Covid-19: aumento de casos acelera e doença avança para as cidades do interior do país

Mônica Tarantino

Notificação

29 de abril de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

O Brasil bateu nesta terça-feira (28) seu recorde de mortes pelo novo coronavírus em 24 horas, registrando 474 óbitos. De acordo com Ministério da Saúde, o país já registra 71.866 casos e 5.017 óbitos. Com isso, o país se torna o nono país com mais mortes no mundo. Com o agravante de que, por aqui, ainda não chegamos ao pico da pandemia, afirmam especialistas. Na segunda-feira, o Brasil contava 66.501 casos confirmados e 4.543 mortes.

O número de mortes registradas atualmente no Brasil ultrapassa as 4.643 mortes informadas pela China. Em rápida entrevista convocada para a noite de terça-feira, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, disse que algumas dessas mortes podem ser de três dias atrás tendo sido inseridas no sistema somente na terça, mas disse que a maioria é recente. O ministro da Saúde, Nelson Teich, admitiu que a epidemia se agrava, mas não falou em manter ou aumentar o isolamento social.

A velocidade com que o vírus avança no Brasil recrudesce. O total de mortes por Covid-19 no país duplica a cada cinco dias, em média, de acordo com a nota técnica publicada na noite desta terça-feira (28) pela iniciativa MonitoraCovid-19, sistema que agrupa e integra dados sobre a pandemia do novo coronavírus no Brasil. [1]

Epidemiologistas, geógrafos e estatísticos do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz) participam da iniciativa e elaboram análises sobre o avanço da doença.

O documento divulgado pelo MonitoraCovid-19 informa que, nos Estados Unidos, país com taxas altas de disseminação da epidemia, o intervalo para a duplicação ocorre em período similar ao Brasil. Ambos perdem para Itália, Espanha e Reino Unido, onde essa média de tempo é maior.

Durante a semana passada, foram feitas muitas comparações entre a evolução da epidemia no Brasil e o número de casos registrado em outros países. Entretanto, esse dado é inútil para a compreensão do avanço da doença no país, disse ao Medscape o médico e epidemiologista Dr. Eduardo Massad, Ph.D. Professor catedrático da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, ele é especialista em modelos matemáticos para estimar o ônus de doenças infectocontagiosas.

"Ao comparar o Brasil com a Espanha, o que se está fazendo é observar quantos casos havia em um determinado dia da epidemia em um lugar e no outro. Isso não funciona e não esclarece", afirmou o pesquisador.

"Se eu tivesse de apostar em qual padrão o Brasil poderá seguir, minha impressão é estamos muito mais parecidos com o padrão americano do que com o europeu".

O Dr. Eduardo acredita que o país poderá ter cerca de 300 mil casos de Covid-19 e uma grande quantidade de mortes, com taxas de letalidade muito acima dos outros países.

"As pessoas não estão obedecendo as medidas de distanciamento social. O país está, em média, com 50% de adesão a essas medidas. São Paulo, o epicentro da epidemia no Brasil, está um pouco acima de 40%."

Quanto ao efeito das restrições feitas até agora, o especialista avalia que não tiveram a extensão necessária para evitar o colapso dos sistemas hospitalar e funerário.

"O Brasil, como sempre, ficou no meio do caminho. As medidas achataram a curva, mas não o suficiente para evitar o colapso nos sistemas de saúde e funerário. Porém, achataram o suficiente para levar o pico da epidemia mais para a frente e estender a necessidade de quarentena". 

O dobro de mortes 

O número de óbitos por Covid-19 já pode ser 50% maior do que os valores notificados pelo  Ministério da Saúde (MS), segundo a nota técnica do MonitoraCovid-19. A diferença encontrada pelos pesquisadores é fruto da comparação entre as mortes confirmadas por Covid-19 informadas pelo MS e o número de declarações de óbitos de cartórios de Registro Civil com foco em duas causas de mortalidade que podem estar relacionadas à pandemia de Covid-19 (pneumonias e insuficiência respiratória).

Em 23 de abril o número de mortes pela conta do MS era de 3.313, enquanto o número de mortes do Registro Civil era de 4.407 (não consolidado). Os registros de óbito por Covid-19 chegam a demorar um mês para serem confirmados, como mostrou reportagem do jornal O Estado de São Paulo em 27 de abril. O Registro Civil inclui casos confirmados e suspeitos.

"As mortes ocorridas sem assistência médica, fora dos estabelecimentos de saúde, ou sem testagem para o vírus, podem estar contribuindo para o aumento do número de óbitos que vêm sendo registrados no Registro Civil como suspeitos de Covid-19", informa a nota técnica.

O epidemiologista Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Icict/Fiocruz, explica que os dados de óbitos são mais confiáveis do que o número de casos confirmados para medir o avanço da epidemia.

"No caso do óbito, mesmo o diagnóstico que não tenha sido feito durante a evolução clínica do paciente pode ser investigado. Além disso, a situação clínica do paciente que vem a óbito é mais evidente, quando comparada aos casos que podem ser assintomáticos e leves", disse o epidemiologista ao Medscape. Por isso, o MonitoraCovid-19 incluiu os casos de óbitos suspeitos.

O epidemiologista alerta que os óbitos do Registro Civil precisam ser investigados e seus contatos submetidos a testagem e possível isolamento.

"Estes óbitos devem ser considerados como suspeitos de Covid-19, cabendo às secretarias municipais e estaduais de saúde confirmar ou não essa informação, classificando corretamente a causa básica do óbito", disse o pesquisador.

Epidemia segue rumo às cidades menores

O levantamento do sistema MonitoraCovid-19 revela também que a pandemia se expande rapidamente para as cidades de menor porte do país. Desde 27 de março, todos os municípios com mais de 500 mil habitantes já tinham casos confirmados da doença e ciclos de transmissão. Em 24 de abril, 99,1% dos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes já tinham casos de Covid-19.

 

Houve aumento também entre os municípios com população entre 50 e 100 mil habitantes. Na semana de 12 a 16 de abril, 59,6% desses locais apresentavam casos. Agora, segundo a nota que acaba de ser publicada, são 79,4%. 

A penetração da doença também aumentou em cidades com 20 mil a 50 mil habitantes. Na semana de 12 a 16 de abril, a doença atingia 25,8% desses municípios. Agora, chega a 46,1% dessas cidades.

Entre as cidades com 10 mil e 20 mil habitantes, em uma semana a presença da doença aumentou de 11,1% para 21,9%. Centros urbanos com até 10 mil habitantes e com casos de Covid-19 passaram de 4,1% para 8,9%.

Fonte: MonitoraCovid-19 [1]

A chegada da Covid-19 às cidades de menor porte eleva a preocupação com o colapso do sistema de saúde, escrevem os especialistas na nota técnica. Diante do aumento da demanda e da falta de equipamentos como respiradores e leitos de terapia intensiva, os pacientes de Covid-19 precisarão ser enviados a hospitais em outras cidades.

"Por isso é urgente estabelecer redes regionalizadas para o atendimento dessas populações", alerta o epidemiologista Diego Xavier, da Fiocruz.

As posições assumidas pelo Ministério da Saúde preocupam. Em entrevista coletiva na segunda-feira (27), o governo deu ênfase à discussão de medidas para o relaxamento do isolamento em situações específicas. O Secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, remanescente da equipe do ex-ministro Henrique Mandetta, disse que 40% dos municípios menores ainda não têm registros de casos graves de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e nem casos graves de Covid-19.

"Mas isso não quer dizer que não tenham de adotar nenhuma medida. Podem atuar de maneira diferenciada dos municípios que têm muitos casos", sugeriu o secretário Wanderson Oliveira. O novo secretário-executivo do MS, o general Eduardo Pazuello, foi mais contundente e defendeu ações específicas por região: "Temos de concentrar esforços, empregar meios onde o problema é maior".

"Onde pode produzir e trabalhar, com as medidas preventivas e necessárias, assim tem que ser. Onde for preciso ainda algum grau de isolamento, distanciamento social, precisa ter também. Muito especificamente para cada lugar", disse número 2 do MS, em alinhamento com presidente Jair Bolsonaro, que exerce forte pressão sobre os governadores e prefeitos para relaxar a quarentena e "reabrir a economia".

Para o Dr. Eduardo Massad, no entanto, não é possível sequer pensar em relaxar as medidas de isolamento. "Isso será um desastre", advertiu o epidemiologista.

"As pessoas vão morrer porque não tem hospital, não tem leito de UTI, e não tem respirador. Isso já está acontecendo em Manaus e assim vai ser no resto do país. Já está tudo saturado e as pessoas vão morrer esperando uma vaga".

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