COMENTÁRIO

Covid-19: Riscos para os trabalhadores no retorno à rotina

Dr. Mauricio Wajngarten

Notificação

17 de junho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

Em tempos de pandemia, frequentemente, somos solicitados a orientar sobre os riscos relacionados com as mais diversas atividades. No caso das atividades laborais essa orientação ganha importância especial, afinal, a manutenção do emprego ou do trabalho garante a subsistência da maioria da população. Já abordamos o tema no Medscape ao analisarmos os efeitos adversos do distanciamento físico/isolamento social. [1] A renúncia à renda, mesmo que por um breve período, pode inviabilizar a manutenção das necessidades básicas, como moradia, alimentação e assistência médica. Eventuais auxílios governamentais, licenças remuneradas e seguros para desempregados podem atenuar o problema, porém são limitados e nem todos têm esse direito.

As orientações gerais para a prevenção da Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) vêm sendo bastante divulgadas, no entanto, a adesão muitas vezes é insuficiente.

Por outro lado, à medida que as restrições às atividades econômicas vêm sendo atenuadas, a circulação de trabalhadores de atividades "não essenciais" se somará à dos que exercem atividades "essenciais", colocando-se em risco de contrair o SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) no trabalho. Portanto, surge a necessidade de saber se as orientações gerais fornecidas para toda a população são efetivas para controlar a pandemia. Parece claro que devemos aprimorar as orientações sobre as atividades laborais com base em avaliações de risco individualizadas.

Proposta de estratégia de aconselhamento individualizado

Recentemente, um artigo publicado na seção Perspectives do periódico New England Journal of Medicine[2] apresentou uma proposta de aconselhamento "individualizado" para o exercício de atividades laborais com base em uma estratificação de risco.

A proposta pretende ajudar os médicos a aconselharem os pacientes sobre o retorno ao trabalho no meio da pandemia, com base no risco ocupacional de contrair SARS-CoV-2 e no risco de morte se forem infectados.

Embora os dados sobre o risco ocupacional sejam limitados, a Occupational Safety and Health Administration publicou diretrizes e propôs um esquema para classificar o risco de infecção por SARS-CoV-2 como alto, intermediário ou baixo, com base no contato potencial com pessoas que podem ou têm o vírus. [3]

Por outro lado, as categorias de baixo, intermediário e alto risco de risco individual de morte por Covid-19 são baseadas na idade e na presença de doenças crônicas de alto risco identificadas pelos Centers For Disease Control And Prevention (CDC). [4]

Desse modo, a estratégia propõe os seguintes critérios para a avaliação do risco de contaminação pelo SARS-CoV-2 diante do retorno ao trabalho:

1. Risco ocupacional para contrair SARS-CoV-2

  • Alto: Exigência de contato com pessoas com infecção por SARS-CoV-2 confirmada

  • Intermediário: Exigência de contato com pessoas que desconhecem o próprio status de infecção por SARS-CoV-2

  • Baixo: Permissão para exercer o trabalho de casa ou possibilidade de realizar um distanciamento físico rigoroso

2. Risco individual de morte pelo SARS-CoV-2

  • Alto: Pessoas idosas ou com doenças que elevam o risco de morte por Covid-19

  • Intermediário: Pessoas de meia idade ou jovens com doenças que elevam o risco de morte por Covid-19

  • Baixo: Pessoas jovens sem doenças que elevam o risco de morte por Covid-19

O aconselhamento deve ser feito de acordo com os riscos identificados após a avaliação:

  • Para todos: Usar máscara, realizar a higienização das mãos e usar os equipamentos de proteção individual (EPI) quando necessário.

  • Para as pessoas com risco ocupacional e individual altos: Discutir e considerar o afastamento do trabalho.

  • Para as pessoas com risco ocupacional e individual intermediários: Discutir riscos individuais, maneiras de reduzir a exposição e eventual afastamento do trabalho.

A estratégia recomenda incluir a avaliação e o aconselhamento sobre os possíveis riscos para familiares e outras pessoas próximas que possam ter alto risco de morte se contraírem a doença.

Considerações finais

De modo geral, as pessoas que exercem funções consideradas essenciais foram excluídas da quarentena e continuaram trabalhando; no entanto, elas não receberam orientações adequadas sobre as medidas de proteção contra o vírus, tão necessária para aqueles que correm um risco maior devido a idade avançada ou presença de doenças crônicas.

Sabemos que várias profissões são especialmente castigadas pela pandemia, contudo, os dados sobre risco ocupacional de Covid-19 não são robustos. São necessários mais dados para elucidar melhor os riscos específicos de cada ocupação, incluindo dados sobre disponibilidade e eficácia de EPI, de acordo com a função do trabalhador. O melhor conhecimento desse cenário poderá contribuir para uma reinserção segura dos trabalhadores, particularmente aqueles com risco individual e ocupacional elevados.

A estratégia de aconselhamento individualizado proposta é um bom começo.

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