Covid-19: anestesiologistas se preparam para reutilizar materiais de proteção

Roxana Tabakman

Notificação

15 de abril de 2020

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Os anestesiologistas brasileiros estão preocupados. Responsáveis em muitos casos pelo manejo de via aérea em cirurgias e nos cuidados intensivos, as chances de contato destes profissionais com o SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) é alta. Assim, medidas de autoproteção são fundamentais.

Em 23 de março, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) publicou uma carta aberta ao médico e atual ministro da Saúde, Dr. Luiz Henrique Mandetta, informando sobre a falta de equipamentos de proteção individual (EPI) em hospitais de todo o país. Mas a carta não era apenas informativa. Em caráter de urgência, a SBA solicita a distribuição óculos de proteção, aventais, luvas, máscaras cirúrgicas e máscara (PFF2) – (N95). E o texto vai além:

"Destacamos que, de acordo com o nosso entendimento, e pautados em Resoluções que vêm sendo promulgadas pelos Conselhos Regionais de Medicina (...) é lícito que os médicos Anestesiologistas recusem a realização de procedimentos que impliquem alto risco, conforme preconizado no Código de Ética Médica (...) caso não tenham, à sua disposição, os referidos EPIs."

Ao redigir a carta, a SBA já tinha na mesa o amparo legal sobre a inimputabilidade ética por negativa de atendimento – mas esta medida extrema é a última instância.

Dois dias antes da divulgação da carta a SBA havia divulgado entre os seus membros o e-book: O CORONAVÍRUS E O ANESTESIOLOGISTA: Medidas excepcionais diante a possível escassez de EPI's: estratégias alternativas em situação de crise. Nele se lê que, enquanto a situação de escassez persistir, a melhor forma de prevenir a transmissão é usar uma combinação de todas as medidas preventivas. "A aplicação de uma combinação de medidas de controle pode proporcionar um grau adicional de proteção, inclusive se uma medida falha ou não está disponível", diz o texto.

Quando os equipamentos de proteção individual são tão limitados que já não é possível aplicar, de forma rotineira, as recomendações existentes, saber quais regras podem ser quebradas vale ouro. Por exemplo, as que fazem referência a utilização de máscaras fora do prazo de validade. O e-book alerta que, com o tempo, componentes como o elástico e o material do dorso do nariz podem se degradar, afetando a qualidade do ajuste, e recomenda que a máscara seja visualmente inspecionada antes do uso, "para verificar que seus componentes não tenham se degradado".

As orientações determinam, também, em que casos seria possível, por exemplo, usar a mesma máscara sem tirar do rosto no atendimento de vários pacientes diferentes: "O uso prolongado é muito adequado em situações em que vários pacientes têm o mesmo diagnóstico de doença infecciosa e estão agrupados (por exemplo, estão internados na mesma unidade hospitalar)."

A proteção do antestesiologista seguiu sendo discutida dias mais tarde (em 08 de abril) no evento virtual "Proteção do anestesista e Covid-19", que está disponível na íntegra no site da SBA. A primeira palestrante a tocar no assunto durante a videoconferência foi a Dra. Mary Dale Peterson, médica e presidente da American Society of Anesthesiologists (ASA), uma das 15 associações científicas convocadas pela Casa Branca para fazer frente à pandemia.

"Com a falta de equipamentos de proteção individual, o que recomendamos é a reutilização prolongada, por um período de cinco dias. Há um procedimento definido para colocar e retirar o equipamento, depositando os itens em um saco de papel e lavando as mãos em seguida. Sabemos que podemos esterilizar as nossas máscaras N95, muitos de nós os estamos reprocessando e alguns hospitais têm guias para a esterilização."

De Curitiba, o médico especialista em clínica médica e infectologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Dr. Jaime Rocha, fez uma demonstração prática com a máscara N95 e um saco de papel durante a sua apresentação no evento on-line, e acrescentou: "No final dos cinco dias de uso contínuo, há duas opções: a N95 vai para o lixo ou, se tiver condições de reprocessar, o saco vai para o lixo e o resto para o autoclave ou outros métodos."

Quando os equipamentos de proteção respiratória (EPR) são tão limitados que já não é possível que nenhum profissional de saúde os utilize de maneira rotineira durante o atendimento de pacientes com Covid-19. Sendo assim afirma a entidade, deve-se priorizar por tipo de atividade. A participação em procedimentos com utilização de aerossol, realizados em pacientes sintomáticos, é uma das exposições de maior risco. Na falta de equipamentos de proteção individual, a equipe de intubação deve ser priorizada.

Outras indicações concretas divulgadas pela SBA referem-se à falta de locais apropriados. "Se não houver pressão negativa, desligar o ar-condicionado para não gerar pressão positiva. Aguardar 20 minutos para a higienização do ambiente ou para a circulação de pessoas sem máscara adequada para aerossol."

Como forma de reduzir a exposição e enfrentar a escassez de recursos humanos, recomenda-se que nos locais de atendimento de referência para a pandemia sejam formadas equipes específicas para intubação traqueal (Time IOT). O Time IOT deve ser liderado pelos profissionais mais qualificados nos procedimentos de acesso à via aérea. Como medida para racionalizar o treinamento, os equipamentos de proteção individual e os equipamentos disponíveis (especialmente o videolaringoscópio) se espera que as equipes trabalhem em turnos estendidos.

Sobre o treinamento para intubação traqueal, o e-book da SBA é claro em um alerta: "Importante observar que esse não é um ambiente de aprendizado. Médicos em especialização, estudantes ou estagiários de qualquer natureza não devem estar presentes."

Autocontaminação e estresse

Disponível no site da SBA, a 3ª edição de "O coronavírus e o anestesiologista" inclui entre as recomendações gerais a criação e/ou divulgação de vídeos abordando paramentação e desparamentação segura, com foco na preservação dos equipamentos de proteção individual para reutilização e na prevenção de autocontaminação.

Como assinalou o Dr. Luiz Fernando Falcão durante o webinar, "a hora de desparamentar é a mais perigosa. É quando acontecem mais contaminações. O profissional está cansado, estressado e não retira os equipamentos de proteção individual com segurança", afirmou.

A anestesiologista e intensivista Dra. Roseny dos Reis Rodrigues descreveu a situação: "O pessoal está estressado, todo mundo nervoso, a enfermagem, o paciente, os familiares. A desparamentação é um processo demorado, e é quando bate aquela grande exaustão."

O estresse impacta os profissionais que compõem o Time IOT, que precisam estar exclusivamente disponíveis para essa função e sendo testados para a Covid-19 rotineiramente.

O médico anestesista Dr. Sérvio Broca, que trabalha em São Paulo no A.C. Camargo Cancer Center, Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (GRAACC) e Hospital Infantil Darcy Vargas, não está na linha de frente da pandemia, mas já precisou intubar um paciente com Covid-19 em um hospital pediátrico: "Fizemos o procedimento e descobrimos que o paciente estava infectado depois". O Dr. Sérvio ainda não sofreu com a falta de equipamentos de proteção individual, "não está faltando, mas não podemos desperdiçar", disse ele ao Medscape. Ele definiu a situação como uma corrida: "Estamos correndo atrás, criando protocolos conforme as coisas vão acontecendo."

Atualmente, o Dr. Sérvio trata todos os pacientes como se fossem Covid-19. "Ainda não estamos cheios de pacientes diagnosticados com Covid-19, mas é uma questão de tempo."

A situação dinâmica gera uma necessidade importante de conhecimento e contenção. A SBA criou a Comissão Temporária de Enfrentamento da Covid-19, que disponibiliza um endereço de e-mail para contato e um chat para perguntas e respostas que funciona 12 horas por dia, disponível no site da sociedade.

"Já intubei três colegas com Covid-19 e tenho uma série de colegas afastados", relatou a Dra. Roseny. Estou com muito medo de me contaminar, mas vou trabalhar mais feliz, porque alguém precisa de mim."

A fala do Dr. Jaime vai no mesmo sentido. Ele contou à reportagem que sentiu muita ansiedade nas primeiras vezes, "mas agora estou me sentindo mais feliz, mais vivo, mais útil. Tudo isso muda nossas perspectivas, o mundo não vai ser igual ao que era".

A Dra. Mary é mãe de um médico que trabalha em uma unidade de terapia intensiva (UTI) destinada ao tratamento da Covid-19 e o marido dela, que também é médico, está em isolamento por ter sido exposto ao vírus.

"Compreendemos o risco do que fazemos cada dia, fazemos o nosso melhor, usamos equipamento, lavamos nossas mãos, fazemos todo o possível, tanto para não nos infectarmos como para não contaminar os pacientes, mas, no final do dia fazemos o nosso trabalho, porque estamos lá para ajudar a população."

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