COMENTÁRIO

Profissão ameaçada: evasão da medicina

Dr. Daniel E. Choi

Notificação

19 de fevereiro de 2020

"E ai cara, só queria que você fosse um dos primeiros a saber que eu pedi demissão do hospital e estou cumprindo aviso prévio. Estou pensando em fazer um MBA executivo..."

Eu li duas vezes esse texto chocante de um colega cirurgião ortopédico que também é um amigo próximo. O que? Ele vai sair?

Tínhamos acabado de cumprir cinco anos "nas galés" da residência de cirurgia ortopédica, um ano de especialização e acabávamos de fazer a prova para obter o título de especialista. Agora deveríamos estar nas nuvens. Tudo do que precisamos abdicar: gastamos nossos 20 anos trancados na biblioteca, fazendo plantão sem parar nos fins de semana e feriados. Fizemos isso para ter o privilégio de algum dia ser cirurgiões dos nossos próprios pacientes.

Liguei pra ele na hora e ele confirmou minhas suspeitas sobre por que estava indo embora. Como médico contratado por um hospital, ele sentiu que infelizmente estava virando uma peça na engrenagem, um "provedor" gerando unidades de valor relativo. Gestores que nunca tinham feito um dia sequer de residência ou mesmo colocado os pés no seu consultório queriam dar "orientações" sobre como ele deveria exercer a medicina. No fim das contas, ele achou que a medicina era um barco furado, no qual os médicos estavam perdendo autonomia rapidamente, e que este é um caminho que leva direto para o burnout.

Eu achei que deveria compartilhar isso com todo o "Twitterverso".

O tuíte viralizou e ficou claro que eu atingi alguma coisa. Eu toquei em um ponto nevrálgico para muitos dos meus colegas médicos. Surpreendentemente, muitos médicos foram empáticos com o meu amigo, e não o culparam por procurar uma carreira gratificante em outra área. Alguns médicos até acharam que ele estava fazendo a coisa certa.

Eu estava ficando realmente curioso. Em seguida eu fiz uma enquete no Twitter: "Médicos, vocês estão arquitetando como se aposentar mais cedo ou considerando formas de largar a medicina em um futuro próximo?" Sessenta e cinco por cento dos médicos que responderam estavam considerando uma saída precoce da medicina.

O resultado desta enquete foi coerente com a minha observação de que os grupos on-line sobre a aposentadoria precoce dos médicos só fazem aumentar. O Physician Side Gigs no Facebook, que tem por finalidade ajudar "os médicos interessados em oportunidades fora do atendimento clínico tradicional (...) como uma forma de complementar ou até mesmo substituir sua renda", tem mais de 50.000 membros. Outro grupo no Facebook, os Physicians on FIRE, destina-se a ajudar os médicos a "alcançar independência financeira e se aposentar mais cedo", e tem mais de 4.000 membros.

É difícil determinar se esses médicos em busca da antecipação da aposentadoria estão apenas fazendo reclamações vazias ou se estão realmente planejando uma estratégia de saída. Muitos médicos que responderam à enquete do Twitter esclareceram que adoravam tratar e ajudar os seus pacientes, mas que estava muito difícil lidar com o sistema. Será que todos esses médicos realmente querem abandonar a medicina? O que isso significa para a nossa iminente falta de médicos? Por que tantos de nós têm o desejo de sair?

Depois dessa enquete, ocorreram muitas conversas com médicos desiludidos. Nestas conversas, idenfiquei várias razões comuns que têm levado os meus colegas a abandonar a medicina.

Desvalorização do médico de todas as maneiras

A desvalorização parece estar ocorrendo em muitas frentes, de acordo com minhas conversas on-line com os médicos. Há o uso do termo "provedor" para substituir "médico", que a maioria de nós considera ofensivo.

Provedores de nível médio, que são mais baratos de contratar para os sistemas de saúde estão substituindo os médicos. A remuneração pelos planos de saúde está em queda. Nos Estados Unidos, "especialistas" em política de saúde culpam injustamente os médicos pelo aumento dos custos da saúde e levaram os legisladores a encontrar formas de diminuir ainda mais a remuneração do médico. Há menos lugares para os médicos interagirem nos hospitais, como o estar médico ou as salas de jantar, que serviam como espaços importantes para os médicos se lamentarem e colaborarem.

De modo geral, sinto muita decepção e raiva entre os médicos sobre o que muitos acham que é uma desconsideração crescente do enorme sacrifício que os médicos fizeram para completar sua formação. Os médicos cada vez mais se arrependem de ter ficado todo esse tempo longe da família ou deixado de lado seus interesses pessoais e hobbies durante a faculdade e a residência.

O mais chocante para mim, no entanto, é que os médicos que falam dessa desvalorização muitas vezes são rotulados de "gananciosos" pelos "especialistas" em política de saúde, pela imprensa e até mesmo por colegas (geralmente em fases mais avançadas da carreira).

Perda da autonomia e de oportunidades independentes

Pessoalmente, eu sempre quis ser meu próprio patrão e eu soube bem no início da minha formação que eu queria ter meu consultório particular. Eu pensei que o consultório me permitiria o isolamento de muitas das forças que levaram o meu colega cirurgião ortopédico a abandonar a medicina.

A minha escolha não é o caminho mais popular, no entanto, dado que o número de médicos millennials que estão abrindo consultório caiu muito na última década. De acordo com a enquete Medscape's Residents Salary & Debt Report 2019 , 22% dos residentes dizem que pretendem abrir consultório ou serem sócios de uma clínica. De acordo com uma pesquisa realizada pela Physicians Foundation and Merritt Hawkins , apenas 31,4% dos médicos se identificaram como proprietários ou sócios de um consultório em 2018. Em 2012, os médicos autônomos constituiam 48,5% de todos os médicos nos EUA.

A pesquisa revelou ainda que 58% dos médicos não acham que o emprego no hospital seja uma tendência positiva e concluiu que "muitos médicos são ambivalentes sobre o modelo de atendimento utilizado, mesmo que tenham optado por participar dele, talvez temendo que o emprego nos hospitais leve à perda da autonomia clínica e administrativa".

Eu costumava me perguntar por que cada vez mais colegas meus escolhiam não fazer consultório particular como opção de carreira e por que tantos preferiam ter um emprego no hospital. Uma frase que vi no Twitter resume tudo: "Fazer consultório não é mais sobre rentabilidade, é sobre sustentabilidade financeira". Com a maior consolidação nos sistemas de saúde, os médicos independentes perderam muito poder de barganha ao tentar negociar preços justos com os planos de saúde.

Além disso, os custos da compra de um prontuário eletrônico e a contratação de uma equipe para lidar com as autorizações de procedimentos e o faturamento do consultório tornaram essa opção extremamente difícil. Se existissem mais oportunidades no consultório particular, tenho certeza que meus colegas millennials gostariam de ter um, para manter sua independência. No entanto, as oportunidades de prática autônoma continuam diminuindo, e os médicos millennials podem ser pressionados a aceitar os únicos empregos disponíveis: vagas em hospitais com possíveis restrições à sua autonomia.

A sua carreira vale a sua vida?

Em média, um médico dá fim à própria vida por dia nos Estados Unidos. Os médicos cometem suicídio duas vezes mais que a população geral, e mais de um milhão de pacientes perdem seus médicos para o suicídio todos os anos. A Dra. Pamela Wible, que estudou 1.363 suicídios de médicos, disse que "a medicina de linha de montagem mata os médicos" e que "a pressão das operadoras de saúde e os mandados judiciais esmagam ainda mais as almas dessas pessoas talentosas que só querem ajudar os seus pacientes".

Há apenas alguns meses, o diretor da minha especialidade me mandou um e-mail sobre um jovem cirurgião ortopédico que tinha se suicidado, Dr. Thomas Fishler. O Dr. Thomas era conhecido por ser um brilhante cirurgião que os colegas e os pacientes amavam, e deixou uma filha pequena. O diretor da minha especialidade disse no e-mail: "Eu sei que você tem consciência dos riscos aos quais a nossa profissão nos expõe."

Muitos médicos estão pedindo ajuda e ninguém está ouvindo. Infelizmente, alguns acham que a única saída é morrer.

O suicídio médico é dilacerante e revela a crise. O que está levando médicos brilhantes ao extremo? Eu acredito que esta é mais uma prova da articulação de pressões externas que estão tornando a prática da medicina cada vez mais intolerável. Muitos médicos estão pedindo ajuda e ninguém está ouvindo. Infelizmente, alguns acham que a única saída é morrer.

Sinto calafrios enquanto afasto o pensamento rapidamente da minha mente: Estou correndo esse risco? Todos os médicos passam por dias difíceis, mas eu nunca cheguei nem perto de pensar em suicídio. Mas, falando sério, será que realmente vale a pena – mesmo que o risco seja baixo – me expor à possibilidade de ficar tão infeliz?

Estamos na iminência de uma crise?

O médico millennial médio termina sua formação, olha em volta e vê a sua profissão em pleno caos. O burnout vem a galope. Médicos suicidam-se todos os dias. Muitos se sentem extremamente infelizes pela falta de autonomia e a perda de status. O médico começa a olhar bem para a carreira na qual está prestes a embarcar e começa a ter sérias dúvidas. Então se lembra da dívida do crédito estudantil, cuja média em 2018, de acordo com a AAMC , era de 198.000 dólares para a medicina. A essa altura não há mais saída; mesmo que o seu trabalho te faça infeliz, você você vai aguentar porque está endividado.

E é aqui que eu começo a ficar seriamente preocupado. Teremos uma geração inteira de formandos em medicina que irá enfrentar forças que nunca existiram na área antes. E estas forças estão ativamente prejudicando e comprometendo a integridade psíquica de alguns dos meus colegas.

Sei que os meus colegas millennials são extremamente resilientes e casca grossa, como todas as gerações de médicos no passado, mas, por quanto tempo eles vão abaixar a cabeça e combater estas forças ameaçadoras antes de decidirem que basta e abandonarem o barco, como meu colega cirugião ortopédico fez?

Esperança no ativismo para evitar a crise

Não levem a mal – fazer medicina ainda é o maior privilégio, e eu sei que cada um dos meus colegas médicos millennials ama os seus pacientes. Sinto-me honrado por meus pacientes confiarem em mim para livrá-los da sua dor e do seu sofrimento no centro cirúrgico. Eu estudei e me capacitei durante 14 anos para me tornar um cirurgião ortopédico especialista em coluna; não vou abrir mão desse privilégio assim tão fácil. E nem a maioria dos médicos millennials.

Os millennials podem considerados pretensiosos, mas muitos de nós encara isso como "facilidade de se defender e questionar ostatus quo." Eu acredito que os médicos millennials não vão aceitar calados as coisas como elas estão.

Eu vejo muitos médicos millennials ativistas fervorosos, tornando-se ativos nas organizações como a Medical Society of the State of New York ou a American Medical Association. Estas organizações já fazem um excelente trabalho de defesa dos interesses médicos, e a minha previsão é que os médicos millennials irão se tornar uma força poderosa dentro dessas organizações para proteger a sua profissão. Através de uma voz unificada, a organização da medicina é verdadeiramente a nossa maior esperança na efetivação das alterações no sistema que podem evitar mais médicos sofrendo desmoralização e burnout.

Nós não estamos desistindo ainda. A crise pode ser evitada. Nossos pacientes e a nossa profissão dependem disso.

Dr. Daniel E. Choi é cirurgião ortopédico, especialista em coluna vertebral, com título de especialista, e trabalha no Long Island Spine Specialists, P.C. Ele é o atual presidente da Young Physicians Section for the Medical Society of the State of New York, nos Estados Unidos. Você pode encontrá-lo no Instagram ( @spinedocny ) ou no Twitter ( @drdanchoi ).

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