A terapia adjuvante com osimertinibe foi associada a uma redução de quase 80% do risco de recorrência da doença ou morte em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) estágio IB-IIIA com mutações no gene EGFR, mostraram os resultados do estudo ADAURA.
O estudo randomizado de fase 3 foi uma comparação entre o tratamento com osimertinibe e com placebo após a ressecção completa do CPNPC localizado ou localmente avançado com margens negativas. O estudo deixou de ser cego precocemente, e foi interrompido por recomendação do comitê independente de monitoramento de dados, devido à eficácia do osimertinibe.
"Se eu estivesse no comitê, teria feito a mesma coisa. Estes resultados são extraordinários", disse o Dr. Roy S. Herbst, pesquisador do estudo e chefe da oncologia clínica no Yale Cancer Center e no Smilow Cancer Center, na Yale University, nos Estados Unidos.
O Dr. Roy apresentou os resultados do estudo ADAURA como parte do programa científico virtual da American Society of Clinical Oncology (ASCO).
Em uma entrevista on-line antes do encontro, o Dr. Roy disse que os resultados impressionantes o lembraram de uma lição transmitida por seu mentor, o falecido Dr. Isaiah Fidler.
"Ele me ensinou, ensinou a todos nós, que a metástase é uma disseminação de tumor que mata pacientes", disse o Dr. Roy.
"Medicamentos como esse, com origem na biologia, administrados aos pacientes o mais cedo possível, previnem essas metástases e permitem que os pacientes vivam mais tempo e com mais qualidade de vida."
Os resultados do estudo ADAURA fornecem evidências convincentes do benefício do osimertinibe adjuvante para um grupo seleto de pacientes, de acordo com a Dra. Tina Cascone, Ph.D., médica e professora-assistente do Departamento de Oncologia Torácica e de Cabeça e Pescoço da University of Texas MD Anderson Cancer Center, nos EUA. Ela não participou do estudo.
"Estes são resultados sem precedentes para uma população submetida a cirurgia e com a possibilidade de ser curada", disse a Dra. Tina em uma entrevista.
"Isso definitivamente tem o potencial de mudar o paradigma dos tratamentos disponíveis para pacientes com tumor ressecado. É muito importante enfatizar o quanto aprendemos com o contexto de metástases e como estamos trazendo este aprendizado para a doença em estágio inicial."
Altas taxas de recorrência
Estima-se que 30% dos pacientes com CPNPC apresentam doença ressecável ao diagnóstico, mas as taxas de recorrência em cinco anos após a cirurgia e quimioterapia adjuvante à base de cisplatina permanecem altas, variando de 45% entre os pacientes com doença em estágio IB a 62% entre aqueles em estágio II e 76% entre os pacientes com doença em estágio III, observou o Dr. Roy.
O osimertinibe é um inibidor da tirosina quinase (TKI, sigla do inglês, Tyrosine Kinase Inhibitor) de terceira geração direcionado ao EGFR. Foi demonstrado que este medicamento oferece melhoras tanto na sobrevida livre de progressão (SLP) como na sobrevida global (SG) em comparação com as EGFR-TKI erlotinibe e o gefitinibe para em pacientes com CPNPC avançado com mutação do gene EGFR, assim como para pacientes com metástase no sistema nervoso central.
A eficácia e o perfil de segurança do osimertinibe na doença avançada sugerem que o medicamento também pode ser eficaz na doença em estágio inicial, uma hipótese que o estudo ADAURA foi projetado para testar.
Detalhes do estudo
O estudo de fase 3, randomizado e duplo-cego foi realizado em centros nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Austrália. No total, foram inscritos 682 pacientes com CPNPC completamente ressecado em estágio IB, II ou IIIA, com ou sem quimioterapia adjuvante planejada.
Após estratificação por estágio, mutação do EGFR e raça (asiática versus não asiática), os pacientes foram randomizados em uma relação de 1:1 para receber 80 mg de osimertinibe uma vez ao dia ou placebo. A duração planejada do tratamento foi de no máximo três anos.
Os membros do comitê independente de monitoramento de dados realizaram uma reunião em abril de 2020. Embora realizar uma análise de eficácia não fosse parte dos planos na ocasião, eles decidiram que os resultados eram claramente a favor do osimertinibe, e por isso, recomendaram o fim do cegamento e a interrupção do estudo.
No momento que o cegamento terminou, a inscrição já havia sido concluída, e todos os pacientes haviam sido acompanhados por pelo menos um ano.
Segurança e eficácia
Em relação a sobrevida livre de doença (SLD), que foi desfecho primário para os pacientes com doença em estágio II a IIIA, a SLD mediana não foi alcançada no grupo osimertinibe, mas foi de 20,4 meses no grupo placebo (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,17; P < 0,0001).
Os números foram semelhantes para o desfecho secundário da sobrevida livre de doença na população geral, incluindo pacientes com doença em estágio IB. A mediana da sobrevida livre de doença não foi alcançada no grupo osimertinibe, mas foi de 28,1 meses no grupo placebo (HR de 0,21; P < 0,0001).
A sobrevida livre de doença foi significativamente superior com osimertinibe em todos os subgrupos da população em geral, incluindo por sexo, idade, tabagismo, raça, estágio, mutação do EGFR e quimioterapia adjuvante (sim ou não).
O Dr. Roy disse que os pacientes toleraram bem o osimertinibe, e que o perfil de segurança dos medicamentos foi consistente com o que já era conhecido. Não houve eventos adversos que levassem à morte no braço osimertinibe, e a incidência de eventos adversos grau 3 ou 4 de qualquer tipo foi baixa.
No total, 10 pacientes (3%) no braço osimertinibe foram classificados como tendo doença pulmonar intersticial. O prolongamento do intervalo QT foi relatado em 22 pacientes (7%) do grupo osimertinibe e quatro pacientes (1%) do grupo placebo.
Os resultados mostram que "o osimertinibe adjuvante oferece um tratamento altamente eficaz e que mudará a conduta em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células positivo para mutação do gene EGFR nos estágios IB, II, IIIA após a ressecção completa do tumor", disse o Dr. Roy.
O Dr. Roy informou ter relações profissionais com AstraZeneca, que financiou o estudo, além de com a Jun Shi Pharmaceuticals e outras empresas. A Dra. Tina é a pesquisadora internacional principal do estudo NeoCOAST, que avalia o durvalumabe, um produto da AstraZeneca.
FONTE: Herbst RS et al. ASCO 2020, Abstract LBA5.
Esta notícia foi originalmente publicada em MDedge.com .
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Citar este artigo: CPNPC localizado: Osimertinibe adjuvante aumenta sobrevida livre de doença - Medscape - 3 de junho de 2020.
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