe muita coisa na avaliação dos anticorpos neutralizantes que ainda precisamos entender melhor", alertou o Dr. Pedro.

Ele assinalou que existe uma força-tarefa da OMS para padronizar estes testes. "Isso ressalta a necessidade de termos um padrão para comparar como se comportam as distintas vacinas." E comparou a situação com quando se tenta usar amostras de pacientes convalescentes assintomáticos: "A distribuição é enorme, há indivíduos internados na unidade de tratamento intensivo (UTI) com baixos níveis de anticorpos neutralizantes e pessoas assintomáticas com o mesmo nível. O que isso significa, ainda não sabemos. São perguntas importantes que precisam ser respondidas", disse o Dr. Pedro.

O Dr. Ricardo relativizou o impacto dessa variabilidade: "Sabemos que a infecção gera uma resposta muito heterogênea, como o Dr. Pedro acaba de assinalar, mas a resposta imune gerada por uma vacina não é necessariamente igual a uma resposta imune gerada pela infecção natural. A forma como o antígeno é apresentado dentro de uma vacina é totalmente diferente, ao ponto que uma vacina por vírus atenuado sequer se propõe administrar por via respiratória superior, que é a forma como o vírus ingressa no corpo. Possivelmente vamos ver uma resposta totalmente diferente. Então, é importante assinalar: não é porque há uma resposta natural heterogênea que a resposta vacinal é necessariamente heterogênea. Pode ser heterogênea, mas não dessa magnitude."

"Com 165 grupos tentando fazer vingar uma vacina, é muito importante poder fazer comparações", frisou a Dra. Rosana. "Essa variabilidade pode levar a interpretações diferentes, é importante que a OMS e os entes regulatórios padronizem os testes."

Riscos

A história de uma vacina de vírus sincicial respiratório que, quando administrada posteriormente, causou doença em crianças, foi um chamado de alerta que ficou para as vacinas em geral e para tratar vírus respiratórios em particular.

"No caso do SARS-CoV-2, todos os grupos têm trabalhado muito intensamente em modelos animais para verificar se esse fenômeno poderia acontecer em humanos, e houve alguns modelos em que aconteceu algum fenômeno semelhante. Até agora, com a vacina contra o SARS-CoV-2 isso não aconteceu", disse o Dr. Ricardo.

O diretor médico de pesquisa clínica do Butantan acrescentou que foi observado algo parecido, e que alguns atribuíram a uma potenciação dependente de anticorpo, semelhante ao que acontece com a vacina da Sanofi contra a dengue em pessoas sem exposição prévia a este vírus.

Segundo Dr. Ricardo, até agora, há confiança entre todos os produtores de vacina, porque nenhum deles detectou uma reação como essa nos modelos animais.

"É claro que somos obrigados a acompanhar para que esse fenômeno não aconteça, mas temos bastante confiança que este vírus não tem essa reação paradoxal, que é doença potencializada pela vacina. Não é exclusividade desta. Em todos os desenvolvimentos de vacina somos obrigados a pensar nesta possibilidade."

Uma exclusão importante

Um critério de exclusão nos ensaios clínicos das duas vacinas em questão, é justamente a infecção prévia por SARS-CoV-2. Nenhum dos dois admite voluntários com infecção prévia por SARS-CoV-2.

"O guia da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos coloca como um dos pré-requisitos estudar a resposta vacinal em pessoas com infecção prévia. Prevemos uma etapa na qual isso será feito", destacou o Dr. Ricardo.

O Dr. Pedro relatou que, quando começaram os estudos de fase 2 e 3 ainda não havia um teste diagnóstico confiável, então os pesquisadores recrutaram algumas pessoas que tinham já anticorpos neutralizantes antes de receber a vacina. Apenas na fase 3 eles começaram a fazer uma triagem com sorologia para excluir as pessoas com sorologia positiva. Segundo o médico, existe uma pressão para que o rastreamento por sorologia seja abandonado, "mas isso comprometeria um pouco o poder estatístico da amostra, porque acabaríamos incluindo voluntários nos quais talvez não se consiga fazer a análise de eficácia".

Mas os dois pesquisadores reconheceram que pouco se sabe sobre a possibilidade de potencialização dependente de anticorpos (ADE, do inglês antibody-depentent enhancement). O Dr. Pedro assegurou que o problema não foi detectado quando a vacina contra o MERS-CoV foi testada em camundongos, primatas não humanos e camelos, mas admitiu que "é um pouco difícil prever como o ADE vai se manifestar nos ensaios clínicos". Ele explicou que a única coisa a ser feita é comparar a incidência de casos graves entre imunizados versus não imunizados.

"Mas também é verdade que, nos ensaios clínicos em geral, se acabam selecionando pessoas mais saudáveis e menos propensas a ficarem doentes por causas graves, então é possível que essa pergunta não possa ser respondida pelos ensaios clínicos atuais."

Na opinião do cientista, pode ser que não se consiga enxergar isso nos estudos de fase 3, e seja um fenômeno observado depois de começar a expandir e administrar a vacina em larga escala. "A implementação de todas as vacinas tem de se dar em um sistema de vigilância mais intenso."

De acordo com Dr. Ricardo, "o cálculo que fizemos é: se quiséssemos fazer um ensaio clínico que conseguisse demostrar isso estaríamos falando de 900.000 pessoas. Talvez não seja possível saber isso no momento do pré-registro, será uma informação avaliada após o registro. Para isso, existem os planos de minimização de risco. A implementação da vacina terá que ser feita com muito cuidado nesse sentido".

O Dr. Ricardo colocou os riscos das vacinas em perspectiva: "Há várias vacinas com efeitos não tão favoráveis; a própria gotinha, símbolo do nosso programa de imunização, tem 1 caso em 1 milhão que pode causar pólio vacinal." Nenhuma vacina está totalmente livre de apresentar algum evento paradoxal. "O que queremos é ter uma boa segurança para pelo menos saber se a relação risco-benefício está dentro de limites aceitáveis."

A Dra. Marta Lopes expressou que, apesar da urgência, os pesquisadores precisam ser cautelosos, honestos, claros e discutir os dados de maneira acessível. Por outro lado, ela disse ter certeza absoluta de que a população não apenas deseja, como espera, uma vacina eficaz.

"Temos de ter muito cuidado na introdução da discussão das vacinas contra covid-19 para evitar polarizações e politizações, que levam a hesitação."

"Consigo entender a urgência sanitária, entendo o que seja um fast track, mas estou querendo ter mais dados", disse ao Medscape o Dr. Jamal após a reunião. "Um aspecto que a apresentação enfatizou é que o tempo da ciência não é o tempo da política", disse o infectologista.

Mesmo com muita cautela, estão todos na torcida. E, se a vacina da Oxford for adiante, será um sucesso da bioengenharia, porque se trata da primeira vacina vetor da história da medicina. Se a vacina Sinovac cumprir as expectativas, será preciso uma dose de agradecimento à anônima de 48 anos da cidade de Wenling, na província chinesa de Zhejang, que em 20 de janeiro de 2020, três dias após o início dos sintomas de covid-19, doou seu swab para a ciência.

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