Covid-19: Distanciamento físico funciona e máscara N95 é a melhor, diz análise

Richard Mark Kirkner

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8 de junho de 2020

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Um estudo que reivindica ser a primeira revisão de todas as evidências disponíveis sobre a eficácia do distanciamento físico, das máscaras e da proteção ocular para evitar a propagação da Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) e de outras doenças respiratórias quantificou a eficácia dessas medidas de proteção.

O estudo constatou que o maior distanciamento físico de uma pessoa exposta reduz significativamente o risco de transmissão, e que as máscaras N95, principalmente para os profissionais de saúde, são mais eficazes do que outras coberturas faciais.

A metanálise publicada on-line em 02 de junho no periódico The Lancet também marca a primeira avaliação dessas medidas de proteção na comunidade e nos serviços de tratamento da Covid-19, afirmaram os autores do estudo.

"O risco de infecção depende muito da distância do paciente infectado e do tipo de máscara facial e proteção ocular usadas", escreveu o Dr. Derek K. Chu, Ph.D., médico da McMaster University, nos Estados Unidos, e colaboradores, em nome do COVID-19 Systematic Urgent Review Group Effort (SURGE).

O estudo relatou que o distanciamento físico de pelo menos um metro "parece estar fortemente associado a um grande efeito protetor", mas que o distanciamento de dois metros pode ser mais eficaz.

O estudo fez a revisão sistemática de 172 estudos observacionais em seis continentes que avaliaram medidas de distanciamento, máscaras e proteção ocular para impedir a transmissão entre os pacientes com Covid-19 confirmada ou suspeita, outros tipos de síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus) e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, sigla do inglês, Middle East Respiratory Syndrome), e seus familiares, acompanhantes e profissionais de saúde até 03 de maio de 2020. A metanálise foi feita com estimativas agrupadas de 44 estudos comparativos contendo 25.697 participantes, dentre os quais, sete estudos da Covid-19 com 6.674 participantes. Nenhum dos trabalhos analisados foi um ensaio clínico randomizado.

Uma subanálise de 29 estudos não ajustados e nove estudos ajustados constatou que o risco absoluto de infecção estando próximo de uma pessoa exposta foi de 12,8% a um metro e 2,6% a dois metros. O risco permaneceu constante, mesmo quando os seis estudos da Covid-19 desta subanálise foram isolados, e independentemente de estar em uma unidade de saúde ou não. Cada metro a mais de distância resultou em o dobro do risco relativo (P = 0,041).

O estudo também identificou o que Dr. Derek e colaboradores caracterizaram como uma "grande redução" do risco de infecção com o uso de máscaras N95 ou similares, com um risco ajustado de infecção de 3,1% vs. 17,4 % com ou sem cobertura facial, respectivamente. Os pesquisadores também encontraram uma associação mais forte nas unidades de saúde vs. fora das unidades de saúde, com um risco relativo de 0,3 vs. 0,56, respectivamente (P = 0,049). O efeito protetor da N95 ou de máscaras similares foi maior do que o das outras máscaras, com razão de chances (OR, sigla do inglês, odds ratio) ajustada de 0,04 vs. 0,33 (P = 0,09).

Foi constatado que a proteção ocular reduz o risco de infecção para 5,5% vs. 16% sem proteção ocular.

O estudo também identificou as possíveis barreiras ao distanciamento social e ao uso de máscaras e proteção ocular: desconforto, uso de recursos "vinculado a possível diminuição da equidade", comunicação menos clara e percepção de falta de empatia por parte dos pacientes em relação aos profissionais.

Dr. Derek e colaboradores escreveram que mais pesquisas de "alta qualidade", como ensaios clínicos randomizados, sobre o distanciamento ideal e a avaliação de diferentes tipos de máscaras em ambientes fora das unidades de saúde, "são urgentemente necessários". Os pesquisadores acrescentaram que "os gestores em todos os níveis devem, portanto, se esforçar para abordar as implicações de equidade entre os grupos com acesso atualmente limitado às máscaras e à proteção ocular".

O objetivo deste estudo era "informar os documentos de diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS)", observaram os autores. "Os governos e a comunidade de saúde pública podem usar nossos resultados para dar conselhos claros para as comunidades e profissionais de saúde sobre essas medidas de proteção, a fim de reduzir o risco de infecção", disse o co-líder do estudo, Dr. Holger Schunemann, Ph.D., médico da McMaster University, no Canadá.

A professora Raina MacIntyre, Ph.D., médica e chefe do programa de pesquisa em biossegurança do Kirby Institute da University of New South Wales, na Austrália, que escreveu o comentário que acompanha o artigo, disse que este estudo traz evidências para diretrizes mais sólidas sobre o uso do equipamento de proteção individual (EPI).

"Os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) do EUA inicialmente recomendaram a N95s para os profissionais de saúde que atendem pacientes com Covid-19, porém, mais tarde diminuíram a exigência para máscaras cirúrgicas e até máscaras de pano e bandanas diante da escassez de suprimentos", disse a Dra. Raina.

"Este estudo mostra que as N95 são máscaras de melhor qualidade, e deve promover a revisão das diretrizes que recomendam algo menos eficaz para os profissionais de saúde."

Recomendar algo abaixo do que as máscaras N95 oferecem para os profissionais de saúde é como enviar tropas para a guerra "desarmadas ou com arcos e flechas contra um inimigo armado até os dentes", disse a comentarista. "Não estamos falando de um dispositivo que custa centenas ou milhares de dólares; custa menos de um dólar produzir uma N95. Tudo o que é necessário para lidar com a escassez de suprimentos é vontade política."

Embora o estudo tenha algumas deficiências – não fez uma análise detalhada dos testes entre os participantes com Covid-19 –, traz informações importantes para os médicos, disse em uma entrevista o Dr. Sachin Gupta, médico pneumologista e intensivista em nos Estados Unidos.

"A força de uma metanálise é que você consegue ter uma ideia complexa; essa é a parte boa disso", disse o médico.

"Os pesquisadores estão confirmando o que sabíamos: que a distância importa; que as máscaras que conferem mais proteção e diminuem o risco de infecção; e que a proteção ocular tem um papel importante."

Dr. Derek e colaboradores informaram não ter conflitos de interesses. Um membro do SURGE está participando de um ensaio clínico comparando máscaras cirúrgicas e N95. A Organização Mundial da Saúde financiou parcialmente este o estudo.

FONTE: Chu DK et al. Lancet. 2020 Jun 2; doi.org/10.1016/ S0140-6736(20)31142-9.

Esta história foi publicada originalmente no MDedge.com .

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