Evidências de transmissão transplacentária na Covid-19

Dra. Sabrine Teixeira Grünewald, MSc

Notificação

10 de junho de 2020

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Desde que surgiu, no final de 2019, a infecção pelo SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) vem desafiando pesquisadores em todo o mundo, com sua ampla variedade de manifestações clínicas, alta transmissibilidade e falta de um tratamento definido para os casos mais graves. Uma das questões que ainda permanece em aberto é a possibilidade de transmissão por via transplacentária.

Em um artigo de revisão recém-publicado no periódico Journal of Clinical Virology os autores avaliam os possíveis mecanismos de transmissão perinatal da Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019), destacando que, até o momento, os dados na literatura a respeito do tema são escassos.

Os autores descrevem que, no total, 179 recém-nascidos de mães com Covid-19 foram testados para a infecção em diversos estudos publicados em todo o mundo. Desses, apenas seis obtiveram resultado positivo para o exame de reação em cadeia da polimerase (PCR, sigla do inglês, Polymerase Chain Reaction) feito com swab nasal realizado dentro das primeiras 48 horas de vida. Não é possível excluir, em nenhum desses casos, que a contaminação tenha ocorrido por inalação de gotículas advindas de familiares ou profissionais de saúde infectados.

No entanto, existem casos relatados na literatura – e destacados nessa mesma revisão – nos quais foram realizados partos cesáreos com membranas amnióticas intactas seguida da separação do recém-nascido da mãe infectada. Mesmo assim, o recém-nascido evoluiu com quadro compatível com Covid-19. Nesses casos, a transmissão por via transplacentária parece ser a causa provável.

O Dr. Pierre Roques, médico do Institut de Biologie François Jacob e um dos autores do estudo, comentou ao Medscape por e-mail que acredita que mais estudos poderiam ser realizados para elucidar essa questão: "Culturas in vitro de linhagens celulares derivadas da placenta são necessárias para fornecer a forma exata da via e dos mecanismos dessas infecções."

Dados de histologia placentária

Um outro estudo, publicado no periódico American Journal of Clinical Pathology, avaliou a histologia placentária de mães com infecção comprovada pelo novo coronavírus. Quando comparadas com o controle, as placentas tiveram uma maior prevalência de arteriopatia decidual e outras características de má-perfusão vascular, particularmente com vasculatura anormal e trombos intervilosos.

"Essas alterações podem refletir uma inflamação sistêmica ou um estado de hipercoagulabilidade, influenciando a fisiologia placentária", escreveram os autores.

Nenhuma das placentas analisadas no estudo, entretanto, foi examinada em busca da presença do RNA do SARS-Cov-2, uma importante limitação destacada pelos pesquisadores. Dessa forma, embora a pesquisa traga evidências de que o novo coronavírus possa causar alterações estruturais placentárias, ela não esclarece se essa seria, necessariamente, uma via de transmissão.

Mais evidências aguardam publicação

Já circula na internet um relato de caso, que aguarda a revisão por pares para publicação no periódico Nature Research, que pode esclarecer essa discussão.
Esse artigo relata o caso de uma mulher com 35 semanas de idade gestacional, internada devido a quadro compatível com síndrome gripal, com exames confirmatórios para Covid-19. Cinco dias após o início dos sintomas ela apresentou alteração no exame de cardiotocografia, e a equipe médica optou por realização de cesariana. Durante a cirurgia, foi coletado líquido amniótico antes da ruptura das membranas ovulares, e o PCR para SARS-CoV-2 foi positivo nessa amostra.

Os exames de swab retal e de nasofaringe do recém-nascido, coletados com uma hora de nascimento, e repetidos com 3 e 18 dias de vida, também foram positivos para o novo coronavírus. Da mesma forma, o PCR da placenta também foi positivo, e a avaliação histopatológica mostrou depósitos de fibrina perivilosos, com presença de sinais de infarto e inflamação crônica.

O recém-nascido apresentou complicações ao nascimento e precisou ser internado em uma unidade de terapia intensiva, mas recuperou-se e recebeu alta com 18 dias de vida.

O Dr. Daniele De Luca, presidente da European Society for Pediatric and Neonatal Intensive Care e um dos autores do estudo, acredita que esse relato traz evidências definitivas. "Nosso trabalho demonstra claramente o que vinha sendo negado até o momento. No começo da pandemia, alguns negaram rapidamente a possibilidade de uma transmissão vertical do SARS-CoV-2, enquanto teria sido mais sábio dizer 'nós não sabemos'", ele disse ao Medscape por e-mail.

"Nós fomos capazes de excluir a contaminação e transmissão ambiental. E mais: demonstramos que o vírus pode se replicar nas células da placenta e isso é coerente com outras observações mostrando o vírus nas células placentárias, por microscopia eletrônica."

Ele se refere a um relato de caso publicado no periódico American Journal of Obstetrics and Gynecology, no qual um grupo de pesquisadores norte-americanos utilizou microscopia eletrônica e foi capaz de identificar vírions invadindo os sinciciotrofoblastos nas vilosidades placentárias de uma paciente com exame positivo para SARS-CoV-2.

Nesse último relato, entretanto, não foi realizado PCR do líquido amniótico nem da placenta, e não é informado se o recém-nascido apresentou sintomas ou realizou exames para pesquisa de Covid-19.

Para o Dr. Daniele, os achados de seu estudo servem como alerta para os médicos. "Acredito que os médicos devem ter cautela, pois o risco de um neonato se infectar durante a gestação ou na primeira semana de vida está longe de ser zero", ele disse.

"Recém-nascidos infectados podem desenvolver manifestações clínicas de Covid-19. Esses casos são certamente raros quando comparados aos adultos, mas agora está claro que eles existem. Então, deve ser oferecido um aconselhamento adequado e prudente às famílias, para informá-las e reduzir o risco o máximo possível", sugeriu.

"Nós estamos encarando uma nova infecção", disse o Dr. Daniele. "Todos os dias descobrimos algo novo, precisamos ser cautelosos e aplicar as melhores técnicas e diretrizes, e considerar que o risco para os recém-nascidos pode ser relativamente baixo, mas não é zero", concluiu.

Os autores dos estudos citados informaram não ter conflitos de interesses. O estudo "Evidence and possible mechanisms of rare maternal-fetal transmission of SARS-CoV-2" recebeu apoio financeiro do ARS-Ile-de-France.

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