Isolamento horizontal x isolamento vertical: quais são as evidências?

Giuliana Miranda

Notificação

23 de junho de 2020

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Lisboa, Portugal – O elevado potencial de contágio do SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) e sua grande pressão sobre o sistema hospitalar rapidamente fizeram com que a comunidade científica internacional defendesse medidas de distanciamento social para conter a disseminação do vírus. A "dose adequada" desse distanciamento, no entanto, foi inicialmente motivo de embate entre defensores de um modelo amplo de restrições e aqueles que propunham outro modelo, mais frouxo, restrito essencialmente a grupos de risco e pessoas já infectadas.

No princípio da pandemia, embasados no volume e na qualidade dos dados disponíveis até então, alguns modelos matemáticos e epidemiológicos previam que seria possível obter bons resultado com as medidas de isolamento dos possíveis grupos de risco. Uma estratégia que, no Brasil, ficou conhecida como isolamento vertical.

Com a ampliação das informações disponíveis sobre o vírus e os resultados sucessivamente negativos de países que inicialmente adotaram algo nesse sentido, como Inglaterra, Holanda e, mais recentemente, Suécia, o isolamento vertical foi rechaçado na maior parte do mundo.

Em contrapartida, diversos trabalhos têm mostrado evidências científicas robustas de que somente o distanciamento social amplo, conhecido como isolamento horizontal, teve resultados expressivos no que tange o principal objetivo definido pelos especialistas em saúde pública; achatar a curva de crescimento do vírus.

"Do ponto de vista teórico, o isolamento vertical faz sentido, mas na prática não funcionou", explicou o Dr. Ricardo Mexia, médico epidemiologista e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP) de Portugal.

Atualmente, o isolamento horizontal é o modelo defendido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e corroborado por uma série de trabalhos.

Nesta reportagem, o Medscape apresenta um resumo de alguns dos principais fundamentos do debate sobre os dois modelos de distanciamento e os resultados que levaram a maior parte dos cientistas e autoridades governamentais a abandonar a ideia de modelo vertical.

"Hoje já dá para falar que não temos evidências científicas para apoiar o isolamento vertical", avaliou a médica infectologista Dra. Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"Quando se fala em isolamento horizontal, a tentativa é diluir em um período maior o número de casos que vão acontecer, para assim termos condições de dar tratamento hospitalar para as pessoas que adoecerem gravemente. Não se pretende exatamente diminuir o número de casos, queremos atender melhor quem precisar de hospitalização e, com isso, diminuir o número de mortes. Porque, se eu consigo ter hospital para todo mundo que precisar, consigo ter mais sucesso no tratamento. Se esgoto rapidamente os meus leitos, aí vai ter gente que vai morrer sem assistência", completou a Dra. Raquel.

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