Desnutrição materna aumenta probabilidade de síndrome congênita da zika

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

21 de fevereiro de 2020

Um estudo publicado em janeiro no periódico Science Advances [1] sugere que a desnutrição proteica materna aumenta a suscetibilidade à síndrome congênita causada pelo vírus Zika (SCZ). Os autores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colaboradores de outras instituições (brasileiras e internacionais) observaram esta correlação a partir da análise de dados epidemiológicos do surto da doença no Brasil e por meio de experimentos em modelos animais.

A Dra. Patrícia Pestana Garcez, biomédica, professora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da UFRJ e uma das autoras da pesquisa, falou ao Medscape sobre o trabalho.

Estudos mostram que entre 6% e12% das gestações em que a mãe foi infectada pelo vírus Zika resultam em SCZ. [2] Além disso, a distribuição assimétrica dos casos pelo Brasil, com algumas regiões concentrando mais notificações do que outras, ainda permanece um mistério. No entanto, a pesquisa publicada no periódico Science Advances mostra que a alimentação parece ser um dos fatores por trás dessa assimetria.

Ao analisar os dados do Ministério da Saúde sobre os casos de microcefalia confirmados entre 2015 e 2018, bem como os registros de admissão hospitalar por desnutrição entre 2009 e 2018 em todo o país, os pesquisadores identificaram uma correlação positiva. Os resultados mostram que os estados com mais casos de desnutrição ao longo da última década também apresentaram mais pacientes com microcefalia.

A segunda parte da análise epidemiológica envolveu entrevista com 83 mães de crianças com SCZ do estado do Ceará. O objetivo foi investigar a alimentação dessas mulheres durante a gestação. Os autores identificaram que 37,5% das participantes tiveram consumo proteico < 61 g/dia, o que foi considerado insuficiente.

A Dra. Patrícia explicou que o consumo proteico médio das mulheres avaliadas no estudo foi inferior à média da Região Nordeste. “A orientação para um adulto é consumir diariamente cerca de 1 g de proteína/kg por dia, ou seja, uma mulher de 60 kg precisa consumir 60 g de proteína por dia, o que é facilmente alcançado com três refeições diárias contendo uma porção de carne no almoço, por exemplo”, explicou a biomédica.

“A pesquisa revelou uma realidade distante da classe média; é um cenário de precariedade que médicos que trabalharam com essas mães já haviam reportado. As ilhas de microcefalia estão localizadas predominantemente em áreas com índice de desenvolvimento humano (IDH) muito baixo, onde o principal componente da dieta é o carboidrato, ou seja, se consome muito arroz, farinha, macarrão e ultraprocessados”, destacou.

Os pesquisadores também fizeram experimentos em modelos animais. “A análise epidemiológica revelou uma correlação positiva entre a SCZ e uma dieta hipoproteica. Com os testes em camundongos, conseguimos identificar que também há uma relação de causalidade”, explicou a autora.

Na análise experimental, fêmeas de camundongos imunocompetentes foram mantidas em dieta controle (com quantidade de proteína padrão) ou dieta hipoproteica de 7 a 10 dias antes de cruzar e durante toda a gestação.

Após isolar o vírus Zika, os autores replicaram-no em células de mosquito (Aedes albopictus C6/36), e o material produzido por essas células foi usado para inocular os camundongos. Células de mosquitos sem o vírus Zika foram usadas como controle.

Com isso, a equipe trabalhou com quatro grupos: (1) animais com dieta controle sem o vírus Zika; (2) animais com dieta controle com o vírus Zika; (3) animais com dieta hipoproteica sem o vírus Zika e (4) animais com dieta hipoproteica com o vírus Zika.

Os resultados mostram que a combinação de restrição proteica e infecção por vírus Zika levou a alterações graves na estrutura placentária e no crescimento do embrião, com a prole apresentando redução na neurogênese e microcefalia.

Análises moleculares identificaram ainda uma desregulação na expressão de genes associados ao desenvolvimento cerebral em camundongos cujas mães foram infectadas por vírus Zika e consumiram dieta hipoproteica.

Segundo a Dra. Patrícia, os camundongos imunocompetentes apresentaram uma resposta imune robusta através da ativação da via de interferon tipo 1 (IFN1) na presença do vírus Zika que controla rapidamente esse patógeno. “Isso não ocorre de forma tão eficiente nos humanos, pois o vírus é capaz de antagonizar a resposta do IFN1 e, portanto, os humanos são mais suscetíveis ao vírus Zika”, disse.

Por conta desse mecanismo do sistema imune, explicou a especialista, as fêmeas que fizeram a dieta controle e foram infectadas com o vírus Zika não transferiram o vírus para a prole. No entanto, o grupo que recebeu a dieta hipoproteica tornou-se mais suscetível à infecção e a transmissão vertical ocorreu pela barreira placentária, com acometimento do feto. A expressão gênica alterada no cérebro indicou ainda que também ocorreram outros sinais, além da microcefalia, característicos da SCZ.

“No grupo que recebeu a dieta controle e foi infectado pelo vírus Zika, os filhotes nasceram sem microcefalia, o que era esperado entre os camundongos imunocompetentes. A análise do baço mostrou que, após três dias da inoculação do vírus, a carga viral já estava indetectável neste grupo. Por outro lado, o grupo que recebeu dieta hipoproteica apresentou uma carga viral alta, que permaneceu elevada por mais de três dias depois da inoculação do vírus. Além disso, detectamos necrose placentária”, explicou a Dra. Patrícia.

Os resultados, segundo a pesquisadora, indicam que a desnutrição muito provavelmente altera o sistema imune da fêmea, permitindo a passagem do vírus pela barreira placentária.

“Ainda são necessários mais estudos para confirmar essa hipótese, bem como mais investigações epidemiológicas, ampliando o número de ilhas de microcefalia avaliadas”, afirmou.

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