Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

23 de abril de 2020

A ansiedade de saúde pode ser descrita como medo ou preocupação de ter ou contrair doenças graves. Em um artigo publicado em abril no periódico Journal of Anxiety Disorders, [1] pesquisadores da University of Regina e da University of British Columbia, ambas no Canadá, lembram que essa característica é um dos vários fatores psicológicos que influenciam a maneira como uma pessoa responde a um surto viral, tal como o vivido atualmente com a pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019).

O Dr. Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), conversou com o Medscape sobre o tema.

Segundo o psiquiatra, a ansiedade de saúde não constitui uma doença psiquiátrica e não está descrita na Classificação Internacional de Doenças (CID-10)  Trata-se de uma característica da ansiedade: “A doença relacionada é o transtorno de ansiedade, que está dividido em vários tipos: ansiedade generalizada, fobia social, transtorno misto de ansiedade e depressão, entre outros. No contexto das doenças mentais, a ansiedade pode ser considerada um quadro patológico quando começa a atrapalhar o dia a dia do indivíduo, trazendo prejuízos”, destacou, lembrando ainda que existe diferença entre ansiedade como sintoma e ansiedade como transtorno.

Enquanto sintoma, disse o médico, a ansiedade é uma característica de adaptação do ser humano, deixando o indivíduo preparado para enfrentar as situações do cotidiano. Por outro lado, enquanto transtorno, traz diversas manifestações sintomáticas, gerando prejuízo ao indivíduo.

“É essa a medida, a do prejuízo, que consideramos ao propor um plano terapêutico e o início do tratamento”, disse o Dr. Antônio.

Segundo o médico, as pessoas com ansiedade patológica tendem ao pensamento catastrófico, imaginando sempre o pior cenário, e essa característica pode ser exacerbada durante períodos mais tensos como o que estamos vivendo.

“Não podemos dizer, no entanto, que a preocupação do ansioso neste momento é infundada. Esta é, inclusive, uma das características que podemos ter agravadas durante o período da pandemia”, destacou.

Segundo o presidente da ABP, neste momento de crise sanitária, três cenários podem ser vislumbrados: (1) pessoas que nunca apresentaram nenhum tipo de doença psiquiátrica podem ter na tensão atual o gatilho necessário para a desenvolvimento de transtornos mentais como depressão e ansiedade; (2) pessoas que já estavam estabilizadas em seus quadros, com o tratamento adequado ou até mesmo com a alta do psiquiatra, podem ter recaídas e voltar a apresentar sintomas; e (3) pessoas em tratamento, ainda buscando a estabilização e remissão da doença, podem ter os sintomas agravados e, com isso, apresentar piora no quadro geral.

No artigo canadense, os autores explicam que, no contexto de pandemia, altos níveis de ansiedade podem levar a dois tipos opostos de comportamento: a esquiva de serviços de saúde por considerar esses locais como fonte de contágio ou a procura exagerada por atendimento médico.

Além disso, alertaram os especialistas canadenses, recomendações relacionadas com o controle do surto viral podem ser levadas ao extremo por pessoas com altos níveis de ansiedade de saúde, causando impactos negativos para o próprio indivíduo e para a comunidade. É o caso, por exemplo, da estocagem excessiva de produtos de higiene e alimentícios durante a quarentena.

Segundo o presidente da ABP, para o paciente com transtorno de ansiedade, o pensamento muitas vezes é disfuncional: “Esse paciente acredita que precisa se precaver de todas as formas possíveis de uma possível piora do cenário atual, exagerando a preocupação; por exemplo, por medo de ficar sem mantimentos e produtos de higiene, ele corre para o supermercado ou para a farmácia e compra tudo o que julga precisar, mesmo que as autoridades assegurem que o abastecimento está regular. Este tipo de comportamento está associado a altos níveis de ansiedade, não apenas para aqueles que apresentam transtornos ansiosos, mas para a ansiedade natural da adaptação humana, aflorada pelo momento”, afirmou.

A condição oposta, isto é, baixos níveis de ansiedade de saúde, também pode ter consequências indesejáveis. De acordo com o artigo publicado no periódico Journal of Anxiety Disorders, pessoas que consideram ter baixo risco de contrair a doença podem ter, por exemplo, baixa adesão às medidas de isolamento social e de higiene necessárias para mitigar a disseminação viral.

O psiquiatra lembrou que o momento é de atenção, de alerta. “Não precisamos de alarmismo, mas temos de estar atentos ao nosso comportamento para conseguir conter o avanço da Covid-19 no Brasil, alterando assim a curva de contágio, o principal objetivo deste período de abrigo, de distanciamento social. Deste modo, acredito que a ansiedade pode atuar como uma emoção que nos deixa no estado de alerta necessário para o cuidado com a higiene. Entretanto, em níveis mais altos, pode ser extremamente prejudicial”, destacou.

Segundo o médico, profissionais de saúde, autoridades e governantes que estão à frente das medidas de enfrentamento da crise, devido a maior inserção no contexto da pandemia, apresentam mais risco de adoecimento mental.

“É fundamental cuidar do capital mental neste momento, ou seja, o conjunto de cognição, emoções e repertório comportamental, aquilo que usamos para lidar com as demandas do dia a dia. Então, é importante administrar bem e separar as demandas de trabalho das demandas pessoais. Durante o horário de trabalho, concentre-se nas atividades laborais. Ao chegar em casa, procure se desligar das preocupações de trabalho e preservar a saúde mental”, orientou.

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