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Xangai, China – O pediatra belga Dr. Nathanael Goldman trabalha há muitos anos em Xangai, na China, para o grupo médico privado Parkway Pantai Ltd.
Isolado da família, após ter deixado Bruxelas há várias semanas, ele concordou em compartilhar com a edição francesa do Medscape sua experiência com a epidemia de Covid-19 e manifestou preocupação com o atraso europeu na contenção da propagação do vírus.
O que aconteceu no início do surto?
“As notícias da epidemia vieram à tona no início de janeiro pelas mídias sociais, quando soubemos da prisão do Dr. Li Wenliang, que havia divulgado, no WeChat, a existência de casos de SARS em Wuhan – ele morreu em 7 de fevereiro devido à Covid-19.
A vida continuou normal depois disso, mas ouvíamos notícias cada vez mais preocupantes sobre a situação em Wuhan.
Os eventos progrediram por três semanas, quando, na véspera do Ano Novo Chinês, a cidade de Wuhan, assim como várias outras da província de Hubei, foram isoladas do resto da China.
Quando eu quis ir para o aeroporto depois da véspera de Ano Novo para retornar da província de Jiangxi para Xangai, a conexão de ônibus foi interrompida. Parecia que viajar pela China tinha se tornado mais difícil de repente, e corríamos o risco de ficar presos longe de casa.
Muitas pessoas que viajaram via Wuhan ou as que deixaram a cidade no Ano Novo ficaram presas longe de casa, às vezes em condições difíceis, principalmente para quem ainda estava em Wuhan.
Quando voltei do feriado do Ano Novo Chinês em 28 de janeiro, não trabalhei nenhum dia, mas pude fazer o monitoramento do fluxo de pacientes nos hospitais designados para tratar de casos suspeitos. Nossa clínica foi fechada e reaberta apenas no dia 3 de março.
Alguns de meus colegas de outras clínicas do mesmo grupo continuaram trabalhando em um ritmo lento nos centros autorizados a permanecer abertos. No mês passado, muitas empresas colocaram seus funcionários em desemprego técnico ou os mandaram trabalhar de casa.
Todos nós recebemos instruções para ficar em casa o máximo possível, e a temperatura de todos é medida na entrada de todos os locais públicos e residências. As entradas e saídas são controladas.
No início de fevereiro, uma quarentena de 14 dias em casa foi imposta a todos que retornassem a Xangai de outros lugares da China ou do exterior. Um sistema de rastreamento, inclusive via telefone celular, foi implantado para garantir que ninguém fuja das regras.
Em termos de atendimento... febre ou sinais de infecção respiratória precisam ser tratados por clínicas designadas pelo governo. Certamente complica a vida de quem quer simplesmente evitar o sistema público e suas longas filas, bem como o risco de infecção decorrente da espera.”
Você já pensou em voltar para a Europa?
“Para muitos expatriados, é uma pergunta frequente a de voltar para casa. Não sabemos quanto tempo levará para controlar a epidemia. Os voos internacionais estão se tornando mais raros, inicialmente por razões econômicas, porque as companhias aéreas perderam dinheiro com voos vazios, e depois devido ao risco de infecção.
A decisão de fechar as escolas foi anunciada durante o feriado do Ano Novo Chinês, inicialmente até 17 de fevereiro, depois até 2 de março e, depois, por um período indeterminado, e a educação on-line está cada vez mais difundida.
Consequentemente, muitos de nós decidimos ficar, mas mandar nossas famílias para casa. Ficar trancado se torna desconfortável rapidamente, principalmente para as crianças pequenas. Por exemplo, os parques estão fechados e não há mais nada a fazer além de brincar em casa. Minha esposa partiu para Bruxelas com a nossa filha mais nova, que realmente precisa de atividade física todos os dias. Alguns dias em casa pode ser ok, mas estamos falando de um mês.
Além disso, meu empregador me pediu para ficar, caso as autoridades nos dessem luz verde para reabrir a clínica, e também devido às incertezas em termos de conexões de voo e à necessidade de quarentena ao retornar.
Isso me permitiu ter tempo para ler as informações publicadas sobre a Covid-19, produzir vários vídeos e interagir nas mídias sociais, seja para responder a perguntas de não profissionais ou para defender a importância de preparar as regiões do mundo ainda não afetadas por o vírus – uma ideia que poucos dos meus colegas concordavam até bem pouco tempo. Eles achavam que a Covid-19 era uma forma ruim de influenza, afetando de certo as pessoas mais frágeis, mas apenas uma minoria.”
Como é a situação em Xangai?
“Até a metade de fevereiro, praticamente não havia carros na rua; apenas os ônibus circulavam, muitas vezes vazios, o que tornou andar de bicicleta muito agradável. Tive a oportunidade de ver o Bund – o cais da velha Xangai, que se estende por mais 1,6 km ao longo do rio Huangpu – completamente vazio, geralmente lá fica lotado de visitantes.
As ruas estão voltando a ter vida, os pedestres voltaram, mas estamos longe de ter as multidões habituais de Xangai. Muitos restaurantes e lojas continuam fechados. É provável que uma grande parte dos funcionários ainda não tenha conseguido retornar a Xangai, além disso é necessário estar em boas condições de higiene, o que requer passar por várias etapas administrativas.
Com o passar do tempo, aumenta a pressão para que a economia reinicie e que as pessoas possam pagar aluguel e comer. Existem leis para garantir que as pessoas sejam pagas, mesmo quando são colocadas em desemprego técnico, mas as regras têm os seus limites: o dinheiro tem de vir de algum lugar.
Pessoalmente, a clínica foi reaberta, mas hoje não tenho nenhum paciente.”
Você vivenciou a falta de algum produto ?
“Sim, soluções com álcool, máscaras... No início, as farmácias foram assaltadas. Os guardas foram colocados em frente às entradas e as máscaras eram vendidas apenas com ordem da administração da comunidade local, e após a apresentação de passaporte e outros documentos. Da mesma forma, o paracetamol estava disponível apenas mediante receita médica.
Em termos de acesso a comida, as lojas de comida em Xangai permaneceram abertas e bem abastecidas, e pudemos facilmente ir à cidade para fazer as compras.”
A epidemia está desacelerando na China e as ações adotadas receberam elogios da Organização Mundial da Saúde. O que você acha?
“As medidas adotadas pela China para combater a epidemia são extraordinárias na opinião de muitas pessoas, e de fato, não haviam sido implementadas na história recente.
Em Wuhan, as pessoas não podem sair de casa há algum tempo, e a polícia e o exército se certificam de que as regras estão sendo seguidas.
Os números mostram um declínio da epidemia em todo o país e parecem justificar, em retrospecto, as medidas extremas, baseadas no que se sabe sobre a redução da transmissão de uma infecção na população. Na realidade, há um mês a economia da China praticamente parou e só voltou a funcionar nos últimos 10 dias.
Muitos ficaram surpresos com a implementação brutal dessas medidas para interromper o transporte, a educação presencial e a produção industrial. Não há uma discussão real na sociedade civil na China quando uma decisão precisa ser tomada, ao contrário de nossas sociedades ocidentais.
No caso desta epidemia, parece-me óbvio que é exatamente essa abordagem autoritária que permitiu que a série de medidas, que levaram ao controle da epidemia, fosse implementada tão rapidamente.
É claro que é uma experiência sem comparação e nenhuma auditoria independente dos números foi apresentada.”
Esses tipos de medidas drásticas são possíveis na Europa?
“Vendo as dificuldades de se controlar essa epidemia na China, sugeri recentemente em um dos meus vídeos que nossas democracias ocidentais deveriam começar a se preparar, exatamente porque não há poder executivo que possa decidir sozinho estabelecer novas regras que afetam toda a sociedade, como vi na China.
Provavelmente não é possível prever se iríamos tão longe em termos de medidas de quarentena devido, entre outras coisas, ao respeito pelos direitos individuais e por uma imprensa independente.
Parece-me que leva tempo para se preparar, e teremos mais chances de sermos efetivos se começamos o quanto antes. No entanto, tivemos que ver uma situação preocupante na Itália antes de alguns países começarem a se preparar.”
Como você pode explicar esse atraso em agir ?
“É com as primeiras mortes locais que realmente começamos a nos preocupar. Mas as mortes representam a ponta de um iceberg gigante de pessoas infectadas que são significativamente menos sintomáticas. As complicações são vistas em uma pequena minoria de pessoas e, portanto, exigem estatisticamente pessoas suficientes para serem infectadas na população para começar a ver essa minoria.
A doença tem um período de incubação estimado entre 2 e 14 dias, talvez até 27 dias de acordo com certas fontes. Esta é o primeiro retardo de tempo. Para que a doença desenvolva uma complicação, leva de 8 a 10 dias, o que é um segundo retardo de tempo.
Em outras palavras, os casos graves em uma população são provavelmente o sinal de que o vírus já está em circulação. Começar a agir nesta fase não torna as coisas mais fáceis. Daí a necessidade de uma preparação anterior.
Acredito que é imperativo que os responsáveis pela saúde pública, que têm a atenção de nossos governantes, estejam convencidos de que essa epidemia é um grande desafio logístico, principalmente para os nossos sistemas de saúde, que ainda estão saturados com a influenza sazonal.
Após minha experiência das últimas semanas, tendo em vista os relatórios publicados na imprensa por vários desses especialistas e por muitos de meus colegas europeus, duvido que essa epidemia esteja sendo tratada com toda a seriedade que ela merece.”
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Citar este artigo: Testemunha ocular: a vida em Xangai em tempos de Covid-19 - Medscape - 15 de março de 2020.
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