Choque hiperinflamatório em crianças possivelmente ligado ao coronavírus

Equipe Reuters

29 de junho de 2020

Estados Unidos (Reuters Health) — Casos de uma síndrome hiperinflamatória rara que se acredita estar ligada ao novo coronavírus continuam sendo notificados em todo o mundo.

Durante um período de 10 dias, em meados de abril, médicos trataram com choque hiperinflamatório um número “sem precedentes” de oito crianças que deram entrada na unidade de tratamento intensivo (UTI) pediátrica do Evelina London Children's Hospital, no Reino Unido, acionando um alerta nacional.

Dra. Shelley Riphagen e colaboradores descreveram o agrupamento de casos em um artigo no periódico The Lancet.

Seis das oito crianças tinham ascendência afro-caribenha e cinco eram meninos. As oito crianças, que antes estavam “bem”, apresentavam sinais e sintomas semelhantes à doença de Kawasaki atípica, síndrome de choque da doença de Kawasaki ou síndrome do choque tóxico. Quatro crianças tinham exposição conhecida ao coronavírus na família.

O quadro clínico das crianças foi semelhante, com febre “que não cede” (38 ºC a 40 ºC), exantema, conjuntivite, edema periférico, dor generalizada nos membros e sinais e sintomas gastrointestinais.

Todos evoluíram para choque vasoplégico (choque quente) refratário à reanimação volêmica, e precisaram de noradrenalina e milrinona como suporte hemodinâmico. A maioria das crianças não teve comprometimento respiratório significativo, mas sete precisaram de ventilação mecânica para estabilização cardiovascular.

“Outras características dignas de nota (além da febre persistente e do exantema) foram a ocorrência de pequenos derrames pleurais, pericárdicos e ascíticos, sugerindo um processo inflamatório difuso”, relataram os médicos.

As oito crianças tiveram resultado inicial negativo para o SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) no lavado broncoalveolar ou nos aspirados nasofaríngeos. As evidências laboratoriais de infecção ou inflamação foram altos níveis de proteína C reativa, procalcitonina, ferritina, triglicerídeos e dímero D, no entanto, não foi identificado nenhum agente etiológico em sete das oito crianças. Foram isolados adenovírus e enterovírus das amostras de uma das crianças.

“Os eletrocardiogramas iniciais eram inespecíficos; no entanto, um achado ecocardiográfico comum foi o de vasos coronários com brilho, que evoluíram para aneurisma coronariano gigante” em uma das crianças na primeira semana após a alta da UTI. “Uma criança evoluiu para arritmia com choque refratário, precisando de suporte vital extracorpóreo e morreu de um grande infarto cerebrovascular. O comprometimento miocárdico nessa síndrome é evidenciado pelo grande aumento das enzimas cardíacas no curso da doença.”

As oito crianças foram tratadas com imunoglobulina intravenosa (2 g/kg) nas primeiras 24 horas, bem como ceftriaxona e clindamicina. Seis crianças receberam subsequentemente ácido acetilsalicílico (50 mg/kg). Todas as crianças tiveram alta da UTI após quatro a seis dias.

Após a alta, duas crianças apresentaram resultado positivo para SARS-CoV-2, inclusive a criança que morreu, na qual o SARS-CoV-2 foi detectado post mortem.

“Sugerimos que esse quadro clínico representa um novo fenômeno que acomete crianças previamente assintomáticas com infecção pelo SARS-CoV-2, manifestando-se como uma síndrome hiperinflamatória com comprometimento de vários órgãos, semelhante à síndrome de choque da doença de Kawasaki”, escreveram a Dra. Shelley e colaboradores. “A natureza multifacetada do curso da doença reforça a necessidade de tratamento multidisciplinar especializado (intensivismo, cardiologia, infectologia, imunologia e reumatologia).”

Os médicos observaram que uma semana após enviar a correspondência ao periódico Lancet, sua UTI atendeu mais de 20 crianças com um quadro clínico semelhante, as 10 primeiras com sorologia anti-SARS-CoV-2 positiva, incluindo as oito descritas na correspondência ao Lancet.

FONTE: https://bit.ly/2xUOile. The Lancet. Publicado on-line em 06 de maio de 2020.

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