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Pacientes com Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) e um câncer em progressão apresentam risco cinco vezes maior de morte em 30 dias em comparação com pacientes oncológicos positivos para Covid-19, mas que estão em remissão ou não têm evidência de câncer, de acordo com dados do registro COVID-19 and Cancer Consoritum (CCC19).
Outros fatores de risco independentes de morte em pacientes oncológicos com Covid-19 foram idade avançada, sexo masculino, história de tabagismo, número de comorbidades, performance status de 2 ou mais pelo Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG) e tratamento com hidroxicloroquina + azitromicina.
De fato, pacientes que receberam hidroxicloroquina e azitromicina tiveram risco de morte quase três vezes maior do que pacientes que não receberam esse esquema terapêutico. No entanto, esse achado foi "de validade questionável devido a um risco elevado de confusão residual; por exemplo, pacientes recebendo o esquema tiveram maior probabilidade de apresentar doença grave ou de hospitalização", disse o Dr. Jeremy L. Warner, médico do Vanderbilt University Medical Center, nos Estados Unidos.
O Dr. Jeremy apresentou esses achados em uma coletiva de imprensa on-line. Outros achados do registro CCC19 foram apresentados como parte do programa científico virtual da reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO).
"Grande impacto" em pacientes oncológicos
"Para pessoas com câncer o impacto da Covid-19 é especialmente grave, tenham elas sido expostas ao vírus ou não. Pacientes oncológicos costumam ser adultos mais velhos, geralmente com outras doenças subjacentes, e seus sistemas imunitários podem estar suprimidos pelo câncer ou em função da quimioterapia, radioterapia ou de outro tratamento", comentou o médico e presidente da ASCO, Dr. Howard A. Burris, que moderou a coletiva de imprensa mas não participou do estudo feito com os dados do registro CCC19.
"Os membros da ASCO nos disseram que precisaram atrasar ou modificar planos terapêuticos para reduzir o risco de infecção dos pacientes, e não sabemos ao certo qual será o impacto dessas mudanças. Atrasos no rastreamento e no diagnóstico de câncer também são uma grande preocupação", continuou o Dr. Howard.
"Isso confirma os relatos feitos por outros centros, inclusive de outras partes do mundo, onde descobriram que os pacientes oncológicos com Covid-19 têm desfechos piores", disse o Dr. Andrew T. Chan, médico do Massachusetts General Hospital, nos EUA, que não participou da pesquisa.
O grupo do Dr. Andrew desenvolveu um aplicativo de estudo dos sintomas de Covid-19 com o objetivo de definir se as pessoas com câncer têm mais risco de contrair infecções, além de avaliar se o câncer é um fator de risco independente de morte por Covid-19 ou de agravamento da doença.
"Utilizando os dados do nosso aplicativo nós fomos capazes de mostrar que pessoas que relataram ter câncer tinham mais risco de Covid-19 e maior probabilidade de hospitalização por conta da doença", disse o Dr. Andrew em uma entrevista.
Detalhes do estudo
O registro CCC19 coleta informações de 104 instituições participantes nos Estados Unidos e Canadá, assim como dados anônimos de indivíduos em: Estados Unidos, Argentina, Canadá, União Europeia e Reino Unido.
A amostra de 928 pacientes apresentada pelo Dr. Jeremy foi equilibrada quanto ao sexo. A mediana de idade foi de 66 anos, e 30% dos pacientes tinham 75 anos ou mais.
Ao todo, 39% dos pacientes estavam em tratamento oncológico ativo, e 43% apresentavam doença mesurável. Câncer de mama foi o diagnóstico mais comum, seguido por câncer de próstata, tumores gastrointestinais, linfomas e tumores torácicos.
Dois terços dos pacientes (68%) tinham um ECOG performance status de 0 ou 1; 8% tinham um ECOG performance status de 2; e 5% um status de 3 ou 4. Os demais pacientes tinham ECOG performance status desconhecido.
Pouco mais da metade dos pacientes (52%) nunca foi fumante, 37% eram ex-fumantes e 5% eram fumantes. O status de tabagismo dos 6% restantes era desconhecido.
Com um acompanhamento mediano de 21 dias, 121 pacientes (13%) morreram. Todas as mortes ocorreram até 30 dias após o diagnóstico de Covid-19. Dentre os pacientes que morreram, 78 eram homens, 64 eram ex-fumantes, 70 tinham 75 anos ou mais, 41 tinham um câncer ativo estável ou respondedor, 25 tinham um câncer em progressão e 42 tinham um ECOG performance status de 2 ou mais.
Ao todo, 466 pacientes foram hospitalizados, dentre os quais, 106 morreram (23%). Dos 132 pacientes admitidos em unidades de tratamento intensivo (UTI), 50 morreram (38%), incluindo 27 pacientes com 75 anos ou mais, e 15 com um ECOG performance status de 2 ou mais. Dos 116 pacientes que necessitaram de intubação, 50 morreram (43%), incluindo 26 que tinham 75 anos ou mais e 11 que tinham ECOG performance status de 2 ou mais.
"Ainda está no começo, e será necessária uma amostra maior, com mais tempo de acompanhamento, para termos uma ideia mais completa de como a Covid-19 atinge subconjuntos específicos de pacientes ao longo do tempo", disse o Dr. Jeremy.
A ASCO criou seu próprio registro de Covid-19 para coletar dados tanto em curto prazo como longitudinais durante a pandemia.
"Conseguiremos compreender como a pandemia impactou a realização do tratamento oncológico, assim como os efeitos em longo prazo da Covid-19 em pacientes oncológicos, e entender as abordagens que funcionam melhor", disse o Dr. Richard L. Schilsky, diretor médico e vice-presidente executivo da ASCO, durante a coletiva.
O estudo dos dados provenientes do registro CCC19 foram em parte financiados pelo National Institutes of Health e da American Cancer Society. O Dr. Jeremy informou obter ações/propriedade do HemOnc.org, prestar consultoria para IBM e Westat e despesas de viagem da IBM. Os Drs. Howard, Richard e Andrew informaram não ter conflitos de interesses relevantes para o estudo.
FONTE: Warner J L et al. ASCO 2020, Abstract LBA110.
Essa notícia foi originalmente publicada em MDedge.com .
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Citar este artigo: Covid-19: Câncer em atividade aumenta risco de morte - Medscape - 3 de junho de 2020.
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