Ácido acetilsalicílico em idosos é associado a menos mortes

Liam Davenport

Notificação

9 de janeiro de 2020

ATUALIZADO COM COMENTÁRIOS em 12 de dezembro – Uma nova análise mostrou uma redução significativa da morte por todas as causas e por câncer entre pessoas mais velhas (> 65 anos) que tomaram ácido acetilsalicílico regularmente – em comparação com aquelas que não tomaram o medicamento.

"Esta observação foi válida para todas as causas de morte, no entanto, a maior redução do risco foi vista na mortalidade por câncer colorretal entre indivíduos que tomaram ácido acetilsalicílico pelo menos três vezes por semana", afirmaram os pesquisadores.

O risco de morte por todas as causas foi reduzido em 19%; por todos os tipos de câncer, em 15%; por câncer gastrointestinal, em 25%; e por câncer colorretal, em 29%.

Os resultados são provenientes de uma nova análise dos dados do ensaio clínico Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian (PLCO) Cancer Screening , que contou com mais de 145.000 participantes. O estudo foi financiado por doações do National Cancer Institute e da Stuart and Suzanne Steele MGH Research Scholarship.

Os novos resultados foram apresentados pela Dra. Holli A. Loomans-Kropp, Ph.D., Divisão de Prevenção de Câncer do National Cancer Institute, nos EUA, e colaboradores, que disseram que o impacto do ácido acetilsalicílico sobre o risco de morte parece ser modulado pelo índice de massa corporal (IMC).

"A eficácia do ácido acetilsalicílico como agente de prevenção do câncer parece estar associada ao IMC", eles escreveram. Os participantes que estavam abaixo do peso (IMC < 20 kg/m2) não tiveram benefício percebido associado ao uso de ácido acetilsalicílico, mas entre aqueles com IMC ≥ 20 kg/m2 o uso do medicamento foi associado a menor mortalidade. As maiores reduções do risco de morte foram observadas entre os indivíduos com um IMC mais alto (de 25 kg/m2 a 29,9 kg/m2).

O estudo foi publicado na edição de dezembro do periódico JAMA Network Open.

Os autores reconheceram que os seus achados precisam de "confirmação adicional", e disseram que a significativa redução da mortalidade associada ao uso de ácido acetilsalicílico contrasta com os resultados de outros estudos. No entanto, eles afirmaram que a descoberta sobre o impacto do IMC no efeito do ácido acetilsalicílico sugere que "o aumento das taxas de sobrepeso e de obesidade em todo o mundo podem alterar, de forma importante, a eficácia populacional dos profiláticos para prevenção do câncer".

Estudo recente mostrou maior mortalidade

As novas descobertas de uma redução significativa da mortalidade contrastam fortemente com dados recentes dos EUA e da Austrália, que mostraram maior mortalidade em indivíduos que fazem uso de ácido acetilsalicílico.

Esses dados são do estudo Aspirin in Reducing Events in the Elderly (ASPREE), que avaliou a eficácia de 100 mg de ácido acetilsalicílico em idosos nos EUA e na Austrália (participantes brancos: ≥ 70 anos; participantes negros ou hispânicos: ≥ 65 anos). Conforme relatado pelo Medscape, o estudo mostrou aumento da mortalidade por todas as causas e por câncer com o uso de ácido acetilsalicílico.

A Dra. Holli disse que as novas descobertas acrescentam "ao que já se sabe sobre o uso do ácido acetilsalicílico como mecanismo preventivo do câncer".

Ela continuou: "É algo que as pessoas devem ter em mente quando pensam em começar a tomar ácido acetilsalicílico, de acordo com as recomendações do médico ou com as recomendações que escolherem."

Em seus comentários sobre o estudo, o Dr. Michael N. Passarelli, Departamento de Epidemiologia da Geisel School of Medicine em Dartmouth, nos EUA, disse ao Medscape que os resultados do ASPREE foram "muito inusitados", e o estudo atual "favorece o que era de nosso conhecimento antes do ASPREE".

Ele disse que, com base no ASPREE e em dois outros estudos recentes, "houve revisões importantes das recomendações clínicas para o uso diário de ácido acetilsalicílico, especificamente entre os idosos".

No entanto, ele destacou que "ainda não está claro", e que o desenho do ASPREE e da análise em pauta foram bem diferentes.

"Esta análise é um estudo muito grande, que tem força por causa do tempo prolongado de acompanhamento dos pacientes e do tamanho da amostra: é muito maior que o ASPREE", disse ele.

O Dr. Michael continuou: "O trabalho apenas não tem a força de ter o ácido acetilsalicílico randomizado contra um placebo. Ele está analisando a ocorrência natural de relatos de uso de ácido acetilsalicílico pelos participantes, então há muitos outros fatores relacionados com a escolha do ácido acetilsalicílico que poderiam explicar esses resultados".

Ácido acetilsalicílico usado por vários motivos

Em uma entrevista ao Medscape, a Dra. Holli explicou que, para o estudo atual, sua equipe criou uma medida agregada do uso de ácido acetilsalicílico que poderia ser usada como uma medida longitudinal substituta.

"Colapsamos as variáveis de frequência do uso de ácido acetilsalicílico em (a) nenhum uso de ácido acetilsalicílico ou menos de uma vez por mês; (b) uma a três vezes por mês; (c) uma a duas vezes por semana; e (d) três ou mais vezes por semana", explicaram os pesquisadores no artigo.

Consequentemente, o uso de ácido acetilsalicílico pelos participantes do estudo pode ocorrer por várias razões diferentes.

"Pelo menos para a população norte-americana, o ácido acetilsalicílico está disponível facilmente, então as pessoas podem tomar o medicamento para o alívio de dor relativamente branda durante uma semana", disse a Dra. Holli.

"Pode ser que as pessoas estejam tomando ácido acetilsalicílico como método de prevenção do câncer, pois faz parte das recomendações da US Preventive Services Task Force (USPSTF)", afirmou ela. Mas também pode ser que os indivíduos estejam tomando ácido acetilsalicílico para reduzir o risco cardiovascular.

A USPSTF recomenda baixas doses de ácido acetilsalicílico para doenças cardiovasculares e prevenção de câncer colorretal em certas populações entre 50 e 59 anos de idade. No entanto, a força-tarefa também recomenda uma abordagem individualizada para pessoas de 60 a 69 anos, e observa que as evidências em indivíduos com pelo menos 70 anos são consideradas insuficientes.

Detalhes da nova análise

O ensaio clínico PLCO Cancer Screening foi feito de 1993 a 2001 em 10 centros nos EUA, e participantes entre 55 e 74 anos foram randomizados para o grupo de rastreamento ou para o de controle.

A análise atual avaliou participantes ≥ 65 anos no início do estudo ou que sobreviveram até 65 anos, e que tinham um questionário válido no início do estudo e relataram o uso de ácido acetilsalicílico.

O trabalho contou com 146.152 participantes, com média de idade ao início do estudo de 66,3 anos. Pouco mais da metade (51,1%) eram mulheres e 88,6% eram brancos não hispânicos.

Durante uma  mediana de acompanhamento de 12,5 anos, 40.419 participantes morreram, dentre eles, 12.421 morreram por algum tipo de câncer e 1.425 morreram por câncer gastrointestinal (814 por câncer colorretal; 353 por câncer de esôfago; e 258 por câncer de estômago).

A equipe descobriu que o uso de ácido acetilsalicílico foi associado à redução das mortes por todas as causas e por câncer.

Especificamente, o uso de ácido acetilsalicílico de uma a três vezes por mês foi associado a redução das mortes por todas as causas em comparação com não tomar o medicamento (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,84; P < 0,001), bem como das mortes por câncer (HR de 0,87; P < 0,001).

O uso de ácido acetilsalicílico três ou mais vezes por semana também foi associado à redução das mortes por todas as causas em comparação com não tomar o medicamento (HR de 0,81; P < 0,001) e das mortes por câncer (HR de 0,85; P < 0,001).

Além disso, o uso de ácido acetilsalicílico pelo menos três vezes por semana foi associado a uma redução significativa das mortes por câncer gastrointestinal em comparação com o grupo que não tomou o medicamento (HR de 0,75; P < 0,001) e câncer colorretal (HR de 0,71; P < 0,001).

Quando os pesquisadores estratificaram os participantes por IMC, eles descobriram que o impacto do uso do ácido acetilsalicílico pareceu ser maior em pessoas com sobrepeso.

Entre as pessoas com IMC de 20 kg/m2 a 24,9 kg/m2, o uso de ácido acetilsalicílico pelo menos três vezes por semana foi associado à redução das mortes por todas as causas em comparação com não tomar o medicamento (HR de 0,82; P < 0,001) e das mortes por câncer (HR de 0,86; P < 0,001).

Para indivíduos com IMC de 25 kg/m2 a 29,9 kg/m2, o uso de ácido acetilsalicílico pelo menos três vezes por semana foi associado à redução das mortes por todas as causas e das mortes por câncer em comparação com não tomar o medicamento (HR de 0,82 e 0,86, respectivamente; P < 0,001 para ambos).

Além disso, houve uma redução das mortes por câncer gastrointestinal (HR de 0,72; P < 0,001) e das mortes por câncer colorretal (HR de 0,66; P = 0,001) no grupo que fez uso de ácido acetilsalicílico pelo menos três vezes por semana.

O Dr. Michael comentou que os resultados sobre o IMC "não é o mais importante deste estudo".

"É difícil dizer se isso é realmente biológico ou uma consequência do fato de pouquíssimas pessoas idosas terem um IMC tão baixo, o que afeta a precisão em um estudo como este", explicou ele.

"A grande maioria (acima de 95% neste estudo) tinha um IMC > 20 kg/m2, e a associação ao ácido acetilsalicílico realmente parece bastante consistente nas categorias de IMC > 20 kg/m2", acrescentou.

O Dr. Michael acredita que, com base nas evidências atuais, "não está claro se as recomendações sobre o uso do ácido acetilsalicílico devem ser modificadas para levar em conta o peso ou o índice de massa corporal do paciente".

Ele disse que as pesquisas recentes têm mostrado que doses mais altas de ácido acetilsalicílico "podem ser necessárias os pacientes mais pesados".

"Eu acho que qualquer estudo futuro provavelmente exploraria muito mais isso, com uma abordagem de dosagem de ácido acetilsalicílico personalizada – uma dose específica de acordo com idade, peso e outras comorbidades – para ver se podemos, idealmente, encontrar o equilíbrio entre esses benefícios em longo prazo, e os danos imediatos relacionados com o sangramento gastrointestinal", disse o Dr. Michael.

JAMA Netw Open. 2019;2:e1916729. Texto completo

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