Efeito da psilocibina em pacientes com câncer parece perdurar após cinco anos

Nancy A. Melville

Notificação

12 de fevereiro de 2020

Pacientes com câncer tratados com dose única de psilocibina combinada com psicoterapia mostraram benefícios significativos nas medidas de sofrimento emocional e existencial quase cinco anos após o tratamento, indicam novas pesquisas.

Além de relatarem aumento da sensação de bem-estar ou satisfação com a vida, alguns pacientes consideraram o tratamento como "uma das experiências com maior impacto pessoal e significado espiritual de suas vidas", disseram os autores.

Este é o estudo de maior duração até o momento avaliando os efeitos da psilocibina no tratamento de quadros psiquiátricos associados ao câncer, e foi publicado on-line em 09 de janeiro no periódico Journal of Psychopharmacology.

Os pacientes participaram de um ensaio randomizado e controlado por placebo publicado em 2016, que foi noticiado pelo Medscape à época.

Os novos achados sobre o benefício em longo prazo se somam "à literatura emergente que sugere que o tratamento com psilocibina pode aumentar a sensação de bem-estar psicológico, emocional e espiritual de pacientes com câncer potencialmente fatal", comentaram os autores.

"Essa abordagem pode causar uma mudança de paradigma no cuidado de questões psicológicas e existenciais de pacientes com câncer, especialmente daqueles com doença terminal", acrescentou o primeiro pesquisador, Dr. Stephen Ross, médico e professor associado de psiquiatria no Departamento de Psiquiatria da NYU Langone Health, nos Estados Unidos, em um comunicado de imprensa.

"Esses achados têm implicações significativas para o tratamento clínico do sofrimento existencial associado ao câncer", escreveram os autores.

A psicoterapia assistida por psilocibina pode se tornar a primeira intervenção farmacológica conduzida empiricamente para tratar esses pacientes.

Na medicina ocidental, o sofrimento existencial é pouco reconhecido e subtratado em pacientes com câncer, explicaram os autores. A depressão e o desolamento associados ao diagnóstico de câncer podem ser estressores graves e são reconhecidos fatores de risco de suicídio.

"A possível rapidez e extensão dos efeitos do tratamento com psilocibina compõem uma estratégia protetora promissora contra o suicídio", escreveram os autores.

Efetividade ímpar?

A psilocibina, o componente ativo dos "cogumelos mágicos", tem sido estudada como um tratamento para vários tipos de depressão, mas a substância parece ter uma efetividade ímpar no tratamento da depressão associada ao câncer, disse o Dr. Matthew W. Johnson, Ph.D., da Johns Hopkins University School of Medicine, nos Estados Unidos.

O Dr. Matthew, que também é professor associado da Behavioral Pharmacology Research Unit, não participou do estudo em pauta, mas conduziu sua própria pesquisa sobre o uso da psilocibina em pacientes com câncer.

"Este tratamento tem uma maneira de acessar questões existenciais que são o cerne do sofrimento psicológico que pode acompanhar o câncer", disse ao Medscape o Dr. Matthew.

"Dito isto, nós e outros pesquisadores estamos encontrando resultados positivos para a depressão além do câncer", continuou ele.

"Não temos pesquisas suficientes para comparar populações de maneira confiável, mas minha impressão é que o efeito da redução da depressão será maior para pacientes com câncer do que para aqueles sem câncer."

O Dr. Matthew comentou que as novas descobertas são semelhantes ao que ele observou em seus pacientes.

"Meu laboratório tem sido contatado informalmente por muitos dos 51 pacientes que participaram do nosso estudo sobre o uso da psilocibina em pessoas com câncer, alguns desses pacientes tratados há mais de cinco anos, alegando que ainda percebem reduções duradouras da depressão e da ansiedade", disse ele.

"Portanto, é valioso haver uma avaliação formal como esta nova publicação."

Uma ressalva importante em relação à sua própria pesquisa e ao estudo em pauta é que os trabalhos foram duplo-cegos apenas até cerca de um mês antes do crossover, explicou o Dr. Matthew.

"Portanto, embora os novos resultados descritivos a longo prazo sejam valiosos e sugestivos, não podemos excluir a possibilidade de que o placebo e outros efeitos ligados à expectativa tenham – pelo menos parcialmente – influenciado os resultados", alertou.

Embora os resultados do estudo prolongado não sejam surpreendentes para o Dr. Matthew, ele disse que provavelmente surpreenderão muitos pesquisadores.

"E deveriam mesmo", disse ele. "Estes resultados são um divisor de águas para a psiquiatria, na minha opinião."

Maior tempo de acompanhamento

O estudo original incluiu 29 pacientes que referiram estar passando por estresse psiquiátrico e existencial associados ao câncer. Eles receberam uma dose de psilocibina (0,3 mg/kg) ou uma dose de niacina (250 mg), além de nove sessões de psicoterapia. Os grupos trocaram de tratamento entre si após sete semanas no estudo duplo-cego.

Os resultados mostraram que os pacientes que receberam psilocibina relataram melhora no sofrimento psiquiátrico e existencial, na qualidade de vida e no bem-estar espiritual.

Em uma consulta de acompanhamento realizada seis meses e meio após o tratamento, 60% a 80% dos pacientes continuaram a atender aos critérios de respostas antidepressivas ou ansiolíticas com significância clínica.

Não houve eventos adversos graves relacionados com a psilocibina e não houve relatos de abuso do ou adição à substância.

O novo estudo mostrou benefícios em longo prazo em 16 pacientes (dos 29 que ingressaram no estudo) que concordaram em participar de duas avaliações adicionais de acompanhamento em média de 3,2 anos e 4,5 anos após o tratamento com psilocibina. Um paciente morreu por causas relacionadas com o câncer após a primeira das duas avaliações do acompanhamento de longo prazo.

A média de idade dos participantes foi de 53 anos no primeiro acompanhamento de longo prazo; 60% eram mulheres.

O estudo mostrou reduções sustentadas (em comparação com o início) da ansiedade, depressão, desolamento, desmoralização e ansiedade da morte em ambos os acompanhamentos de longo prazo, com grandes efeitos dentro dos grupos nos dois momentos.

Especificamente, no segundo acompanhamento de longo prazo de 4,5 anos, mais da metade (57%) dos participantes apresentou respostas clinicamente significativas na Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS) para ansiedade, e 71% relataram redução significativa do sofrimento psíquico global na pontuação total da HADS, que mede ansiedade e depressão.

Além disso, as respostas clínicas para depressão na HADS e na Escala de Depressão de Beck variaram de 57% a 79%.

As taxas de remissão dos sintomas de depressão variaram de 50% a 79% no acompanhamento de 4,5 anos.

Status de remissão do câncer

Os pacientes deste estudo tinham vários tipos de câncer, como ginecológico (33%), de mama (20%) e linfomas (20%). Ao final do estudo original, 60% foram diagnosticados com doença em estágio inicial (I-II) e 53% foram diagnosticados com doença em estágio avançado (III-IV).

Cabe destacar que no segundo acompanhamento de longo prazo, 71% dos pacientes relataram que o câncer havia entrado em remissão parcial ou completa.

"Essa é uma variável importante. No entanto, controlamos para esse fator e descobrimos que o status de remissão do câncer não tem interação, com significância, com nenhuma das mudanças nos desfechos, como ansiedade, depressão, angústia existencial etc.", disse ao Medscape, a pesquisadora Gabrielle Agin-Liebes, doutoranda da Palo Alto University, nos EUA.

Além disso, aproximadamente metade (53%) dos participantes relatou que já tinha usado um psicodélico em uma ou mais ocasiões, o que Gabrielle disse ser maior que na amostra nacional, com uma taxa de apenas 20%.

"O significado disso não está claro", disse ela. "Nossa amostra pode ter sido um pouco tendenciosa para pessoas que já haviam usado um psicodélico, e isso pode indicar que essas pessoas podem estar mais abertas a experimentar esse tipo de terapia", explicou ela.

"Seria fundamental recrutar um número suficiente de pessoas que nunca usaram algum psicodélico antes em uma amostra maior para olhar essa questão mais de perto, como moderador de desfechos terapêuticos", comentou ela.

Psilocibina pode induzir "estado cerebral flexível"

A psilocibina é um alucinogênio serotoninérgico que atua como agonista do receptor 5-hidroxitriptamina 2A. Embora os mecanismos por trás de seus efeitos em longo prazo na depressão associada ao câncer ainda não sejam bem compreendidos, uma das principais teorias refere a alteração na maneira como o cérebro processa informações e forma percepções, explicou Gabrielle.

"A teoria mais convincente e cientificamente fundamentada refere-se ao potencial da psilocibina em induzir um estado cerebral flexível, especialmente nas pessoas com estados cerebrais mais rígidos", disse ela.

"Os psicodélicos parecem relaxar os padrões tendenciosos de processamento de informações e de crenças do cérebro, e permitem que mais informações de 'baixo para cima' entrem na consciência da pessoa", disse Gabrielle, citando uma pesquisa que descreveu essa teoria.

O estudo foi financiado pela Source Research Foundation. O estudo anterior foi subsidiado por doações de Heffter Research Institute, RiverStyx Foundation e New York University–Health and Hospitals Corporation Clinical and Translational Science Institute. O ensaio clínico também recebeu contribuições de William Linton, Carey e Claudia Turnbull e Efrem Nulman. Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes. O Dr. Matthew W. Johnson prestou consultoria para o desenvolvimento de possíveis medicamentos com psicodélicos para as empresas Beckley Psychedelics Ltd, Entheogen Biomedical e Otsuka Pharmaceutical Development and Commercialization.

J. Psychopharmacol. Publicado on-line em 09 de janeiro de 2020. Abstract

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