Pediatras alertam para a diversidade de manifestações da Covid-19 em crianças

Roxana Tabakman

Notificação

9 de junho de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

Em março, com a pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) ainda iniciando no Brasil, médicos de um hospital de São Paulo se depararam com um caso inesperado. Uma menina de 10 anos previamente saudável foi admitida no serviço de emergência com sintomas respiratórios leves, 38 ºC de febre há 24 horas e hematúria importante. Filha de médicos que atendem pacientes com Covid-19, o teste por reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR, sigla do inglês, Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction) feito via swab nasofaríngeo foi positivo para SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) e negativo para outros vírus. O caso, publicado esta semana no periódico The Pediatric Infectious Disease Journal, [1] pode ser a primeira notificação de complicações renais associadas à Covid-19 em uma criança.

"Achamos importante chamar a atenção da comunidade pediátrica para esse caso, porque a doença não é feita apenas de manifestações respiratórias. E de lá para cá fomos inundados de novos dados mostrando, principalmente em adultos, que o espectro de manifestações da doença é muito amplo", disse ao Medscape o Dr. Marco Aurélio Sáfadi, um dos autores da carta ao editor e presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A menina passa bem, e no hospital não tiveram mais casos importantes desse tipo. Sim, os médicos atenderam quadros respiratórios graves com necessidade de ventilação mecânica e um caso de síndrome inflamatória e nos casos posteriores em que detectaram hematúria nenhum deles teve comprometimento renal grave.

A lesão renal parece ser, porém, um achado frequente em adultos internados com Covid-19, com uma ampla gama de manifestações, da hematúria leve à doença renal grave. Os autores acreditam que os pediatras devem estar cientes dessas apresentações em crianças, particularmente entre bebês e crianças com doenças renais subjacentes, que teoricamente são propensos à complicações graves. "Entendemos que uma vez que se infectam, por terem uma condição frágil dos rins, as crianças que já são portadoras de insuficiência renal crônica, glomerulopatia ou estão em diálise, têm mais chances de complicações."

Hematúria e lesão renal têm sido comumente descritas em pacientes com infecções respiratórias virais, incluindo influenza A e B, adenovírus e outros patógenos. O pediatra deve estar atento para a possibilidade de coinfecção por outro vírus respiratório ao tratar bebês e crianças pequenas. [2]

"E, se o quadro não for muito óbvio, se não consegue chegar na etiologia, se há febre sem sinais de localização, acho que Covid-19 tem que ser pesquisada", disse o Dr. Marco Aurélio.

A grande maioria dos pacientes tem bom prognóstico, "portanto, não se justifica introduzir medicamentos que talvez façam mais mal do que bem". Para os casos graves há protocolos, "mas não temos dados que nos respaldem sobre a segurança dos medicamentos, e a avaliação é sempre individual".

Centenas de óbitos entre crianças e adolescentes

De forma geral a Covid-19 é branda em crianças. O número de pacientes graves e óbitos é pequeno perto do universo total de vítimas. E os dados disponíveis sobre a gravidade da Covid‐19 em crianças com comorbidades são escassos, limitando a possibilidade de identificar condições com maior risco de complicação e mortalidade. [2]

No Brasil, a situação, que pode ser acompanhada nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, é preocupante. No dia 18 de maio já haviam sido notificados quase 100 óbitos entre crianças e adolescentes no país. Os números divulgados no boletim por faixa etária revelam que 25 vítimas tinham menos de um ano de idade, 15 vítimas tinham de um a cinco anos e 54 de tinham de 6 a 19 anos. [3]

O Dr. Marco Aurélio Sáfadi informou não ter conflitos de interesses relevantes.

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