Projetos colaborativos tentam responder aos dilemas da pandemia

Mônica Tarantino

Notificação

6 de abril de 2020

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Profissionais da saúde se organizam em redes para otimizar recursos e expandir a solidariedade no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Outros oferecem seus serviços e até instalações, como têm feito hotéis e escolas (estes a preços para garantir a manutenção), para dar suporte e melhorar o bem-estar emocional de quem está na linha de frente. É um outro lado da crise, que desperta a necessidade de compartilhar expertises para enfrentar a ameaça viral.

A plataforma Respira Soluções estreou no final de março com a missão de conectar pessoas que têm peças ou ventiladores respiratórios quebrados para vender ou doar e hospitais da rede pública que estejam procurando por tais peças. 

A iniciativa convida pessoas e instituições que tenham equipamentos ou peças em desuso a se cadastrarem para doar ou vender a hospitais públicos. Ela tenta otimizar recursos em um momento de alta demanda por ventiladores mecânicos para tratamento dos sintomas respiratórios dos pacientes internados com a pneumonia da Covid-19.

Caros e com taxas de manutenção salgadas, respiradores quebrados costumam não voltar à ativa depois de serem consertados várias vezes por equipes e engenheiros locais. Acabam ficando armazenados em depósitos de sucata nos hospitais.

"Todo hospital tem um cemiteriozinho de aparelhos médicos, em geral usado para reposição de peças", descreve o Dr. Bruno Valdigem, um dos idealizadores do projeto.

"Estamos investindo nosso tempo para otimizar tudo isso que está parado e pode ser usado para consertar algum equipamento. Não tem custo, qualquer pessoa ou instituição pública pode doar, comprar, receber. Os detalhes são acertados diretamente entre os interessados", diz o Dr. Bruno, que é cardiologista e eletrofisiologista clínico e invasivo, e também advisor de cardiologia do Medscape em português. 

"Na manhã do primeiro dia em que a plataforma entrou no ar, seis pessoas se cadastraram oferecendo ventiladores e quatro instituições procuravam por esses equipamentos no site", comemora o médico.

Inicialmente focado em peças para respiradores, em poucos dias o site expandiu seu alcance.

"Agora captamos qualquer aparelho hospitalar que possa ser usado em pacientes de UTI, como monitores, aspiradores, ventiladores, oxímetros", diz o Dr. Bruno. No final de março, foram feitas três entregas de monitores multifuncionais de UTI para ajudar a monitorizar pacientes internados que estão entubados.  

"Boa parte dos ventiladores comprados nas últimas décadas estão quebrados ou em desuso por falta de peças de reposição ou consertos caros. Talvez a plataforma consiga viabilizar acesso mais fácil e permita a abertura de um ou mais leitos", diz o especialista. 

A opção em limitar o serviço para compradores da rede pública foi adotada para manter as negociações em bases não inflacionárias.

Respirador portátil em 3D

Diminuir o drama mundial da escassez de ventiladores mecânicos é a meta de um grupo multiprofissional reunido em torno das startups Anestech Innovation Rising e Hefesto Medtche, ligadas à incubadora Eretz.bio. A primeira se dedica à inteligência em dados perioperatórios. A segunda tem foco em próteses e órteses em 3D.

A rede une mais de 40 profissionais trabalhando em ritmo acelerado no projeto Breath4Life , cujo objetivo é desenvolver um respirador portátil que funciona sem necessidade de energia elétrica.

"A inspiração desse projeto vem de um respirador desenvolvido pelo anestesista brasileiro Dr. Kentaro Takaoka que foi muito usado desde a década de 1950 até os anos 90", conta o Dr. Diógenes de Oliveira Silva, também anestesista, que sugeriu a releitura do equipamento, e é um dos lideres do projeto.  

A meta é desenvolver um modelo para ser impresso em 3D e compartilhado para que indústrias de vários setores possam imprimir e distribuir o equipamento.

O respirador portátil, que está sendo chamado de Breath4Life, não se destina a pacientes em estado grave nas UTIs.

"Ele é para entrada ou transporte. Por sua simplicidade e eficiência, pode ser usado em ambulâncias, unidades de pronto-atendimento ou para dar suporte a pacientes que precisam esperar por um respirador mais robusto", explica o Dr. Diógenes. Ou seja, não é indicado para pacientes com síndrome respiratória aguda grave, mas para aqueles que estão internados e que não estão conseguindo respirar sem algum suporte ventilatório.

Os especialistas acreditam que a produção do equipamento em larga escala poderá suprir cerca de 30% da demanda por respiradores. O momento é de grande expectativa entre os integrantes dessa força-tarefa.

"Estamos em fase de testes em laboratório com protótipos e pré-clínicos durante essa semana. Logo iniciaremos a coleta de dados clínicos em 40 pacientes distribuídos por diversos hospitais. Serão avaliados parâmetros como eficiência, fluxo, pressão. A expectativa é de que a certificação para produção em larga escala seja concedida em cerca de uma semana." 

Os dados serão avaliados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para obter certificação.

"É preciso atestar que funciona muito bem antes de compartilhar e iniciar uma produção em escala", observa o Dr. Diógenes, que é fundador da Anestech.

Os pesquisadores também estão preocupados em deixar claro que não estão arrecadando doações individuais.

"Pessoas mal-intencionadas quiseram recolher doações em nosso nome. Mas o grupo não está buscando doações", esclarece.

"Em um futuro próximo, quando o projeto estiver liberado, a indústria poderá usar seus recursos 3D para imprimir o equipamento e doar. Ele será usado em boa parte do mundo e vai impactar globalmente nesse momento de pandemia."

O projeto terá licença de código aberto (open source) e será compartilhado com desenhos, manual de montagem e de instruções, e memorial descritivo. 

Suporte emocional e apoio para cuidar dos filhos

Muitos especialistas em saúde mental têm oferecido gratuitamente seus serviços para ajudar no combate à ameaça global. Há cerca de 15 dias, o psiquiatra Dr. Paulo André Fernandes Issa, do Rio de Janeiro, informou em redes sociais a sua disponibilidade para dar suporte por vídeo-chamada a colegas que estão na linha de frente e enfrentam questões psicológicas relacionadas ao trabalho intenso e exaustivo que vêm executando.

"Os profissionais da saúde estão como soldados na guerra, e não tiveram preparo para isso", observa o especialista.

Surpreendentemente, até os últimos dias de março o Dr. Paulo André não havia recebido nenhum retorno.

"Parece-me que até agora os profissionais da saúde estão vivendo tão intensamente os acontecimentos que não tiveram tempo de se cuidar", disse o psiquiatra ao Medscape.

O psiquiatra alerta para a necessidade de se cuidar. Ele repete um sábio conselho para quem está no olho do furacão: "Faça como dizem no avião. Coloque primeiro coloque a máscara em você, para depois colocar nos outros. Ao menor sinal de sintomas emocionais, não demore a buscar ajuda."

O apoio aos profissionais da saúde também vem das escolas. Desde o final de março, o Colégio Miguel de Cervantes, conceituada escola privada na zona sul da cidade de São Paulo, emprestou suas instalações para acolher os filhos de profissionais da saúde que atuam no Hospital Israelita Albert Einstein, também na zona sul.

"O projeto atende crianças de três a 13 anos para apoiar pais que trabalham aqui e não têm onde ou com quem deixá-los durante o trabalho", diz Felipe Spinelli, diretor-Superintendente de Ensino da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

O projeto já acolheu 80 crianças na primeira semana, em dois turnos com 40 indivíduos. A expectativa é que receba cerca de 300 crianças e adolescentes.

"Criamos com o colégio uma rotina que começa às sete da manhã e vai até as sete da noite. A maioria fica cerca de seis horas. Às 13 horas, quando um grupo chega e outro sai, servimos um almoço para as turmas."

A programação diária inclui muitas atividades a céu aberto praticadas em grupos de seis a oito pessoas. Nas amplas salas de aula, fica cada um no seu canto.

"Estamos cuidando para que ali também seja um ambiente seguro", diz Felipe Spinelli, que pesquisa ativamente opções para reduzir o estresse dos profissionais da saúde.

"O que se vê lá fora é que é fundamental dar suporte para evitar o burnout desse profissional no meio da crise."

A instituição também fechou acordos com redes hoteleiras para oferecer 320 quartos aos profissionais que trabalham no enfrentamento da Covid-19 e não querem expor familiares a risco de contaminação com o SARS-CoV-2, moram com pessoas idosas, ou querem evitar maiores deslocamentos para aproveitar o período de descanso entre um plantão e outro.

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