Ingestão diária de sal volta à pauta

Patrice Wendling

Notificação

16 de março de 2020

Uma nova metanálise adiciona mais combustível à controvérsia sobre a relação entre saúde cardiovascular e sódio, sugerindo que a redução do sódio na alimentação reduz a pressão arterial (PA), mesmo de indivíduos com PA sistólica inicial de 120 mmHg.

Cada redução de 50 mmol na excreção de sódio em 24 horas foi associada a reduções na PA sistólica de 0,66 mmHg, 1,89 mmHg e 2,76 mmHg de pacientes normotensos, um grupo de pacientes normotensos e hipertensos e pacientes hipertensos, respectivamente.

“O fato de ser benéfico não apenas para indivíduos hipertensos, mas também para pessoas com pressão arterial normal, é um achado muito importante”, disse ao Medscape o autor sênior da metanálise, Dr. Feng J. He, médico da Queen Mary University of London, Reino Unido. “Além disso, o estudo mostrou claramente que quanto menor a ingestão de sal, menor a pressão arterial.”

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a ingestão máxima de sódio de 2 g ao dia (5 g de sal) como estratégia de intervenção a nível populacional com o objetivo de reduzir a incidência de casos de doença cardiovascular e morte. Estudos anteriores relataram, no entanto, que a redução de sódio tem pouco ou nenhum valor em indivíduos normotensos.

Outras questões foram levantadas após as evidências do estudo PURE mostrarem uma relação em forma de J, na qual níveis mais altos e mais baixos de sódio foram associados a um aumento do risco de doença cardiovascular.

O Dr. Feng pontuou que, diferentemente do estudo PURE, que foi criticado por usar uma única amostra de urina para estimar a excreção de sódio, os 133 ensaios randomizados da metanálise usaram apenas a coleta de urina de 24 horas para estimar a excreção de sódio.

Entre os 12.197 participantes, cada redução de 50 mmol na excreção de sódio em 24 horas foi associada a uma redução de 1,10 mmHg na PA sistólica e de 0,33 mmHg na PA diastólica (P = 0,03).

Todos os subgrupos (classificados por idade, sexo e raça) apresentaram redução da pressão arterial sistólica, mas esta redução foi mais acentuada entre as pessoas com mais de 55 a 65 anos (- 3,88; intervalo de confiança, IC, de 95%, de - 5,05 a - 2,71), mulheres (- 1,32; IC 95%, de - 2,47 a - 0,16) e negros (- 4,07; IC, 95% de - 6,14 a - 2,00), relatam os autores em um artigo publicado on-line em 25 de fevereiro no BMJ.

Também foram observadas reduções para cada grupo, de acordo com a classificação baseada na PA sistólica aferida no início do estudo:

  • < 120 mmHg; - 0,39 (IC 95% de - 0,061 a - 0,18)

  • de ≥ 120 a < 130 mmHg; - 1,21 (IC 95%, de - 1,87 a - 0,55)

  • de ≥ 130 a < 140 mmHg; - 2,23 (IC 95%, de - 2,89 a - 1,57)

  • de ≥ 140 a < 150 mmHg; - 3,23 (IC 95%, de - 3,88 a - 2,59)

  • de ≥ 150 a < 160 mmHg; - 2,68 (IC 95%, de - 3,55 a - 1,81)

  • ≥ 160 mmHg; - 2,97 (IC 95%, de - 4,34 a - 1,60)

 

“Me parece que a pressão arterial quase não mudou entre os indivíduos normotensos, então eu acho que há um exagero em relação ao tamanho do benefício para a população em geral”, disse ao Medscape a Dra. Suzanne Oparil, médica especialista em hipertensão e diretora do programa de biologia vascular e hipertensão na University of Alabama, nos Estados Unidos.

Ela observou que as coletas de urina de 24 horas podem variar, dependendo de o quão cuidadoso o indivíduo for, e que estudos feitos com cosmonautas mostraram grandes variações diárias na excreção de sódio em 24 horas, “portanto, não existe um padrão-ouro neste caso”, disse a médica.

Além disso, a Dra. Suzanne observou que os pesquisadores usaram aferições casuais da PA em vez da aferição ambulatorial por 24 horas e descartaram dados que mostram que a ingestão muito baixa de sódio às vezes estimula mecanismos de contrarregulação, como o sistema renina-angiotensina, que tende a aumentar a pressão arterial.

Além disso, os achados são baseados em dados no âmbito de estudos e não do paciente e não incluem os desfechos cardiovasculares, ela disse.

“É claro que, se você tiver hipertensão e comer muito sal, diminuir a ingestão de sal vai reduzir a sua pressão, mas eu simplesmente não acredito que existam benefícios demonstráveis para a redução da ingestão de sal por pessoas com pressão arterial normal ou quase normal que não consomem muito sal”, afirmou a Dra. Suzanne.

O Dr. Feng disse que as evidências mostrando a ausência de benefício da redução de sódio em indivíduos normotensos são baseadas em estudos muito curtos, e que a ativação do sistema renina-angiotensina e os eventos adversos metabólicos associados a grandes reduções do consumo de sódio na alimentação não parecem ocorrer em intervenções mais prolongadas.

Na metanálise, o tempo das intervenções para reduzir o consumo de sódio foi de não mais de sete dias até mais de seis meses.

Não foi identificada associação geral entre a duração da intervenção e a magnitude da redução da PA sistólica ou diastólica, provavelmente devido à falta de poder estatístico, porque apenas 19% dos estudos incluíram intervenções que duraram mais de 30 dias e apenas 4% duraram mais que seis meses, disse o Dr. Feng.

No entanto, o efeito de cada redução de 50 mmol na excreção de sódio em 24 horas na pressão arterial sistólica foi aproximadamente duas vezes maior em estudos com intervenções por mais de 14 dias em relação às que duraram 14 dias ou menos (2,13 mmHg versus 1,05 mmHg; P = 0,002).

Reduzir o consumo de sódio na alimentação em longo prazo pode ser algo difícil para as pessoas, mas os benefícios para a saúde foram relatados em programas nacionais norte-americanos que combinam campanhas de conscientização sobre o sal e colaboração com a indústria alimentícia, disse ele.

Por exemplo, os pesquisadores já haviam publicado que o programa de redução do consumo de sal do Reino Unido, que estabelece metas voluntárias e gradualmente menores de redução de sal para mais de 85 categorias de alimentos, levou à redução de 15% da ingestão de sal (de 9,5 g ao dia em 2003 para 8,1 g ao dia em 2011), queda de 2,7 mmHg na pressão arterial sistólica da população e diminuição da mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) em 42% e doença cardíaca isquêmica em 40%.

No futuro, seriam úteis mais dados ambulatoriais de monitoramento da pressão arterial refletindo diferentes condições alimentares, sugeriu a Dra. Suzanne. “Vale a pena conhecer mais sobre os efeitos da redução do consumo de sal na variação diurna da pressão arterial; sabemos que a pressão arterial fora do consultório, principalmente a pressão noturna, parece estar mais associada aos desfechos do que a pressão arterial no consultório”, ela disse.

Dr. Feng é membro das organizações sem fins lucrativos Consenus Action on Salt and Health (CASH) e World Action on Salt and Health (WASH). Dra. Suzanne informou não ter relações financeiras relevantes.

BMJ. Publicado on-line em 25 de fevereiro de 2020. Texto completo

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