Bebês expostos ao vírus Zika que parecem normais ao nascer podem evoluir com problemas

Megan Brooks

Notificação

22 de janeiro de 2020

Nova York (Reuters Health) — Lactentes expostos ao Zika antes do nascimento, mas sem a síndrome congênita causada pelo vírus têm risco de retardo do desenvolvimento neurológico enquanto crescem, revela novo estudo.

"Este estudo corrobora as recomendações da instituição Centers for Disease Control and Prevention (CDC) norte-americana para que seja feito o acompanhamento prolongado de todos os recém-nascidos expostos in utero ao vírus Zika, não somente daqueles com manifestações da síndrome congênita ao nascer", disseram a Dra. Sarah Mulkey, médica do Children's National Hospital, nos Estados Unidos, e colaboradores.

"Os retardos do desenvolvimento neurológico podem ser leves e subclínicos, e influenciar várias áreas de desenvolvimento. Sem uma avaliação padronizada, a ocorrência de alterações pode não ser detectada, e as oportunidades de otimizar a intervenção precoce no desenvolvimento podem ser perdidas," disseram os autores no periódico JAMA Pediatrics.

Os pesquisadores descreveram os desfechos do desenvolvimento neurológico aos 18 meses de idade em uma coorte de 70 lactentes colombianos com exposição ao vírus Zika in utero confirmada laboratorialmente, ressonância magnética (RM) e ultrassonografia (US) fetais normais e sem indícios de síndrome congênita do vírus Zika ou microcefalia ao nascer.

"Assim, esperava-se que essas crianças tivessem baixo risco de déficits subsequentes do desenvolvimento neurológico, no entanto, estes déficits surgiram no primeiro ano de vida, sem a redução do perímetro cefálico", disseram os pesquisadores.

Embora muitos lactentes inicialmente tenham tido pontuação normal de desenvolvimento neurológico (começando aos quatro meses de idade), com o crescimento a pontuação global diminuiu em algumas crianças, com maior diminuição observada nos domínios da mobilidade e da cognição social, o que poderia indicar comprometimento do desenvolvimento neurocognitivo, observaram os pesquisadores.

Achados inespecíficos em exames imagem neurológicos após o nascimento, como vasculopatia lentículo-estriada, cistos germinolíticos ou subependimários e cistos no plexo coroide, foram associados a menor pontuação no domínio da cognição social, e "são possíveis fatores de risco de piores desfechos no desenvolvimento neurológico inicial", o observaram os autores, acrescentando: "Até onde sabemos, este estudo é o primeiro a mostrar que estes achados inespecíficos nos exames de imagem podem indicar lesões cerebrais sutis potencialmente associadas ao comprometimento do desenvolvimento neuromotor."

No e-mail à Reuters Health, a Dra. Sarah disse que, "os profissionais de saúde devem continuar a indagar as pacientes sobre a exposição ao vírus Zika, e conversar sobre o risco de alterações no desenvolvimento neurológico em todos os recém-nascidos e lactentes expostos. Toda criança com história de exposição in utero ao vírus Zika deve continuar a fazer avaliações do desenvolvimento neurológico até a idade escolar, mesmo que a criança pareça normal e esteja bem. Continuamos aprendendo sobre as consequências tardias para as crianças da exposição in utero ao vírus Zika".

Os autores do editorial que acompanha o estudo disseram que os achados nesta coorte "agregam ao corpo de evidências cada vez maior sobre a necessidade do acompanhamento prolongado de todas as crianças com exposição in utero ao vírus Zika, para assegurar que façam as avaliações clínicas recomendadas, mesmo quando não forem identificados defeitos estruturais ao nascer".

"Embora o significado clínico desses achados inespecíficos ainda não esteja claro, a importância dos exames de imagem neurológica após o nascimento para todas as crianças com exposição in utero ao vírus Zika ficou inequívoca", escreveram Dr. Margaret Honein e coautores dos CDC, nos EUA.

"A avaliação dos lactentes exclusivamente ao nascer é nitidamente insuficiente, dada a existência de um número cada vez maior de evidências de lactentes com avaliações clínicas normais, que mais tarde evoluem com problemas de desenvolvimento neurológico, e de lactentes com microcefalia diagnosticada ao nascer, cuja microcefalia resolveu e cujos resultados de avaliação do desenvolvimento neurológico foram normais durante o acompanhamento", acrescentaram.

Este estudo não teve financiamento comercial.

Fonte: https://bit.ly/37EpFWg e https://bit.ly/2rY5zab

JAMA Pediatrics on-line em 06 de janeiro de 2020.

Reuters Health Information © 2020

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