Cesárea associada a piores desfechos em mulheres com covid-19

Marilynn Larkin

Notificação

30 de junho de 2020

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Estados Unidos (Reuters Health) – O parto cesáreo foi associado a desfechos maternos graves e deterioração clínica em comparação com o parto vaginal em mulheres com covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) na Espanha.

"Nós estávamos realmente surpresos com a alta taxa de cesáreas em pacientes com covid-19 na China", disse à Reuters Health por e-mail o Dr. David Baud, médico do Lausanne University Hospital, na Suíça. "Não ficamos tão surpresos ao descobrir, no nosso estudo, que o parto vaginal é mais seguro para essas pacientes."

Dr. David e colaboradores estudaram dados de gestantes de feto único na Espanha diagnosticadas com SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) entre 12 de março e 06 de abril de 2020, que deram à luz nos 14 dias seguintes.

Conforme publicado no periódico JAMA, dentre as 82 participantes, quatro apresentavam covid-19 grave, incluindo uma com pré-eclâmpsia concomitante. Todas as quatro foram submetidas a cesárea e precisaram de internação na unidade de terapia intensiva (UTI).

Setenta e oito mulheres eram assintomáticas ou tinham sintomas leves de covid-19, incluindo 11 que necessitaram de oxigenoterapia. Quarenta e uma (53%) tiveram parto vaginal e 37 (47%) parto cesáreo – 29 por indicação obstétrica e 8 por sintomas de covid-19, sem outra indicação obstétrica.

Comparadas com aquelas que tiveram parto vaginal, as mulheres submetidas a cesárea apresentaram maior probabilidade de serem multíparas, obesas, necessitarem de oxigênio à admissão e terem achados anormais na radiografia de tórax.

Nenhum evento adverso grave ocorreu em mulheres que tiveram parto vaginal. No entanto, cinco (13,5%) que realizaram cesárea precisaram ser internadas na UTI.

Dentre as gestantes que realizaram parto vaginal, duas apresentaram deterioração clínica após o nascimento versus oito dentre as que fizeram cesárea (4,9% vs. 21,6%, respectivamente). Após ajuste para potenciais fatores de confusão, o parto cesáreo foi significativamente associado a deterioração clínica (razão de chances ajustada ou adjusted odds ratio, aOR, = 13,4).

Oito recém-nascidos por parto vaginal (19,5%) e 11 por cesárea (29,7%) foram admitidos na UTI neonatal. Após ajuste, o nascimento por cesárea foi significativamente associado a aumento do risco de admissão na UTI neonatal (aOR = 6,9).

Três recém-nascidos por parto vaginal testados dentro de seis horas após o nascimento tiveram resultado positivo no teste reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR, sigla do inglês, Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction) para SARS-CoV-2. No entanto, a repetição do teste em 48 horas foi negativa e nenhum deles apresentou sintomas de covid-19 dentro de 10 dias.

Dois outros recém-nascidos, ambos de parto cesáreo a termo, apresentaram sintomas de covid-19 dentro de 10 dias. Nesses casos, embora o exame ao nascimento tivesse sido negativo, o resultado foi positivo na repetição do exame. Ambos os recém-nascidos tiveram contato com seus pais imediatamente após o nascimento. Os sintomas resolveram dentro de 48 horas.

O Dr. David disse: "Os médicos não devem realizar uma cesárea apenas porque a paciente tem covid-19 ou para evitar a transmissão do vírus para o bebê. A cesárea não parece prevenir a infecção do recém-nascido."

O Dr. Matthew Blitz, médico especialista em medicina materno-fetal no Northwell Health's Southside Hospital, nos Estados Unidos, comentou por e-mail: "Nosso sistema de saúde já cuidou de mais de 500 gestantes positivas para SARS-CoV-2 e apenas cerca de uma dúzia foram admitidas na UTI, como relatamos em um artigo recém-publicado no periódico American Journal of Obstetrics and Gynecology."

"Em quase todos esses casos, as pacientes tinham doença grave ou crítica já na admissão hospitalar", o Dr. Matthew disse à Reuters Health. "Em nossa experiência, a deterioração clínica significativa das pacientes com sintomas leves ou assintomáticas, independentemente do tipo de parto, é extremamente rara."

Como o Dr. David, ele disse: "A decisão de realizar uma cesárea deveria ser baseada em indicações obstétricas padronizadas. A presença ou ausência de covid-19 não deveria ser um fator. Certamente existem muitos debates sobre o tipo de parto e o momento ideal para fazê-lo em casos graves de covid-19, mas estudos maiores serão necessários para guiar essa decisão."

O Dr. Robert Atlas, médico e chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Mercy Medical Center, nos EUA, comentou em um e-mail para a Reuters Health que "as pacientes submetidas a cesárea em geral estavam mais doentes, tinham peso mais elevado e menos tempo de gestação".

"Eu estou um pouco surpreso com os resultados", disse ele. "O número total é relativamente pequeno, e eu gostaria de ver uma atualização dos dados. Eu acredito que seja útil avaliar como estamos lidando com o parto em relação a essa doença, e deveríamos escolher o parto, como sempre, ponderando os riscos e benefícios da cesárea em relação ao parto vaginal".

"Se pudermos realizar o parto vaginal, em geral, será melhor, para todas as pacientes", disse ele. "No entanto, é possível que mulheres muito doentes não tolerem a indução do parto e precisem de cesárea."

FONTE: https://bit.ly/2YBCLRk

JAMA. Publicado on-line em 08 de junho de 2020.

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