Covid-19: Lancet e NEJM removem estudos e expõem falhas na verificação dos dados

Caroline Humer e Marisa Taylor

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2 de julho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Estados Unidos (Reuters) – A premência por pesquisas sobre o novo coronavírus expôs fraquezas na validação de dados de saúde fornecidos por um número cada vez maior de empresas americanas; uma falha que forçou dois conceituados periódicos a retirar estudos do ar.

Os periódicos The Lancet e New England Journal of Medicine (NEJM) retiraram estudos sobre a covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) devido a dados questionáveis de saúde de pacientes, fornecidos por uma pequena empresa chamada Surgisphere.

Pesquisadores americanos afirmam que todos os dias recebem propostas de empresas semelhantes, sem um padrão generalizado de como verificar seus conjuntos de dados.

"Quando você não sabe de onde vêm os dados e exatamente como foram gerenciados, a quantidade de conclusões incorretas que você pode chegar é grande", disse Kenneth Mandl, diretor do Computational Health Informatics Program do Boston Children's Hospital, nos EUA.

"O campo é novo o suficiente para que as melhores práticas não estejam bem estabelecidas em toda a comunidade científica."

O estudo publicado no The Lancet, que concluiu que o uso de hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 aumenta o risco de morte, chamou a atenção de cientistas de todo o mundo. Os pesquisadores sugeriram que os dados de desfechos de pacientes de vários países não contribuíram em nada.

Mandeep Mehra, professor e pesquisador da Harvard Medical School do Brigham and Women's Hospital, nos EUA, e coautores removeram o estudo publicado no The Lancet e outro estudo publicado no NEJM afirmando que não podiam garantir a veracidade dos dados e que a Surgisphere não concordou em submeter os dados em questão a auditores independentes.

As remoções "são ótimos exemplos da necessidade de uma abordagem 'Deus no céu e Transparência de Dados na terra' na ciência", disse Ivan Oransky, vice-presidente editorial do Medscape e cofundador do blog Retraction Watch.

Ao longo dos anos, mais de 1.500 estudos foram parar no banco de dados do Retraction Watch devido a problemas como falsificação de dados pelos autores, disse Ivan. De acordo com o site, cerca de 15 artigos médicos relacionados com covid-19 já foram removidos de periódicos.

Durante anos, os dados de saúde dos EUA estavam concentrados em solicitações médicas compiladas pelas grandes seguradoras de saúde, como o UnitedHealth Group Inc., e pelo governo. À medida que os hospitais adotaram os prontuários eletrônicos, empresas de análise de dados independentes estão comprando dados hospitalares, que são vendidos sem o nome dos pacientes.

A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA passou a permitir que dados coletados fora dos ensaios clínicos sejam incluídos em suas revisões sobre novos medicamentos, oferecendo mais um incentivo ao setor de análise de dados em saúde.

'Revisando nossos procedimentos'

Não está claro como a Surgisphere obteve os dados utilizados nos dois estudos. A Surgisphere não respondeu às nossas tentativas de contato.

No momento em que os pesquisadores estão se esforçando para encontrar uma cura para a covid-19, conjuntos de dados como os usados nos estudos agora removidos podem parecer uma "mina de ouro", disse Kenneth.

Um porta-voz da Elsevier, editora do The Lancet, disse que reavaliará cerca de 20 outros artigos publicados que contêm dados da Surgisphere.

Um porta-voz do Brigham and Women's Hospital disse que seus mecanismos de supervisão de dados "não eram aplicáveis" aos estudos publicados no The Lancet e no NEJM, acrescentando que apenas oferece "suporte, orientação e supervisão para todos os acordos que envolvem o uso de nossos recursos institucionais, incluindo os dados de nossos pacientes".

A Harvard Medical School não quis comentar sobre seu papel na verificação dos dados. A Harvard e o Brigham se recusaram a dizer se seriam tomadas medidas em relação a como os pesquisadores lidaram com o ocorrido.

Apesar de os artigos do NEJM e do The Lancet terem passado por revisão externa por pares, eles se basearam na confirmação dos autores sobre a qualidade dos dados.

"Estamos revisando nossos procedimentos, inclusive como avaliamos pesquisas que analisam grandes conjuntos de dados com base em dados de prontuários eletrônicos", disse Jennifer Zeis, porta-voz do NEJM.

Após a remoção, o The Lancet disse que estava conduzindo uma revisão, e que sérias questões científicas foram levantadas.

A Dra. Deneen Vojta, vice-presidente executiva da Divisão Global de Pesquisa e Desenvolvimento do UnitedHealth, disse que é importante questionar como esse grupo obteve os dados, e que eles devem ser disponibilizados para análise.

O Dr. Peter Bach, do Memorial Sloan Kettering, nos EUA, disse que sua equipe de pesquisa avalia regularmente os dados oferecidos por essas novas empresas para garantir que estejam de acordo com o que conhecemos, como a idade das pessoas que fazem uma determinada cirurgia ou o número de prescrições que a empresa diz que foram atendidas.

"Nós avaliamos com muito cuidado", disse o Dr. Peter.

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