"Qual deve ser a aparência do médico"?
Eu começo muitas da minhas palestras sobre as modificações demográficas na medicina fazendo essa pergunta. Provavelmente, o instinto da maioria, pacientes ou médicos, é evocar a imagem de um distinto cavalheiro de jaleco branco, geralmente maduro e caucasiano.
Eu compreendo isso, já que mesmo os ferrenhos defensores das médicas como eu, viram que a maioria dos retratos nas paredes dos corredores da nossa faculdade de medicina era de médicos exatamente com esse perfil. Eles deixaram uma impressão do molde ao qual deveríamos nos adequar e cujas carreiras tentamos reproduzir.
Dra. Nisha Mehta
Qual é o problema? Bem, eu não pareço em nada com esse estereótipo de médico, nem em termos físicos, nem demográficos. Muitos destes médicos eram arrimo da família e contavam com uma ajuda importante em casa para educar as crianças ou fazer as tarefas domésticas.
Eu sou uma radiologista do sul da Ásia, mulher, casada com um cirurgião e tenho dois filhos. Muitos dos médicos mais jovens atualmente também podem identificar as principais diferenças entre a própria vida e a vida do estereótipo de médico mencionado acima.
O que percebi ao longo dos anos, porém, é que, como médicos, homens ou mulheres, tendemos a ocultar nossas características mais pessoais e nos conformar a um estereótipo antiquado do que significa ser um médico. Entre as médicas, que passaram anos tentando lutar contra estes estereótipos e provar que podemos fazer tudo o que os nossos colegas do sexo masculino fazem, isso significa muitas vezes não valorizar o que nos identifica como mulheres.
Mas ser médica tem seus desafios peculiares, e temos muitos telhados de vidro a quebrar sem precisar nos preocupar com nos adequar a estereótipos. Nós não deveríamos ter medo de ser quem somos, ou nos preocupar que alguém nos leve menos a sério se fizermos algo feminino.
Peça para qualquer médica contar o que significa ser médica. Você vai ouvir várias histórias em comum: "eu entrei em trabalho de parto enquanto estava de plantão com 39 semanas e meia de gestação"; "fui chamada de enfermeira enquanto meu interno foi chamado de médico"; "eu tirei leite pro meu bebê no vestiário do hospital"; "me fizeram sentir culpada por sair para assistir aos jogos na escola do meu filho enquanto todo mundo elogiava o meu parceiro por ser bom pai quando ele saia mais cedo para jogar beisebol com o filho dele"; "me fizeram perguntas sobre meu planejamento familiar durante uma entrevista de emprego"; "eu me sentia muito desconfortável com a conversa bar quando rodei na cirurgia", etc., etc. E a lista continua.
Contudo, tem mais. Se você se aprofundar nas implicações destas histórias, você encontra coisas que aumentam o desgaste (burnout) e ameaçam a longevidade da carreira das médicas. Isto é o que realmente me preocupa em termos de política.
As diferenças do sexo feminino devem ser incentivadas, não ocultadas
Um dos principais pontos no meu trabalho para mudar a cultura da medicina é que nossas características específicas são importantes e devem nos influenciar. O título de "médica" traz grande responsabilidade, mas também os outros títulos que conquistamos nas nossas vidas. Todos estão interligados, e o sucesso em nossa carreira médica exige o reconhecimento das nossas diferenças.
Apesar do fato de a maioria de nós falar sobre este conceito, muitas médicas têm medo de afirmar suas diferenças. Por quê?
1. Acreditamos que, se agirmos como mulheres, isso irá nos prejudicar profissionalmente.
Isto é, evidentemente, absurdo. Para começar, uma grande quantidade de dados sólidos comprova a excelência da qualidade do atendimento das médicas e menciona características que os pacientes apreciam nas suas médicas.
Além disso, em todas as profissões, existe uma relação real entre a confiança e o sucesso. Assumir quem somos nos confere automaticamente respeitabilidade, e profissionalismo não significa que você não possa falar sobre os seus filhos. Usar joias ou bijuterias que refletem o seu gosto não é diferente de usar uma gravata com o escudo do seu time de futebol.
2. Achamos que nossas reivindicações e a militância pelos nossos direitos será percebida como sendo árdua.
Por isso muitas de nós pedimos desculpas antes de pedirmos algo ou não falamos sobre coisas que poderiam contribuir de fato para o atendimento do paciente ou para o ambiente de trabalho, porque temos medo da impressão que iremos causar – algo que nossos colegas do sexo masculino, na maior parte, raramente sentem.
Por não pedir as coisas de que precisamos para sermos felizes em nossos trabalhos ou não exigir coisas como paridade salarial entre os gêneros ou paridade de gênero para as posições de chefia, no entanto, nós realmente limitamos a longevidade da carreira e aumentamos a rotatividade dos médicos. Tantas mulheres na medicina acabam reduzindo significativamente seu tempo de trabalho, ou abandonando a medicina por isso, quando, na verdade, poderia ter havido uma solução que funcionasse para todos os envolvidos, se tivesse sido tentada.
3. Achamos que solicitar horários modificados ou menor carga horária vai fazer os outros pensarem que levamos as nossas carreiras menos a sério.
A realidade é que muitas médicas (e médicos também) fazem parte de famílias com dois salários altos, e quando não existem opções que permitam o equilíbrio entre vida pessoal e o trabalho, começam a encarar suas opções de modo dicotômico: trabalhar em horário integral ou não trabalhar.
Com a atual falta de médicos e o aumento do desgaste profissional (burnout), os empregadores estão começando a perceber que precisam cativar seus médicos e podem estar mais muito mais dispostos do que se imagina a empregar médicos em meio expediente. A rotatividade é muito cara, como os sistemas estão constatando. Na verdade, ter ocasionalmente um dia de folga pode nos dar o tempo e a energia necessários para cuidar de nossas outras responsabilidades e nos deixar mais concentradas e felizes no trabalho, o que é melhor em termos de eficácia profissional, satisfação do paciente e para manter o médico no emprego.
4. Nós reclamamos que os pacientes e nossos colegas nos confundem com outros membros da equipe, partindo do princípio de que as mulheres não podem ser médicas, mas nunca dizemos nada.
É importante nos afirmar nestas situações. Não precisa de ser hostil, mas precisa ser notório. Se não nos defendermos, ninguém o fará. Quanto mais médicas mostrarem a modificação demográfica constante da medicina, mais nós desconstruiremos os estereótipos sobre a aparência do médico e ensinaremos as pessoas sobre qual é a necessidade dos médicos para poderem sobreviver no mercado atual. Isto nos auxilia em termos do nosso consultório, nosso marketing e nossas oportunidades de chefia e militância em prol dos nossos pacientes.
5. Nós viemos de uma mentalidade de minoria.
Mas a verdade é que nós não somos minoritárias. Um dos meus desenhos animados favoritos mostra um monte de objetos com formas diferentes tentando entrar em uma abertura quadrada chamada de "O Sistema" e um quadrado dizendo aos objetos para modificarem o seu formato para poder passar. Os objetos respondem: "que tal você mudar o sistema de modo que todos possamos caber"?
A verdade é que a medicina precisa das médicas. Já havia a previsão da falta de médicos muito antes do surgimento do burnout e as pessoas estavam falando sobre a mudança da demografia na medicina. Com esta mudança da demografia chegam mais mulheres, mais médicos com "mentalidade" de Millennials voltada para o equilíbrio entre vida e o trabalho, e mais famílias com duas rendas que precisam equilibrar a vida familiar e a vida profissional.
Todas essas coisas criam forças no mercado no qual as curvas de oferta e demanda começam a favorecer os médicos. Em uma era na qual os médicos se sentem impotentes, é importante que se lembrem desta carência ao fazer suas negociações e colocar os seus pontos de vista do que é possível dentro do mercado de trabalho.
Cada médico e cada família de médico é diferente, e nenhum estereótipo é aplicável de maneira uniforme. O fato é que atualmente a força de trabalho médico é mais diversificada do que as gerações anteriores em muitos aspectos: gênero, raça, normas culturais, economia e relacionamentos. Cada uma dessas coisas nos influencia em vários níveis, pessoal e profissionalmente.
Se continuarmos a dificultar o trabalho dos médicos (de ambos os sexos) comprometendo sua possibilidade de ter uma vida gratificante, mais médicos irão reduzir sua carga horária significativamente ou abandonar a medicina. As médicas ocupam um lugar excelente para assumir a liderança da mudança cultural, trazendo flexibilidade para a força de trabalho médico e o humanismo para a medicina. É hora de reconhecer que as mulheres não são mais avis rara nos bancos da faculdade de medicina. As médicas certamente não estão mais sozinhas, mas precisam de mais mentoras e chefias femininas para criar um ambiente que as incentive a assumir sua força e suas necessidades.
Nossas peculiaridades influenciam nossos objetivos e realidades profissionais e pessoais. E tudo bem.
Na verdade, é mais do que normal. É assim que deve ser. Todas nós devemos construir na medicina a vida que queremos, de modo a promover a longevidade das nossas carreiras. Em última análise, a melhor coisa que podemos fazer para os nossos pacientes é sermos nós mesmas, usar nossos pontos fortes e fazer medicina durante o maior tempo possível. Isto exige assumir nossas características demográficas peculiares e o pacote que vem com elas.
Dra. Nisha Mehta é médica radiologista em Charlotte, Carolina do Norte, bem como escritora, palestrante e militante em prol dos pacientes.
Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube
© 2020 WebMD, LLC
As opiniões expressas aqui são de responsabilidade pessoal do autor e não representam necessariamente a posição da WebMD ou do Medscape.
Citar este artigo: Médicas: nós não precisamos de agir como homens - Medscape - 3 de março de 2020.
Comente