Benefícios do óleo de peixe voltam à tona; mas são plausíveis?

Damian McNamara

Notificação

3 de abril de 2020

O consumo regular de óleo de peixe está associado a menor risco de morte por todas as causas, por doença cardiovascular (DCV) e eventos cardiovasculares, como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto agudo do miocárdio (IAM), sugerem os resultados de um grande estudo observacional. No entanto, pelo menos um especialista está "cético de que esses resultados sejam reais".

Pesquisadores descobriram que a suplementação habitual com óleo de peixe foi associada a um risco 13% menor de morte por todas as causas, 16% menor de morte por doença cardiovascular e 7% menor de eventos cardiovasculares na população geral.

"Apesar do fato de que tomar suplementos de óleo de peixe pode causar alguns efeitos colaterais menores, como mau hálito, pirose, náuseas e desconforto gastrointestinal, diante do preço e da conveniência", tomar diariamente um suplemento de óleo de peixe vendido sem receita "é uma forma barata, rápida e segura para os pacientes que querem se certificar de estar ingerindo uma quantidade suficiente de ômega 3", disse ao Medscape o pesquisador sênior, Prof. Chen Mao, do Departamento de Epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Faculdade de Medicina do Sudeste de Cantão, na China.

O estudo foi publicado on-line em 04 de março no periódico BMJ.

Estudo do mundo real

Como publicado anteriormente pelo Medscape, o recente estudo Vitamin D and Omega-3 Trial (VITAL) – ensaio clínico sobre vitamina D e ômega 3 – relacionou a suplementação de ácidos graxos ômega 3 com um risco significativamente menor de IAM, mas não encontrou nenhuma associação entre o consumo de óleo de peixe e a diminuição do risco de eventos cardiovasculares.

Outras pesquisas prévias, inclusive uma metanálise de 13 ensaios clínicos randomizados e controlados, corroboraram a relação entre a ingestão de ácidos graxos ômega 3, como o óleo de peixe, e a prevenção da doença cardiovascular.

No entanto, os pesquisadores observaram que estes estudos foram realizados em "circunstâncias controladas e ideais".

Para examinar os possíveis efeitos da suplementação de óleo de peixe na vida real, o Prof. Chen e sua equipe fizeram um estudo de coorte populacional prospectivo com 427.678 adultos recrutados no estudo UK Biobank entre 2006 e 2010.

Os pesquisadores compararam os resultados entre os 31% dos participantes do estudo que informaram fazer ingestão regular de suplementos de óleo de peixe aos resultados dos participantes que informaram não usar suplementos de óleo de peixe. Os pesquisadores usaram as certidões de óbito e os prontuários do hospital para rastrear resultados até 2018.

No total, 12.928 pessoas morreram por qualquer causa durante o período do estudo. Dentre estas mortes, 3.282 foram por doença cardiovascular, 1.423 por IAM e 664 por AVC.

Houve 18.297 novos eventos cardiovasculares, dentre os quais 7.754 foram IAM e 4.009 foram AVC.

A ingestão de óleo de peixe foi significativamente associada a menor risco de morte por todas as causas (P < 0,05) após ajuste por idade e sexo. Seu consumo regular também foi associado a menor incidência de eventos cardiovasculares e mortes relacionadas, IAM e AVC (P< 0,05).

As razões de risco ajustadas (aHR, sigla do inglês, Adjusted Hazard Ratios) relacionadas com o consumo de óleo de peixe foram de 0,87 para morte por todas as causas (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,83 a 0,90), 0,84 para morte cardiovascular (IC 95%, de 0,78 a 0,91) e 0,80 para morte por IAM (IC 95%, de 0,70 a 0,91) em uma análise multivariável.

As aHR por eventos adversos foram de 0,93 para doença cardiovascular (IC 95% de 0,90 a 0,96), 0,92 para IAM (IC 95%, de 0,88 a 0,96) e 0,90 para AVC (IC 95%, de 0,84 a 0,97).

Em contraste, os pesquisadores não encontraram associação significativa entre o consumo de óleo de peixe e morte por AVC (HR = 0,87; IC 95%, de 0,73 a 1,04; P = 0,14).

Diferenças entre os sexos

É interessante notar que a associação entre o consumo de óleo de peixe e a menor mortalidade por todas as causas foi mais forte entre os homens do que entre as mulheres (HR = 0,81 vs. 0,95) e entre os fumantes do que entre os não fumantes (HR = 0,77 vs. 0,90).

"À primeira vista, os nossos resultados parecem entrar em conflito com os resultados do estudo VITAL, que não demonstrou que o óleo de peixe reduz eventos cardiovasculares maiores ou novos diagnósticos de câncer entre homens e mulheres sem diagnóstico de câncer e de doença cardiovascular ao início do estudo", disse Prof. Chen.

No entanto, as estimativas de ponto da redução de eventos cardiovasculares foram semelhantes no estudo VITAL (HR = 0,92) e no estudo em tela (HR = 0,93). Além disso, o intervalo de confiança (de 0,90 a 0,96) no estudo do Prof. Chen sugere que os ácidos graxos ômega 3 "têm associação com os eventos cardiovasculares", acrescentou

Além disso, uma metanálise de 2019 demonstrou que o uso de suplementos foi relacionado com menos risco de IAM, doença coronariana total, morte por doença coronariana ou doença cardiovascular e doença cardiovascular total, disse o Prof. Chen.

Os achados se mantiveram quando os pesquisadores excluíram o REDUCE-IT – um ensaio clínico que mostrou benefícios importantes de uma apresentação de ácidos graxos ômega 3 vendida com prescrição médica para pacientes com hipertrigliceridemia, acrescentou ele.

"Portanto, nossos achados são razoáveis, indicando que o consumo habitual de óleo de peixe está associado a um benefício marginal para eventos de doença cardiovascular na população geral", disse o Prof. Chen.

As possíveis limitações do estudo foram a falta de informações sobre a dose, a apresentação e a duração do consumo do óleo de peixe. Além disso, como o estudo foi observacional, "é difícil separar os efeitos de um estilo de vida saudável do consumo habitual de suplementos de óleo de peixe", indicaram os pesquisadores.

"Pode ser necessário fazer estudos mais definitivos futuramente, a fim de esclarecer nossos achados, e tanto os estudos randomizados como os estudos observacionais têm o seu papel", disse Prof. Chen.

"Podemos fazer estudos para explorar qual é a dose necessária para conseguir um efeito clinicamente significativo", acrescentou o pesquisador.

Prof. Chen e colaboradores também podem avaliar a suplementação de ácidos graxos ômega 3 para a prevenção primária em pacientes de alto risco.

Ceticismo saudável?

Convidado a comentar os resultados para o Medscape, o Dr. Deepak Bhatt, médico e pesquisador responsável do ensaio clínico REDUCE-IT, observou que os "ensaios clínicos randomizados relacionados com este tipo de suplemento não têm demonstrado benefício significativo".

"Por isso, sou cético de que estes resultados sejam reais", disse Dr. Deepak, diretor executivo do Interventional Cardiovascular Programs no Brigham and Women's Hospital, nos Estados Unidos.

Além disso, fatores de confusão residuais podem ter alterado os resultados, dado que as pessoas saudáveis que se preocupam com a saúde tendem a tomar suplementos e vitaminas e, por isso, parecem ter melhores desfechos de saúde do que aqueles que não o fazem, disse o comentarista. E, comportamentos saudáveis também poderiam ter contribuído para os benefícios observados.

"De mais a mais, existem dados que mostram que suplementos de óleo de peixe variam de lote para lote em seu teor exato de ácidos graxos ômega 3, e que também contêm outras gorduras saturadas", acrescentou Dr. Deepak.

Também comentando para o Medscape, o Dr. Eric Rimm, Sc.D., disse que os resultados são "intrigantes", e que o estudo constitui um aporte para a literatura. Dr. Eric observou que o estudo foi realizado com quase meio milhão de participantes da população geral, o que contrasta com as coortes dos ensaios clínicos.

Os pesquisadores descobriram alguns benefícios da suplementação do ômega 3, acrescentou Dr. Eric, professor de epidemiologia e nutrição e diretor do Program in Cardiovascular Epidemiology na Harvard T. H. Chan School of Public Health, e professor de medicina na Harvard Medical School, nos EUA.

No entanto, os pesquisadores não encontraram diferença entre as pessoas que informaram baixos níveis de consumo de peixe e os que informaram altos níveis, "o que não costuma acontecer em outros estudos".

Embora os pesquisadores tenham feito ajustes por vários fatores, "a parte que me preocupou é que eles não olharam a quantidade de carne vermelha ou de fibras que as pessoas estavam ingerindo em sua alimentação (...) de modo que eu não sei se são verdadeiramente os suplementos de ômega 3" que estão conferindo o benefício, acrescentou Dr. Eric.

O estudo foi financiado pela província de Cantão e por Universities and Colleges Pearl River Scholar Funded Scheme, Construction of High-Level University of Guangdong, US National Institutes of Health/National Institute on Aging e pela National Natural Science Foundation of China. O Dr. Chen Mao e o Dr. Eric Rimm informaram não ter conflitos de interesses. O Dr. Deepak Bhatt foi pesquisador responsável do ensaio clínico REDUCE-IT e o Brigham and Women's Hospital recebeu financiamento de pesquisa da Amarin Corp. para este estudo.

BMJ. Publicado on-line em 04 de março de 2020. Texto completo

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