Estudo indica aumento de casos de suicídio em função da Covid-19

Dr. Sivan Mauer

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1 de junho de 2020

Neste artigo

Dr. Sivan Mauer

Nesta seção o psiquiatra Dr. Sivan Mauer seleciona e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Sivan é mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine, e doutor em psicogeriatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Sivan é professor assistente na Tufts University School of Medicine, nos Estados Unidos.

1. Covid-19, desemprego e suicídio 

A pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) introduziu medidas restritivas que ocasionaram efeitos na economia global, incluindo aumento da taxa de desemprego mundial.

Um estudo anterior buscou compreender a relação entre o desemprego e o suicídio. Os autores deste trabalho utilizaram dados provenientes de 63 países coletados entre 2000 e 2011, o que inclui o ano de 2008, quando houve uma crise econômica mundial. A pesquisa indicou um aumento do risco de suicídio de aproximadamente 20% a 30% neste período. O modelo utilizado para o cálculo do risco nesta ocasião foi agora adaptado para tentar prever o efeito do desemprego nos índices de suicídio durante a pandemia.

Cerca de 800.000 pessoas se suicidam todos os anos no mundo. Foi utilizado o modelo com sexo, idade e taxa de desemprego para descrever uma relação não linear entre desemprego e suicídio. As estimativas foram aplicadas aos dados do Banco Mundial. O número estimado de empregos perdidos em função da pandemia de Covid-19 foi fornecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência multilateral da Organização das Nações Unidas (ONU).

O cenário mais conservador estima 24,7 milhões de empregos perdidos e o mais otimista calcula 5,3 milhões de empregos perdidos, representando, portanto, um aumento de 4.936% a 5.644% de desempregados no pior cenário, o que poderia levar a um aumento de 9.570 suicídios por ano. No cenário mais otimista o aumento seria de 2.135 suicídios.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada pessoa que comete suicídio, existem outras 20 pessoas que realizam tentativas de suicídio. Então, o número de pessoas com sofrimento psíquico que irão procurar ajuda em serviços de saúde psiquiátrica durante a pandemia deve aumentar. Dados da crise econômica de 2008 revelam um aumento no número de suicídios precedendo o aumento da taxa de desemprego. É esperado um aumento da sobrecarga dos serviços de saúde psiquiátrica. A comunidade médica deve estar preparada para este desafio. É importante que hotlines e serviços psiquiátricos estejam prontos para esta fase da pandemia.

Para lembrar:
Os efeitos da pandemia, que todos esperam que passe o quanto antes, não terminaram com a simples extinção do vírus. É importante lembrar que esta é uma crise sanitária com efeitos na economia dos países. Como o texto nos alerta, existe a possibilidade de um aumento na taxa de suicídio nos próximos meses. Precisaremos lidar com os preconceitos que rondam o tema, mas definitivamente, o Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde devem preparar um plano para atender esses pacientes.

Referência:
Kawohl, W. & Nordt, C. Covid-19, unemployment, and suicide. The Lancet Psychiatry 7, 389–390 (2020).

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