Los Angeles — Os exames de neuroimagem para pessoas com suspeita de acidente vascular cerebral (AVC) feitos em unidades de tratamento intensivo (UTI) podem ajudar a orientar o diagnóstico e a conduta, mas muitas vezes isso exige transportar o paciente para a sala de tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM), o que em si pode ser problemático.
Os pesquisadores decidiram inverter este cenário e avaliar os pacientes com AVC levando a tecnologia da RM até o paciente, e não o contrário.
"Informamos aqui a utilização pela primeira vez de um sistema de RM de baixo campo portátil para capturar imagens à beira do leito de pacientes com AVC. Este trabalho preliminar sugere que esta técnica é segura e viável em um ambiente de tratamento clínico de alta complexidade", disse o primeiro autor do estudo, Bradley Cahn, pesquisador do Departamento de Neurologia da Yale School of Medicine, nos Estados Unidos.
Bradley apresentou as conclusões na 2020 International Stroke Conference (ISC).
RM de baixo campo rumo à praticidade
Os exames de neuroimagem são amplamente utilizados para diagnóstico, rastreamento e acompanhamento de pacientes com AVC. As modalidades mais comuns são TC sem contraste e RM de alto campo. "A RM, especialmente, permite a detecção precisa e confiável da isquemia e do sangramento", disse Bradley.
Custo, disponibilidade, necessidade de salas blindadas e capacitação de técnicos podem ser limitações da ressonância magnética de alto campo, acrescentou o pesquisador.
"Os recentes aprimoramentos de hardware, programas de computação e de reconstrução das imagens possibilitaram a obtenção de imagens com utilidade clínica no local de atendimento, por meio de um ímã de baixo campo."
Utilizando um aparelho 1,5 Tesla MRI no local de atendimento, Bradley, o médico e autor sênior do estudo, Dr. Kevin Sheth e colaboradores avaliaram 96 adultos na UTI da neurologia. Todos os participantes tinham diagnóstico clínico de AVC ou outras lesões cerebrais entre junho de 2018 e janeiro de 2020.
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Os subtipos de AVC foram AVC isquêmico agudo, hemorragia subaracnoidea e hemorragia intracerebral. A média de idade foi de 63 anos, 51% eram mulheres e a média da pontuação pela NIH Stroke Scale foi de 8 (variação de 0 a 37).
Resultados de viabilidade e segurança
A maioria (87%) dos pacientes completou com êxito todo o exame à beira do leito. O grupo que não completou o exame de imagem foi de seis pacientes que tiveram claustrofobia e cinco pacientes que não cabiam confortavelmente na abertura de 30 cm do aparelho. O exame completo levou em média 29 minutos.
"A máquina não interferiu de modo clinicamente significativo em nenhum equipamento da UTI neurológica", disse Bradley.
O dispositivo pode ser conectado em uma tomada comum na parede, e os exames foram feitos com sucesso tanto em pacientes intubados como nos pacientes respirando em ar ambiente.
Não houve eventos adversos durante o estudo.
"É importante observar que o hardware e o programa são aperfeiçoados continuamente, produzindo imagens de alta qualidade", disse Bradley.
Os pesquisadores planejam expandir suas pesquisas. "Reconhecemos que esta técnica deve ser avaliada nos casos agudos e em uma grande variedade de características do AVC", acrescentou o autor.
Bradley e colaboradores têm projetos em andamento, como a expansão do recrutamento para o pronto-socorro, a quantificação da qualidade da imagem e da intensidade do sinal e a avaliação da sensibilidade da máquina para quadros de AVC específicos.
Útil para selecionar pacientes?
"Há alguns diagnósticos e contextos terapêuticos muito específicos, nos quais isso teria utilidade", disse ao Medscape o moderador da sessão, Dr. Justin F. Fraser, médico e diretor da cirurgia cerebrovascular do Departamento de Cirurgia Neurológica da University of Kentucky, nos EUA.
Um paciente fazendo tratamento de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO, do inglês Extracorporeal Membrane Oxygenation), por exemplo, não poderia ser movido com facilidade até a sala da ressonância magnética. Um paciente com trombose do seio venoso, que está intubado ou sedado, também representa um desafio para fazer este exame, disse Dr. Justin.
"Não queremos movê-los, mas queremos saber se estão tendo novos AVC por causa da trombose de seio venoso", acrescentou o moderador. A TC também pode dar essa resposta, mas dentro de certos limites, acrescentou Dr. Justin.
A RM portátil à beira do leito "poderia ser um exame muito útil", acrescentou, "mas é certo que será usado com parcimônia".
"Em termos gerais, me parece que o que os pesquisadores conseguiram provar o que pretendiam; que o exame é viável e seguro nesta população específica em um único centro", disse o Dr. Peter D. Panagos, médico e professor de medicina de emergência da Washington University School of Medicine, nos EUA, em um comentário por vídeo que acompanha o Abstract.
"É um Abstract fascinante", acrescentou Dr. Peter, que também é diretor do conselho de AVC da American Heart Association (AHA) e ASA.
O estudo foi financiado por uma concessão de ciência colaborativa American Heart Association e da empresa Hyperfine Research. Bradley Cahn recebeu uma bolsa de pesquisa da empresa Hyperfine Research. O Dr. Justin F. Fraser e o Dr. Peter D. Panagos informaram não ter conflitos de interesses.
International Stroke Conference (ISC) 2020: Abstract 57.
Apresentado em 19 de fevereiro de 2020.
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Citar este artigo: É possível trazer RM portátil para a beira do leito para detecção de AVC - Medscape - 30 de março de 2020.
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