Sexo e covid-19: O impacto da pandemia na saúde e no comportamento sexual

Edna Astbury-Ward

Notificação

24 de julho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

As pandemias são conhecidas por causar sofrimento e aumentar o desgaste da saúde mental. O isolamento prolongado em decorrência das medidas de prevenção de contágio pode causar ansiedade, depressão, raiva, tédio, frustração e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em algumas pessoas. Além disso, a redução de oportunidades de adaptação, acesso aos serviços de saúde, apoio social e familiar, e recursos de lazer, criam situações que, por sua vez, podem levar a um aumento da violência sexual por pessoas com dificuldade de equilíbrio emocional, disse a Dra. Joana Carvalho, Ph.D., professora-assistente da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Portugal. Ela se preocupa com o significado disso para as pessoas que estão em isolamento.

A Dra. Joana participou recentemente de um webinar promovido pela The International Society for Sexual Medicine (ISSM). O webinar reuniu especialistas de todo o mundo para discutir os desafios e as mudanças na saúde e no comportamento sexual durante a pandemia de covid-19.

A face oculta da covid-19

A Dra. Joana disse que o aumento do estresse e o confinamento podem levar algumas pessoas "ao consumo descontrolado de pornografia como resultado de um humor negativo". Ela se referiu a isso como "comportamento sexualizado de adaptação." A professora ressaltou que o consumo de pornografia aumentou na Europa durante o confinamento, assim como a violência sexual, e fez referência à uma pesquisa alemã em pré-impressão de Jung et al. 2020, realizada durante o auge das medidas de confinamento na Alemanha, de 1º a 15 de abril de 2020, que mostrou que 5% dos respondentes (N = 3.545) relataram violência interpessoal (IPV). A prevalência de IPV durante um mês de confinamento foi equivalente às taxas de violência interpessoal durante um ano sem confinamento.

A Dra. Joana acredita serem necessárias avaliações mais abrangentes, que considerem todos os fatores estressores que estão emergindo com a covid-19. Especificamente, ela destacou o desemprego, a sobrecarga de trabalho/tarefas domésticas e a reestruturação dos papéis familiares como gatilhos para pensamentos e comportamentos negativos.

A Dra. Joana não é a única a se preocupar com o impacto do isolamento prolongado. A diretora executiva da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, disse: "O confinamento está criando tensão por conta de preocupações com segurança, saúde e dinheiro, e está aumentando o isolamento das mulheres com parceiros violentos." Ela descreveu a situação como "uma tempestade perfeita para comportamentos violentos e controladores no foro íntimo". É óbvio que as mulheres são desproporcionalmente vulneráveis à violência interpessoal durante a pandemia, e que esta é uma crise global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, está solicitando medidas para enfrentar um "horrível aumento global de violência doméstica" contra mulheres e meninas, associado ao confinamento imposto pelos governos em resposta à pandemia de covid-19.

Diferenças de gênero têm impacto na gravidade da doença

Está bem documentado que os homens são desproporcionalmente mais afetados pela covid-19 do que as mulheres. O que ainda não se sabe é o porquê. Existem teorias de que isso pode estar relacionado com risco ocupacional, tabagismo ou estilo de vida, mas, recentemente as pesquisas estão se concentrando mais nas diferenças biológicas entre os sexos, especificamente em nossa constituição cromossômica e hormonal.

A Dra. Dolores Lamb, Ph.D., vice-presidente do Departamento de Urologia (Pesquisa) da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, discutiu o papel da testosterona e da covid-19 no webinar da ISSM. A Dra. Dolores apresentou dados dos US Centers for Disease Control and Prevention-National Centre for Health Statistics. Ela destacou o fato de a taxa de mortalidade por infecção por SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), vírus que causa a covid-19, ser maior entre homens mais jovens do que entre os homens mais velhos, e entre as mulheres, a taxa de mortalidade ter permanecido relativamente estável durante toda a vida útil. Apenas quando os homens têm aproximadamente 85 anos de idade que a taxa de mortalidade por infecção por SARS-CoV-2 começa a se equilibrar em comparação com as mulheres. Segundo a Dra. Dolores, "isso remete ao período de declínio nos níveis de testosterona em homens idosos" e ela indicou que esse fato é digno de mais exploração e pesquisa.

Ela citou uma pesquisa italiana que analisou se havia um efeito protetor da terapia de privação de andrógenos (ADT, sigla do inglês, Androgen-Deprivation Therapy) (antiandrógenos), usada no tratamento do câncer de próstata, contra a covid-19. Os resultados mostraram que, de fato, pacientes com câncer de próstata em terapia de privação de andrógenos parecem estar parcialmente protegidos contra a infecção pelo SARS-CoV-2. Existem vários estudos em andamento focados na manipulação endócrina para modificar a gravidade da covid-19. A Dra. Dolores disse: "O júri ainda está deliberando, então fique ligado, porque até o momento os dados estão incompletos, mas são animadores."

Ela então chamou atenção para as teorias de que o coronavírus pode acometer os testículos. Ela ressaltou que, "sabemos que a orquite é uma complicação do SARS-CoV (uma versão anterior do coronavírus), mas não está claro qual o efeito do SARS-CoV-2 nos testículos. Também não está claro se os danos diretos ao testículo foram causados pelo vírus ou como resultado da inflamação resultante da tempestade de citocinas". Ela acrescentou que, os "efeitos prejudiciais aos testículos resultantes de altas temperaturas causadas pela febre associada ao coronavírus podem afetar de forma adversa a espermatogênese". Isso justifica explorar possíveis estratégias terapêuticas que podem interromper temporariamente a sinalização do receptor de andrógeno, "o que está associado ao seu próprio conjunto de efeitos colaterais, mas obviamente esse seria um tratamento transitório em comparação com os homens em tratamento para câncer de próstata avançado", disse a Dra. Dolores.

Criopreservação de esperma durante a pandemia

Devido aos possíveis efeitos no testículo e ao impacto na espermatogênese, há muito interesse na criopreservação de espermatozoides durante a pandemia. A Dra. Dolores comentou: "Não há uma boa resposta para isso. É sabido que vários vírus podem ser encontrados no sêmen, às vezes muito tempo depois da resolução dos sintomas. O vírus Zika é um ótimo exemplo disso. Até agora, os dados sugerem que a presença do SARS-CoV-2 no sêmen parece ser baixa, e que houve baixos títulos de SARS-CoV-2 em sítios não respiratórios. É importante destacar que, para os bancos de sêmen, os vírus são estáveis em temperaturas muito baixas, portanto, o SARS-CoV-2 pode permanecer estável após a criopreservação e o descongelamento." Ela deixou claro que, embora não existam casos registrados de contaminação cruzada viral entre amostras de sêmen criopreservadas, acredita-se que o risco de contaminação cruzada seja "desprezível, mas não nulo". Uma boa conduta seria usar dispositivos seguros para proteger o laboratório e garantir que não haja contaminação cruzada nos frascos criogênicos. Ela recomendou que os frascos criogênicos contendo sêmen de homens afetados pela covid-19 sejam armazenados separadamente.

Comportamento sexual e diferenças entre países

Vários relatos de pesquisas internacionais foram discutidos pelo grupo de participantes durante o webinar, especialmente um pequeno estudo do Reino Unido feito por Jacob et al. 2020. "COVID-19 Social Distancing and Sexual Activity in a Sample of the British Public" mostrou que foi importante pensar em intervenções de promoção do bem-estar durante a pandemia de covid-19, que se concentram em mensagens positivas sobre a saúde sexual para mitigar as consequências prejudiciais do isolamento.

Os italianos têm o seu próprio entendimento desta mensagem e um estudo publicado no periódico International Journal of Impotence Research chamado "Love at the time of the pandemic covid-19: preliminary results of an online survey conducted during the quarantine in Italy", mostrou que mais de 40% dos entrevistados relataram aumento do desejo sexual durante a quarentena, mas não maior frequência de relações sexuais. O Dr. Paolo Capogrosso, urologista da Università Vita-Salute San Raffaele, na Itália, disse: "Embora o distanciamento social devido à pandemia de covid-19 tenha provocado uma diminuição geral da atividade sexual, não há evidências convincentes mostrando um aumento da disfunção sexual durante o confinamento."

Acesso a orientações sobre comportamento sexual durante a pandemia

No Reino Unido é muito difícil encontrar orientações governamentais específicas a partir de um único ponto de acesso sobre o comportamento sexual durante a pandemia; portanto, o público em geral busca informações a este respeito por meio de uma infinidade de recursos de vários prestadores de serviços de saúde sexual, como a Faculty of Sexual & Reproductive Healthcare , Brook , British Association for Sexual Health and HIV (que publicaram orientações específicas) Sexwise e muitas outras.

Nos EUA a história é outra; organizações nacionais, como o The Guttmacher Institute , publicam atualizações frequentes sobre políticas e pesquisas sobre o tema. Informações recentes do New York City Health Department são claras em relação ao assunto sexo mais seguro e covid-19, afirmando:

  • O vírus se espalha por meio de partículas na saliva, muco e respiração das pessoas com covid-19.

  • O vírus foi encontrado nas fezes e no sêmen.

  • Você é o seu parceiro sexual mais seguro.

  • Depois de você, o parceiro sexual mais seguro é alguém que more com você.

  • Restrinja a prática sexual com pessoas que não moram com você.

Risco de transmissão do SARS-CoV-2 durante o sexo

A ISSM e a International Society for the Study of Women's Sexual Health (ISSWSH) publicaram declarações nas quais traçaram diretrizes sobre atividade sexual e covid-19, e aconselharam a evitar comportamentos sexuais de alto risco, o que, durante a covid-19, inclui beijar. A Dra. Sharon Parish, professora de psiquiatria e de clínica geral da Weill Cornell Medical College, nos EUA, que também participou do webinar da ISSM, acrescentou que, entre os casais coronavírus discordantes, "indivíduos de alto risco são aqueles relacionados com o trabalho", ou seja, aqueles cujo trabalho os expõem a uma alta probabilidade de infecção.

Curiosamente, o Dr. Paolo afirmou durante o webinar que: "Há evidências conflitantes sobre a presença de SARS-CoV-2 no fluido seminal ou vaginal." A declaração de posicionamento da ISSWSH afirmou ainda: "Agora se sabe que o vírus está presente na urina e no sêmen tanto de homens doentes como daqueles em recuperação... não se sabe por quanto tempo o vírus continua presente no sêmen, nem se o sêmen representa algum risco de transmissão." A Dra. Dolores disse que, em relação ao risco de transmissão viral via sêmen, "os dados ainda estão incompletos e os estudos realizados tinham amostras pequenas".

Enquanto a pandemia de coronavírus continuar, será interessante conhecer as evidências que surgirão sobre o seu impacto na sexualidade humana, na saúde e no comportamento sexual. Está claro, segundo os especialistas que participaram deste webinar, que ainda há muito a aprender sobre como a covid-19 afeta os gêneros de maneira diferente em termos de aspectos psicossociais, biológicos e comportamentais de suas vidas.

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