Pesquisadores brasileiros propõem escala de avaliação do risco de depressão na adolescência

Maurício Brum

Notificação

11 de fevereiro de 2020

Pesquisadores liderados por médicos do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) elaboraram uma ferramenta para estimar o risco de depressão em adolescentes entre 15 e 18 anos de idade. A ideia é seguir o exemplo de outras especialidades, como a cardiologia, e combinar diferentes variáveis em um cálculo, permitindo que se chegue a uma pontuação de risco de acordo com as particularidades de cada um.

Originalmente, o estudo publicado com acesso aberto no periódico Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry[1], analisou dados de adolescentes nascidos em 1993 na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, que vêm sendo acompanhados por pesquisadores locais por meio de avaliações periódicas desde então. O acompanhamento para o trabalho em pauta está sendo feito pelo HCPA em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

A partir de uma base inicial de 5.249 jovens incluídos na coorte dos nascidos em 1993, 2.192 adolescentes foram selecionados em função da qualidade dos dados disponíveis e por não terem recebido diagnóstico de transtorno mental até os 15 anos.

"Acreditamos que não seria tão útil desenvolver um escore de risco para quem já tem algum transtorno, porque essa pessoa já teria algum cuidado. Por isso, desenvolvemos uma ferramenta para indivíduos assintomáticos até os 15 anos", explicou o Dr. Christian Kieling, psiquiatra e professor de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que liderou o estudo.

A partir dessa amostra de adolescentes sem diagnóstico de depressão aos 15 anos, os pesquisadores então compararam com os dados dos mesmos jovens coletados três anos mais tarde, aos 18 de idade, de modo a mensurar quantos deles haviam desenvolvido a doença nesse intervalo.

Considerando os múltiplos fatores de risco estimados para a coorte de nascidos em 1993, foi desenvolvido um algoritmo combinando as informações de 11 variáveis sociodemográficas sobre as quais havia dados compilados:

  • Sexo biológico e cor da pele (características inerentes);

  • uso de drogas, problemas escolares, isolamento social e envolvimento em brigas (indicadores de comportamento problemático); e

  • problemas de relacionamento com a mãe, problemas de relacionamento com o pai, problemas de relacionamento entre os pais, maus-tratos na infância e fuga do lar (marcadores de disfunção em casa).

"O resultado é um modelo matemático complexo, no qual prevalência, grau de associação e de interação são levados em conta; mas nem tudo tem peso igual a um. É uma soma ponderada de acordo com a importância de cada fator de risco", explicou o Dr. Christian.

As variáveis sociodemográficas, uma vez agregadas e aplicadas à ferramenta desenvolvida pelos pesquisadores, geram um escore que equivale a uma estimativa de risco para o indivíduo analisado. O mesmo método, replicado, poderia servir de base para avaliar a possibilidade de outros jovens de 15 anos apresentarem um quadro depressivo até os 18 anos.

"Na área da psiquiatria já haviam sido feitos alguns escores de risco para psicose, mas nada para depressão focada em adolescentes. O que existia eram escores para prever qual paciente pioraria no futuro", afirmou o Dr. Christian.

"A importância de criar um escore de risco específico para o desenvolvimento da depressão na adolescência está relacionada com o fato de este ser o período em que o transtorno costuma aparecer", destacou.

Identificar as chances de desenvolver a doença nessa faixa etária também possibilita a elaboração de estratégias mais eficientes de prevenção. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas tenham depressão no mundo; e, em muitos casos, quando o transtorno não é devidamente tratado, os pacientes acabam tirando a própria vida. Entre os mais jovens, o impacto é substancial: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 24 anos, superada apenas por acidentes de trânsito.

"Esperamos que avançando na identificação precoce da depressão na adolescência possamos reduzir o impacto negativo que esse transtorno tem ao longo de todo o ciclo de vida", disse o Dr. Thiago Rocha, psiquiatra do HCPA e coautor do trabalho.

Para avaliar a replicabilidade da ferramenta, os pesquisadores compararam os dados dos 2.192 jovens brasileiros com uma amostra de 1.144 pré-adolescentes britânicos de 12 anos (não havia dados semelhantes para os de 15 anos) e outra de 739 adolescentes neozelandeses de 15 anos. A capacidade preditiva do escore não foi tão forte nas amostras internacionais quanto na brasileira, algo que os pesquisadores consideraram como estando dentro do esperado.

"Precisamos fazer ajustes, mas conseguimos agregar informação nessas outras coortes. É importante analisar o desempenho da escala em diferentes contextos, dado que a prevalência dos fatores de risco varia em cada um deles", disse o Dr. Christian, recordando que ferramentas similares usadas em outras especialidades, como o Escore de Framingham para estratificar o risco cardiovascular, também passam por adaptações contextuais. Segundo o psiquiatra, os pesos das 11 variáveis podem ser calibrados para tornar a capacidade preditiva mais eficiente dentro da realidade de cada lugar.

"O próximo passo é replicar no maior número de estudos com dados coletados longitudinalmente para entender melhor a variabilidade ao redor do mundo", projetou Dr. Christian. Outros estudos de coorte no Nepal e na Nigéria estão sendo realizados com a mesma ferramenta.

Além de novas aplicações internacionais do escore de risco, a equipe do Programa de Depressão na Infância e na Adolescência (ProDIA) do HCPA recentemente recrutou novos participantes, agora em Porto Alegre. Após analisar 7,7 mil adolescentes da rede estadual de ensino da capital gaúcha, os pesquisadores selecionaram 150 jovens com base no escore de risco. Agora, eles farão avaliações mais aprofundadas, que incluem exames de neuroimagem e testes de marcadores biológicos em sangue e saliva, com o objetivo de refinar ainda mais a capacidade preditiva da nova ferramenta.

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