Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.
Esta transcrição foi editada para maior clareza.
Bem-vindo ao Fator de Impacto, sua dose semanal de comentários sobre um novo estudo médico. Eu sou o Dr. Francis Perry Wilson, mais uma vez gravando do meu escritório na Yale University.
É de tirar o fôlego o quanto temos aprendido – e com que rapidez – sobre o novo coronavírus. Continuo impressionado com a capacidade da comunidade científica mundial de se concentrar com tamanha intensidade nessa ameaça inacreditável.
Mas evidentemente ainda resta muito a aprender. Existe uma enorme lacuna em nosso conhecimento epidemiológico acerca da doença, que só agora está começando, finalmente, a ser preenchida.
Os dados que temos à nossa disposição apontam potencialmente para duas realidades diferentes. Às vezes parece que existem dois coronavírus (metaforicamente; não estou falando de cepas genéticas ou algo no gênero). Um é um vírus com uma letalidade assustadora, entre 1% e 3%, infiltrando-se lentamente na população – um rolo compressor. O outro é um vírus cuja propagação é vertiginosamente rápida na comunidade, porém com pouquíssimo impacto na maioria das pessoas, excetuando-se os poucos desafortunados que evoluem mal – um vendaval.
Sabemos que os casos de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) comprovados por teste de reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês, Polymerase Chain Reaction) são apenas a ponta do iceberg.
Sabemos que atualmente nos Estados Unidos 5,7% das pessoas na ponta desse iceberg morreram.
A questão é: Qual é o tamanho do iceberg debaixo d'água? Estamos só começando a compreender isso.
Semana passada fiquei consternado por um artigo islandês sugerindo que havia cerca de dois casos de Covid-19 sem comprovação para cada caso comprovado.
Isso não é tudo; esta é a Covid-19 estilo rolo compressor. Isso quer dizer que milhões de pessoas ainda são suscetíveis à doença. Não está ocorrendo imunidade de rebanho, a letalidade é alta e vamos ficar presos nisso durante muito tempo.
Contudo, recentemente uma enorme quantidade de pré-publicações e comunicados à imprensa contam uma história diferente. Usando testes sorológicos, os pesquisadores estão começando a obter amostras de pessoas assintomáticas para descobrir quem teve a doença.
Alguns números são excepcionais.
No início de abril, pesquisadores alemães publicaram recentemente este estudo que descobriu que 70 de 500 pessoas testadas em uma região duramente atingida tinham anticorpos contra o coronavírus. Isso representa 14%. Extrapolar isso para toda a população gera uma razão de Covid-19 não confirmada de cerca de 5:1.
Um estudo de soroprevalência muito criticado feito na Califórnia com 3.300 pessoas descobriu que 50 tiveram resultado positivo – apenas 1,5% – mas isso em uma região que não tinha tido muitos casos sintomáticos, jogando a razão de doença não confirmada e confirmada para 85:1.
Mais recentemente, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, informou que a amostragem entre clientes nos mercados da cidade (o que talvez não seja a amostra mais aleatória) teve uma soroprevalência de aproximadamente 20%. Isso representa uma razão de doença não confirmada e confirmada de 10:1.
Essa é a Covid-19 vendaval – varrendo o país a toque de caixa, deixando um rastro de destruição, mas felizmente passando rapidamente. Essa é a Covid-19 que nos permite abrir mais rapidamente, partindo da premissa que os anticorpos confiram proteção, o que – cá entre nós – se não o fizerem, estamos meio que fritos, não importa qual seja a situação.
Então, que Covid-19 é essa?
Uma variável crucial aqui são as próprias sorologias. Nenhum teste é perfeito, mas, no caso dos testes com anticorpos contra o SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) (que atualmente não são regulamentados pela Food and Drug Administration ), a possibilidade de resultados falsos positivos é particularmente alta. O que é enganosamente reconfortante; isso nos levará a reabrir mais rápido do que deveríamos.
É fácil ver o porquê. Imagine que você tenha uma sorologia com 98% de especificidade. Apenas duas a cada 100 pessoas terão resultado falso positivo. Bem, neste caso você vai estimar que 2% da população já teve a doença. Se você fizer isso em uma amostra aleatória nos EUA, você estimaria que houve seis milhões de infecções pelo coronavírus, em comparação com aproximadamente um milhão de casos detectados, permitindo cortar confortavelmente a letalidade por um fator de 6 – nos fazendo sentir um pouco melhor.
Mas, é claro, esse resultado foi apenas aleatório, devido ao acaso.
Um teste com 95% de especificidade levaria à conclusão de que pelo menos 15 milhões de americanos já foram expostos, permitindo que você pegue a letalidade de 5,7% e a reduza para 0,3%, o que é muito mais confortável.
Viu como é fácil?
Então é preciso cuidado.
Tudo isso dito, estou animado com altas taxas de soroprevalência notificadas em Nova York. É improvável que o teste que eles usaram tenha tido apenas 80% de especificidade, mas, para ser justo, no momento desta gravação, as especificações do teste não estavam disponíveis.
Então, com qual coronavírus estamos lidando? O turbilhão que já infectou muitos de nós? Ou o rolo compressor vindo inexoravelmente em nossa direção? Nós não sabemos.
Mas com testes adequados e de boa qualidade, descobriremos. Fique ligado.
O Dr. Francis Perry Wilson é professor-associado de medicina e diretor do Yale's Program of Applied Translational Research. Seu trabalho de divulgação científica pode ser encontrado no Huffington Post, na NPR e aqui no Medscape. Ele tuita como @methodsmanmd e tem um repositório de seu trabalho de comunicação no site www.methodsman.com .
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Citar este artigo: Covid-19: dados indicam duas realidades possíveis – qual é a verdadeira? - Medscape - 10 de junho de 2020.
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