Ansiedade e depressão acometem profissionais da saúde enfrentando Covid-19 na China

Linda Carroll

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30 de março de 2020

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(Reuters Health) – As taxas de depressão e ansiedade podem ser muito altas entre médicos e enfermeiros que tratam pacientes com Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019), sugere um novo estudo da China.

Os pesquisadores entrevistaram mais de 1.000 profissionais de saúde em Wuhan, o epicentro da epidemia de Covid-19, na China, e em outras regiões do país, incluindo 493 médicos e 760 enfermeiros.

Dos 1.257 participantes da pesquisa, 60,5% trabalhavam em hospitais em Wuhan e 41,5% eram profissionais de saúde da linha de frente. A maioria (64,7%) tinha entre 26 e 40 anos e 76,7% eram mulheres.

Nas respostas coletadas entre 29 de janeiro e 03 de fevereiro, 70,0% relataram sentir angústia. Mais da metade (50,4%) referiu sintomas de depressão, 44,6% apresentou sintomas de ansiedade e 34% apresentou sintomas de insônia.

Enfermeiros, mulheres, moradores de Wuhan e profissionais de saúde na linha de frente envolvidos diretamente no atendimento, diagnóstico e tratamento de pacientes com Covid-19 tiveram maior probabilidade de relatar sintomas, de acordo com os resultados publicados no periódico JAMA Network Open.

"Trabalhar na linha de frente foi um fator de risco independente de piores desfechos em saúde mental em todas as dimensões de interesse", escreveram os pesquisadores, que foram liderados por Jianbo Lai, da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, na China.

"Em conjunto, nossos resultados suscitam preocupação com o bem-estar psicológico de médicos e enfermeiros envolvidos no surto de Covid-19", alertaram eles.

"A resposta psicológica dos profissionais de saúde a uma epidemia de doenças infecciosas é complicada", acrescentaram os autores. "Fontes de angústia podem incluir sentimentos de vulnerabilidade ou perda de controle e preocupações com a própria saúde, disseminação do vírus, saúde da família e de outros, mudanças no trabalho e isolamento."

Os pesquisadores não responderam à solicitação de comentários.

O grau dos sintomas de depressão, ansiedade, insônia e angústia foi avaliado pelas versões chinesas dos instrumentos de avaliação 9-item Patient Health Questionnaire, 7-item Generalized Anxiety Disorders scale, 7-item Insomnia Severity Index e 22-item Impact of Event Scale-Revised.

No geral, os pesquisadores observaram que participantes de fora da província de Hubei tinham probabilidade 38% menor de apresentar sintomas de angústia do que os de Wuhan. Os profissionais na linha de frente, diretamente envolvidos no atendimento, diagnóstico e tratamento de pacientes com Covid-19 tiveram uma razão de chances (OR, sigla do inglês, Odds Ratio) de 1,52 para sintomas de depressão, em comparação com aqueles que não estavam na linha de frente. As OR dos profissionais na linha de frente foram 1,57 para sintomas de ansiedade, 2,97 para insônia e 1,60 para angústia.

As taxas de sintomas de depressão grave foram menores entre os médicos (em 4,9%) em comparação com 7,1% entre os enfermeiros.

"Intervenções especiais para promover a saúde mental dos profissionais de saúde expostos à Covid-19 precisam ser implementadas imediatamente, com mulheres, enfermeiros e profissionais na linha de frente exigindo atenção especial", concluíram os pesquisadores.

Os resultados "não são muito surpreendentes", disse o Dr. Paul Nestadt, professor assistente no Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Johns Hopkins School of Medicine, nos Estados Unidos, e um dos diretores da Johns Hopkins Anxiety Disorders Clinic.

O Dr. Paul suspeita que pelo menos parte do motivo pelo qual as mulheres são mais afetadas pode estar relacionado com questões de cuidados com as crianças.

"Isso às vezes é atribuído de forma desproporcional às mulheres", disse ele.

A situação da Covid-19 é "um divisor de águas para os profissionais de saúde", disse o Dr. Jack Rozel, diretor médico de serviços de crise do UPMC Western Psychiatric Hospital em Pittsburgh, nos EUA.

Embora os profissionais de saúde possam estar preocupados com os riscos para a própria saúde e bem-estar em outras situações, isso é diferente, disse Dr. Jack.

"Se um paciente tossir em mim, tenho de pensar no que isso significa para minha esposa e minha filha", acrescentou.

"Parece perigoso a um ponto que temos dificuldade em mensurar", disse Dr. Paul. "Há uma curva de aprendizado acentuada no início e uma variabilidade em todas as coisas que estamos tentando medir. E a incerteza é um fator real. Incerteza, desconfiança e medo, quando reunidos, produz uma combinação tóxica para a saúde mental de qualquer pessoa."

O conselho do Dr. Jack para os médicos que lidam com pacientes com Covid-19 é lembrar que é uma maratona, e não uma corrida de velocidade.

"Você ainda estará se movendo rápido, trabalhando arduamente e suando quando alcançar um ritmo de maratona, mas será um pouco mais fácil acompanhar", disse ele.

Ele compara a situação a se exercitar em uma esteira. "Se você pula na esteira a toda velocidade, cai no chão", explicou. "Se você começar devagar, pode acelerar e, eventualmente, atingir o ritmo certo."

FONTE: https://bit.ly/3aigQmI and https://bit.ly/2QDbieG

JAMA Network Open, on-line 23 de março de 2020.

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