A terapia de manutenção com um inibidor de checkpoint imunológico é uma boa opção para pacientes com câncer de bexiga avançado que não progridem após a quimioterapia inicial?
Sim, e além disso, essa estratégia representa "um novo tratamento de primeira linha para o câncer urotelial avançado", disse Dr. Thomas Powles, médico, professor de oncologia geniturinária e diretor do Barts Cancer Centre, no Reino Unido.
O Dr. Thomas está discutindo o uso do avelumabe como "terapia de manutenção de primeira linha" no estudo JAVELIN Bladder 100.
Os resultados do estudo foram apresentados na sessão plenária da reunião anual de 2020 da American Society of Clinical Oncology (ASCO), que foi totalmente virtual em função da pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019). O diretor médico da ASCO, Dr. Richard Schilsky, Ph.D., destacou esse Abstract como um dos três da sessão plenária que serão responsáveis por "mudar a prática clínica".
O estudo contou com 700 pacientes que não progrediram após pelo menos quatro ciclos de quimioterapia de primeira linha à base de platina. A terapia de manutenção com avelumabe aumentou a sobrevida global em 7,1 meses quando comparada com o melhor tratamento de suporte isolado.
A mediana da sobrevida global foi de 21,4 meses para o avelumabe associado ao melhor tratamento de suporte versus 14,3 meses para o melhor tratamento de suporte isolado (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,69; P = 0,0005).
Um especialista que não participou do estudo ficou impressionado com o desfecho.
"Os dados são motivadores, e esperamos ansiosamente a revisão e – tomara – aprovação da Food and Drug Administration (FDA) norte-americana para uso neste contexto", disse o Dr. Padmanee Sharma, Ph.D., oncologista clínico especializado em tumores geniturinários do MD Anderson Cancer Center da University of Texas, nos Estados Unidos.
O avelumabe já foi aprovado para o tratamento do câncer urotelial avançado, mas como terapia de segunda linha, como vários outros inibidores de checkpoint imunológico.
"Em vez de esperar a recidiva do câncer"
O Dr. Thomas comentou que cerca de 65% a 75% dos pacientes com câncer urotelial avançado alcança o controle da doença com quimioterapia de primeira linha, mas que a sobrevida livre de progressão (SLP) e a sobrevida global (SG) são "curtas" por resistência à quimioterapia.
Muitos pacientes não recebem tratamento de segunda linha com imunoterapia, e apenas uma "minoria" alcança benefício clínico duradouro, ele acrescentou.
"Em vez de esperar a recidiva do câncer", o que ocorrerá "rapidamente", o Dr. Thomas sugeriu que a manutenção com imunoterapia se torne o tratamento padrão.
"Nossos achados devem dar esperança a muitos pacientes com câncer urotelial avançado que enfrentam uma doença muito desafiadora e difícil", afirmou o coautor Dr. Petros Grivas, Ph.D., diretor médico do Genitourinary Cancers Program da Seattle Cancer Care Alliance (SCCA), em uma declaração. Ele foi um dos primeiros pesquisadores do estudo JAVELIN Bladder 100.
"Pessoas com câncer urotelial avançado geralmente têm mau prognóstico, e a maioria apresenta progressão do câncer (crescimento) dentro de oito meses após o início da quimioterapia de primeira linha", disse ele.
"Estamos muito animados com esses resultados, que indicam que o uso do avelumabe como imunoterapia de primeira linha para manutenção pode oferecer uma nova opção terapêutica que ajuda os pacientes a viverem mais. Mesmo que esta provavelmente não seja a cura completa, e possa causar efeitos colaterais em alguns pacientes, o prolongamento significativo da sobrevida global é claramente uma melhora relevante, enquanto muitos pacientes tratados podem não ter efeitos colaterais significativos com essa abordagem", acrescentou.
O perfil de segurança foi "administrável" e consistente com outros estudos sobre o avelumabe, relatou Dr. Thomas.
Foi relatado algum grau de ocorrência de eventos adversos gerais em 98% nos grupos avelumabe associado ao melhor tratamento de suporte vs. 77,7% nos grupos melhor tratamento de suporte isolado e foi referida a ocorrência de eventos adversos grau ≥ 3 em 47,4% vs. 25,2%, respectivamente. Os eventos adversos grau ≥ 3 mais frequentes foram: infecção do trato urinário (4,4% vs. 2,6%), anemia (3,8% vs. 2,9%), hematúria (1,7% vs. 1,4%), fadiga (1,7% vs. 0,6%) e dor lombar (1,2% vs. 2,3%).
Os resultados do estudo JAVELIN com avelumabe mostram "o maior benefício de sobrevida" observado até o momento em pacientes com câncer urotelial avançado no contexto de manutenção. Mas já foi relatada a identificação de benefício de sobrevida com o uso da terapia de manutenção?
De acordo com uma revisão de 2019 publicada no periódico Future Oncology , não. Três ensaios clínicos prospectivos randomizados e controlados (com vinflunina, sunitinibe e lapatinibe, respectivamente) não demonstraram nenhum benefício oncológico significativo em relação ao placebo.
Porém, em um estudo de fase 2 randomizado e controlado que incluiu 107 pacientes, a manutenção com pembrolizumabe resultou em sobrevida livre de progressão mais longa em comparação com o placebo (5,4 vs. 3,2 meses, HR de 0,64; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,41 a 0,98).
Este estudo com pembrolizumabe mostrou uma "HR de sobrevida livre de progressão semelhante" à observada com o avelumabe no JAVELIN, comentou o Dr. Thomas, observando, no entanto, que o estudo com pembrolizumabe não foi desenhado para avaliar a sobrevida.
Resposta ainda melhor entre pacientes PD-L1 positivos
Os pacientes do JAVELIN tinham carcinoma urotelial irressecável localmente avançado ou metastático, e foram tratados com gemcitabina + cisplatina ou carboplatina.
Dentre esses pacientes, pouco mais da metade (51%) tinha tumor PD-L1 positivo (+).
A estratégia de terapia de manutenção foi ainda mais eficaz nesses pacientes. O avelumabe associado ao melhor tratamento de suporte prolongou significativamente a sobrevida global em comparação com melhor tratamento de suporte isolado em pacientes com tumores PD-L1 + (HR de 0,56; P = 0,0003). A sobrevida global mediana não foi alcançada vs. 17,1 meses, respectivamente.
Também foi observado benefício da sobrevida global em todos os subgrupos pré-especificados, incluindo entre os pacientes com metástase visceral.
Comentando o estudo, o Dr. Padmanee disse que gostaria de ver dados mais detalhados dos resultados sobre a quantidade de ciclos de quimioterapia administrada (o intervalo foi de quatro a seis), além de informações sobre o tempo entre o final da quimioterapia e o início do avelumabe. O Dr. Thomas comentou que sua equipe internacional não analisou o número de ciclos e resultados, nem o tempo da conclusão da quimioterapia e da randomização. "Ambas são questões válidas para o futuro", disse ele.
O estudo foi financiado pela Pfizer. O Dr. Thomas e vários coautores informaram relações financeiras com a Pfizer e outras empresas farmacêuticas. O Dr. Padmanee informou não ter relações financeiras relevantes.
Reunião anual de 2020 da American Society of Clinical Oncology (ASCO): Abstract LBA1. Apresentado em 31 de maio de 2020.
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Citar este artigo: Terapia de manutenção aumenta sobrevida global no câncer urotelial - Medscape - 2 de junho de 2020.
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