Um pé no centro cirúrgico e outro na aldeia

Roxana Tabakman

Notificação

7 de janeiro de 2020

Na aldeia Rio das Cobras a chamam de Krexu, que significa lua crescente. No centro cirúrgico do Instituto de Neurologia e Cardiologia (INC) de Curitiba, para falar com ela é preciso perguntar pela Dra. Myrian. Myrian Krexu Veloso Wisniewski, é filha de pai indígena e mãe branca, ou jurua, e transita com sucesso pelos dois mundos.

Ela está no quarto ano de especialização em cirurgia cardiovascular no INC, instituição de referência no atendimento de pacientes neurocirúrgicos, neurológicos e cardiológicos de alta complexidade na cidade paranaense de Curitiba. Trata-se de um centro de alta tecnologia, pioneiro na América Latina no uso de tecnologias como Gamma Knife ou ressonância magnética (RM) intraoperatória. E, neste local, ela é muito valorizada.

"Desde que começou a especialização em cirurgia cardíaca, a Dra. Myrian sempre demonstrou desempenho exemplar, tanto pela capacidade de trabalho como pelo interesse permanente em aprender", disse ao Medscape o Dr. Francisco Diniz Affonso da Costa, professor e chefe do serviço de cirurgia cardíaca do INC.

"Com certeza, terá um futuro brilhante como cirurgiã cardíaca."

Mesmo vivendo e trabalhando na cidade, no período de férias, Krexu sempre volta à aldeia de onde saiu. Com pouco mais de 3.000 habitantes, o povoado fica na margem esquerda do rio Guarani, em uma região atravessada por dois afluentes do rio Iguaçu, os rios da União e das Cobras. Krexu pertence ao povo guarani, mais especificamente ao mbyá guaraní, um grupo com cerca de 27.000 indivíduos distribuídos em várias aldeias por Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Na aldeia Rio das Cobras, no Paraná, os mbyá guaraní convivem com uma outra etnia, os kaingang. Krexu fala as duas línguas, além de português: guarani e kaingang.

Na aldeia onde foi criada, as pontes que conectam diferentes culturas vão além das etnias. "Há um ambulatório de atendimento médico e um pajé, líder espiritual que tem mais entendimento sobre chás e sobre ervas. Quando o pajé percebe que as patologias não podem ser resolvidas pela medicina natural, encaminha para o médico, para a medicina alopática. E a equipe de saúde da aldeia tem de saber respeitar e integrar os dois conhecimentos. Uma coisa não exclui a outra", disse a médica ao Medscape.

Sempre que está na aldeia, ela faz atendimento médico. "Para o indígena é muito importante ser atendido por uma pessoa igual a ele, há uma confiança maior na relação médico-paciente, especialmente com os mais idosos e as mulheres", contou a Dra. Myrian.

Segundo a médica, os pacientes sentem vergonha diante de alguém que não entende a cultura deles. Por conta disso, muitas vezes a família do paciente pede que a Dra. Myrian o atenda, pois muitos não querem ir ao médico branco.

"Vou à casa das pessoas e é muito efetivo, porque, estando no próprio ambiente, o índio se sente mais confortável para falar dos seus problemas", disse ela.

A médica confia no trabalho dos pajés da aldeia, mas não pratica medicina indígena. "Esse conhecimento é dos anciãos e dos sábios da aldeia. Tenho 31 anos, portanto, ainda sou muito jovem para ter esse saber sobre a medicina tradicional indígena."

Vestibular

A Dra. Myrian ingressou na universidade por meio de uma política afirmativa chamada Vestibular dos Povos Indígenas, criada no Paraná em 2006. Em 2019, 750 estudantes indígenas de diferentes etnias concorreram a 52 vagas em diferentes universidades. [1] Ela contou que, na sua época eram apenas cinco vagas, e o curso de destino era escolhido somente após a realização da prova.

O período seguinte à sua aprovação no vestibular foi "bastante difícil", segundo a médica. Via de regra, as famílias indígenas são extremamente pobres, e com ela não foi muito diferente.

"Eu ganhava uma bolsa de 600 reais, que era muito pouco, e nem sempre recebia em dia."

A dificuldade financeira era somada ao preconceito percebido por ela, às vezes na maneira como a olhavam ou falavam com ela.

"As pessoas falam com o índio como se ele não entendesse o que elas estão dizendo", comentou.

Mas a médica salientou que esta não foi a regra na faculdade de medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste): "Alguns professores me ajudaram, me deram apoio, e se preocuparam muito comigo", disse ela.

A Dra. Myrian se formou em medicina em 2013, e durante os primeiros três anos atuou como médica na saúde indígena, um período que ela valoriza muito.

"Aprendi a não usar medicamentos excessivamente, e a trabalhar com muito pouco recurso. Não ter sempre acesso a exames complementares faz com que a gente desenvolva mais as habilidades clínicas. Meu diferencial hoje é saber trabalhar com problemas que alguns profissionais desconhecem, sem recursos financeiros, sem exames."

No Brasil, há 307 etnias. No último censo (2010), a população autodeclarada indígena era de 896.917 pessoas, das quais mais da metade morava em terras indígenas. Dentre estas, 32,5% são analfabetas. [2] Mas, o número de autodeclarados indígenas que ingressa nas faculdades está aumentando.

Em 2017 foram 56.700 indígenas brasileiros matriculados no ensino superior (0,68% do total de estudantes matriculados nessa etapa). [3] A Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012), com reserva de vagas para indígenas de acordo com a porcentagem dessas populações nas unidades federativas, também é um fator importante.

Mas índice de abandono ainda é alto. "Na faculdade, conheci outros alunos indígenas que, ao longo dos anos, desistiram de cursar. É difícil ir para um lugar com uma cultura diferente, sem ter recursos suficientes para viver fora da aldeia, deixar a família e ainda chegar sem uma educação de qualidade como base."

Por outro lado, apenas 37,4% dos índios brasileiros falam, como Krexu, alguma das 274 línguas indígenas, o que seria importante para manter as características socioculturais.

Respeito

A Dra. Myrian garantiu que nunca foi desrespeitada, nem sentiu que sua capacidade profissional estava sendo questionada por algum paciente pelo fato dela ser indígena.

"De forma geral, não é uma questão levantada na consulta, alguns até ficam felizes ao saber que sou indígena, mas alguns pacientes ainda têm receio de serem atendidos por mulheres."

Ela conta que não pretende ser um exemplo, mas sim uma influência positiva. Ter concluído o ensino superior, acredita, mostraria aos outros indígenas que é possível sair, estudar e fazer diferença na vida de suas comunidades.

"Chamo a atenção pelo lugar de onde venho, mas todos os médicos vêm de algum lugar; cada médico traz uma bagagem e cada um tem a própria visão de mundo. Eu nasci para ser médica de índio, para ser médica de branco, para ser médica de negro, para ser médica de todos os tipos de pessoas."

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