Série de surtos de covid-19 em Lisboa coloca Portugal novamente em alerta

Giuliana Miranda

Notificação

1 de julho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Lisboa, Portugal – Inicialmente apontado como bom exemplo no combate à pandemia, Portugal agora é visto com desconfiança pelos vizinhos europeus devido a uma sucessão de surtos do novo coronavírus, especialmente na região de Lisboa e Vale do Tejo.

O governo português afirma que a identificação de muitos novos casos se deve à estratégia nacional de testagem em larga escala, mas o Ministério da Saúde reconhece que há dificuldades de interromper as cadeias de transmissão do SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) na área metropolitana da capital.

Por conta dos surtos na região de Lisboa, que concentra cerca de 80% dos novos casos no país, as autoridades optaram por retroceder algumas etapas no processo de reabertura do comércio e das atividades.

Uma das principais mudanças foi a redução no limite máximo de aglomerações, que passou de 20 para 10 pessoas na região metropolitana da capital. Lojas e cafés passaram a ter de fechar às 20 horas. Depois deste horário, também fica proibida a venda de bebidas alcoólicas, até em restaurantes.

Em um movimento inédito, que não havia sido adotado sequer durante o período de confinamento estabelecido pelo estado de emergência, o governo também determinou multas para quem descumprir as regras. As punições variam entre 100 e 500 euros.

As autoridades identificaram 19 freguesias em que a situação epidemiológica estava mais problemática e, nesses locais, passam a vigorar medidas ainda mais restritivas.

Foco inicial da covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) em Portugal, o Norte do país tem registado cada vez menos casos, enquanto a região de Lisboa disparou no peso relativo.

No dia 26 de junho, foram registradas seis mortes e 451 casos de pessoas infectadas no país – o maior valor diário desde 08 de maio, quando foram notificados 533 novos casos. Até então, o total de infectados pelo novo coronavírus em Portugal era de 40.866.

Desde o começo de junho, a região metropolitana de Lisboa concentra a maior parte dos casos. Na última sexta-feira (26), a área foi responsável por 75% dos novos infetados. 

Em entrevista coletiva, a ministra da Saúde, Dra. Marta Temido, reconheceu a persistência dos surtos.

"Estamos a ter dificuldade em quebrar as cadeias de transmissão, estão a manter-se relativamente persistentes e, portanto, pusemos no terreno um conjunto de instrumentos adicionais", afirmou.

O resultado fez com que outros países europeus impusessem restrições a viajantes oriundos de Portugal.

Ao anunciarem seus planos de reabertura das fronteiras, em meados de junho, oito países europeus não incluíram Portugal na lista de nações com visitantes autorizados. São eles: Dinamarca, Finlândia, Áustria, Lituânia, Eslováquia, Letónia, Chipre e Malta.

Esses locais adotaram como critério indicativo de controle da pandemia o número de novos casos por 100.000 habitantes. Por este critério, Portugal tem uma das mais altas taxas de novos contágios do continente, juntamente com a Suécia.

Testagem em massa

O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, tem reagido às críticas afirmando que o número elevado de novos casos reflete a estratégia de testagem em massa da população.

Atualmente, Portugal é o quinto país europeu que mais testa para SARS-CoV-2. Com uma população de pouco mais de 10.000.000 de habitantes, o país já ultrapassou a marca de 1.000.000 de análises para o novo coronavírus.

"Em Portugal o que aumentou significativamente foi o número de testes", afirmou António Costa, em declaração a jornalistas estrangeiros.

O chefe de Estado destacou ainda que os portugueses seguiram voluntariamente as orientações para ficarem em casa e realizarem distanciamento físico. Apesar de ter tido um estado de emergência em vigor por mais de um mês, Portugal tomou medidas menos restritivas do que seus vizinhos europeus.

"Portugal nunca teve um lockdown total, tendo mantido a atividade em vários de seus setores (...) E, mesmo assim, conseguimos resultados satisfatórios. E qual a razão? A principal foi sobretudo o comportamento cívico que o conjunto da sociedade soube assumir. O conjunto de cidadãos internalizou o dever de confinamento domiciliário e as práticas de higiene e de proteção. O conjunto da população internalizou a necessidade de evitar comportamentos de risco", afirmou o primeiro-ministro. 

Apesar do discurso oficial e do reconhecimento do número elevado de testes, especialistas chamam a atenção para a situação epidemiológica do país. 

"É inegável que se testarmos mais, encontraremos mais casos. Mas a explicação para termos mais casos não é só porque estamos a testar mais, é porque temos mais casos", avaliou o especialista em saúde pública, Dr. Ricardo Mexia, em entrevista ao jornal Público.

"Se eu testasse todos os portugueses, não iam estar todos doentes. É normal que, se eu faço mais testes, encontro mais casos; mas se eles não existirem, eu não os encontro. Só estamos a encontrar mais casos porque eles existem", completou o Dr. Ricardo, que é presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

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