Perto do auge da epidemia de Covid-19, governo troca comando do ministério da Saúde

Equipe Medscape

16 de abril de 2020

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O ministro da Saúde, Dr. Luiz Henrique Mandetta, foi demitido na tarde desta quinta-feira (16), depois de um longo processo de desgaste iniciado com a crise do coronavírus. O anúncio foi feito em uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Médico ortopedista e ex-presidente de empresa de plano de saúde, Luiz Henrique Mandetta entrou em confronto direto com o presidente por defender o isolamento social como medida essencial no combate à pandemia de Covid-19. Ele será substituído pelo oncologista carioca Dr. Nelson Teich.

Em uma mensagem publicada no Twitter assim que deixou o Palácio do Planalto, após a reunião com o presidente, Mandetta anunciou a demissão: “Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde. Quero agradecer a oportunidade que me foi dada de ser gerente do nosso SUS, de pôr de pé o projeto de melhora da saúde dos brasileiros e de planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar”. O ex-ministro desejou êxito ao seu sucessor e disse que continuará lutando pelo SUS e pela saúde pública mundial.

https://twitter.com/lhmandetta/status/1250865863755997189

Luiz Henrique Mandetta sai do governo com apoio popular em alta. Pesquisas feitas pelo Datafolha apontaram que a aprovação do agora ex-ministro e do Ministério da Saúde alcançou 76%, superando em muito a de Bolsonaro. Isso teria levado o presidente a se irritar ainda mais com Mandetta e a cogitar o nome do secretário, João Gabbardo dos Reis para liderar a pasta. A saída de Mandetta também ocorre no momento em que epidemia se aproxima do seu pico, com hospitais alcançando a capacidade máxima de atendimento aos doentes com Covid-19. Na quarta-feira (15), São Paulo tinha 80% dos leitos ocupados, segundo reportagem da Globonews. As estruturas do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo alcançavam 77% de ocupação. O Estado do Amazonas, com o sistema de saúde na iminência de um colapso, recebeu uma força-tarefa para ajudar no enfrentamento.

A última gota teria sido a entrevista concedida pelo ministro ao programa Fantástico, da Rede Globo, no domingo à noite. O local da entrevista, concedida na sede do governo de Goiás, ocupada pelo ex-aliado de Bolsonaro Ronaldo Caiado, e o tom da entrevista, teriam sido interpretados por secretários estaduais de Saúde e por militares que ocupam cargos no governo como uma provocação. Na entrevista, Mandetta disse que a população não sabia se deveria acreditar no ministro ou no presidente. Outros temas foram motivo de divergência. Bolsonaro vem encorajando o uso de cloroquina e hidroxicloroquina – usados para tratamento da malária, lúpus e artrite reumatoide – para combater o coronavírus, inclusive de forma preventiva. Mandetta e equipe vinham insistindo na necessidade de esperar os resultados de estudos em andamento para demonstrar a eficácia dessas substâncias.

Bolsonaro é contrário à medida e defende que a flexibilização do isolamento, com a abertura de escolas e do comércio, e a volta dos mais jovens ao trabalho. O presidente é favorável ao que chama de isolamento vertical, em que apenas os idosos ficariam em casa.

Na semana anterior à demissão, Mandetta revelou em entrevista coletiva que seus auxiliares haviam limpado suas gavetas durante dias de maior tensão. Disse ainda que “Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma com a equipe que virá. Mas entramos juntos e vamos sair juntos, afirmou o ministro”.

Em coletiva após a demissão, Mandetta disse aos funcionários do Ministério: “Não tenham medo. Não façam um milímetro fora do que estão acostumados a fazer. Trabalhem para o próximo ministro tal qual trabalharam para mim”. O ex-ministro disse ainda que tem “a mais absoluta certeza que lutamos um bom combate até aqui, mas estamos só no começo da batalha.”

Em pronunciamento para anunciar a demissão de Mandetta – iniciado enquanto ainda acontecia a coletiva do ex-ministro – o presidente Jair Bolsonaro classificou a demissão como um “divórcio consensual” e apresentou o novo ministro, o oncologista carioca Dr. Nelson Luiz Sperle Teich. Disse ainda que acertou com Mandetta um período de transição entre as equipes que começa hoje, mas não disse quanto tempo irá durar o processo de troca de comando.

Teich é formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especializou-se no Instituto Nacional de Câncer (Inca). Ao lado de Bolsonaro, disse que assume para “ajudar o país e as pessoas.” Em artigos publicados na rede profissional LinkedIn, ele defendeu o isolamento social horizontal e a testagem em massa. Também afirma que é necessário conhecer a doença e obter dados para caminhar na direção da flexibilização das medidas de isolamento.

“Existe um alinhamento completo entre mim, o presidente e todo o grupo do ministério. E o que estamos fazendo aqui é trabalhar para que a sociedade volte à normalidade”.

O novo ministro frisou que saúde e economia não competem entre si, e que são complementares: “Hoje discutimos determinantes sociais da saúde. Um deles é cuidar da saúde, mas tem estabilidade da economia e educação, entre outros”.

Teich garantiu ainda que tudo será tratado de forma absolutamente técnica e científica, e defendeu a testagem em massa. No entanto, não deixou claro como isso será feito.

O novo titular da Saúde é doutor em Economia da Saúde pela University of York, do Reino Unido. Foi consultor do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, nessa área. Sem experiência no setor público, o oncologista é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos. Foi consultor informal na campanha eleitoral do presidente, em 2018, e chegou a ser cotado para o ministério. Fundou o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI), vendido em 2015 à UHG/Amil. Foi diretor-executivo da MedInsight - Decisions in Health Care e faz parte do corpo editorial do periódico American Journal of Medical Quality.

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