Europa aposta nos testes sorológicos para evitar a segunda onda do vírus

John Miller

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29 de junho de 2020

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Suíça (Reuters) — Enquanto a Europa cautelosamente afrouxa as restrições impostas por causa do coronavírus, muitos governos se digladiam para comprar os testes sorológicos com o objetivo de descobrir quantos de seus cidadãos foram infectados, na esperança de que isso os ajude a elaborar estratégias para evitar uma segunda onda de casos de covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019).

Mas, exatamente qual será a utilidade das informações ainda é incerto; aumentando o risco de desperdício de dinheiro público e de tempo por parte do governo.

A Suíça, sede da empresa Roche, que produziu seu próprio teste sorológico contra o SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), é um dos países que se abstém de fazer pedidos.

"O governo até agora não comprou nenhum teste sorológico", disse um porta-voz do Swiss Federal Office of Public Health à Reuters no dia 14 de maio.

"A capacidade desses testes de nos informar continua demasiadamente incerta para que façam parte de uma estratégia de flexibilização", disse o porta-voz, referindo-se ao relaxamento das restrições, como a livre circulação.

Isso não impediu que fabricantes de testes sorológicos, como a Roche, a rival da americana Abbott, a Siemens Healthineers alemã, bem como fornecedores chineses, recebessem uma enxurrada de pedidos e manifestações de interesse dos governos.

Em 14 de maio, a Grã-Bretanha anunciou que estava negociando com a Roche a compra de centenas de milhares de testes por semana, descrevendo o fato como um potencial "divisor de águas".

Isso depois da Alemanha ter dito na semana anterior que compraria do laboratório farmacêutico suíço três milhões de testes em maio e a seguir cinco milhões por mês.

De tão preocupada com sua capacidade de garantir os produtos, a Finlândia está fabricando seus próprios testes.

O instituto finlandês de saúde e bem-estar (Terveyden ja hyvinvoinnin laitos – THL) começou inicialmente a usar testes de "um fornecedor europeu", cujo nome não foi revelado, mas mudou de estratégia ao saber que o fornecedor não poderia assegurar a entrega em tempo hábil dos 30.000 testes encomendados para este ano.

"A disponibilidade era questionável, então não podíamos continuar por esse caminho", disse à Reuters o pesquisador-chefe do THL, o médico Dr. Arto Palmu, Ph.D., acrescentando que as avaliações iniciais da acurácia de sua versão doméstica eram consideradas "pelo menos tão boas" quanto as opções comerciais.

Os testes sorológicos são feitos para detectar as proteínas do sistema imunitário que as pessoas produzem em resposta à infecção, e que geralmente são sinal de aquisição de algum grau de proteção contra um novo contágio pelo mesmo vírus.

A acurácia, ou a especificidade, é tudo. No entanto, já que resultados falso-positivos podem dar às pessoas a falsa sensação de segurança se acreditarem que tiveram a doença e têm alguma imunidade, quando na verdade podem nunca ter sido infectadas.

Os Estados Unidos tiveram de restringir as regras de liberação dos testes, temendo fraudes sob regulamentações inicialmente frouxas, destinadas a acelerar a chegada dos testes no mercado.

A Roche afirmou que seus testes têm 99,81% de especificidade.

A Abbott disse que a especificidade e a sensibilidade de seu teste são de 99,5% e 100%, respectivamente.

O laboratório italiano DiaSorin disse que seu teste Liason XL tem sensibilidade de 97,4% e especificidade de 98,5%.

Existem outros testes por aí também.

A Dinamarca, um dos primeiros países da Europa a reabrir as escolas, iniciou na segunda-feira seu primeiro estudo sorológico que vai testar 2.600 pessoas, usando um kit da chinesa Wantai.

O Ministério da Saúde holandês disse em 05 de maio que havia encomendado um milhão de kits, também de Wantai.

A Itália escolheu a Abbott para comprar 150.000 kits.

A Roche não quis comentar sobre as discrepâncias no número de testes vendidos para os diferentes países, mas disse que seu objetivo era ser "justa".

A empresa não quer se envolver em uma disputa política como a Sanofi S.A., quando disse que os Estados Unidos seriam os primeiros a receber a vacina da covid-19, caso fosse bem-sucedida.

"Temos um preço diferenciado para o teste em todo o mundo", disse um porta-voz da Roche. "Estamos trabalhando com clientes, organizações sem fins lucrativos e governamentais, e órgãos regulamentadores para assegurar que nossos testes tenham o maior impacto possível na saúde dos pacientes e da comunidade."

Um porta-voz da Siemens Healthineers disse que atualmente existem vários grandes consórcios nacionais para testes sorológicos em massa em andamento dos quais a empresa participa.

Nem todos os países estão tão adiantados.

Na Hungria, por exemplo, um porta-voz do governo disse em 14 de maio que não tinha informações sobre planos de realização de testes sorológicos.

O Dr. Cillian De Gascun, médico e chefe do laboratório nacional de virologia da Irlanda, disse em entrevista coletiva que o país estava avaliando e validando testes e, se tudo correr bem, poderia ter alguns até junho.

Mas estar ligeiramente atrás na corrida pode não ser uma desvantagem, pois atualmente não há consenso sobre o que os países devem fazer com as informações obtidas com os testes.

Alguns países, como o Chile, aventaram a hipótese de emitir "passaportes de imunidade" – potencialmente permitindo a livre circulação – para as pessoas que tiveram a covid-19 e se recuperaram, já que podem estar protegidas contra a reinfecção.

Mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) se posicionou contra esses "passaportes", dizendo que "não há evidências" de que as pessoas que se recuperaram do vírus não o possam contrair novamente.

O ministro da saúde da Alemanha, o banqueiro Jens Spahn, também disse na semana passada que a ideia de confinar as pessoas só porque elas não têm anticorpos específicos coloca questões de natureza ética.

Para a Suíça, a estratégia é a mesma dos países como Coreia do Sul e Taiwan, que tiveram algum sucesso em conter a covid-19 – testar qualquer pessoa que apresente sintomas, rastrear todos que tiverem tido contato com uma pessoa infectada e exigir que mantenham o isolamento até estarem claramente livres da doença.

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