Pesquisa sobre perfil de usuários de cocaína nos EUA revela diferenças de raça e gênero

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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6 de janeiro de 2020

Ao analisar dados de usuários de cocaína norte-americanos que buscaram tratamento, pesquisadores da Yale University School of Medicine, nos Estados Unidos, e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) observaram que indivíduos de diferentes raças e gêneros buscam atendimento por diferentes questões psicossociais e problemas ligados ao uso de substâncias.

Essas diferenças, segundo o artigo publicado em novembro no periódico Journal of Substance Abuse Treatment, [1] impactam os resultados terapêuticos e indicam que uma estratégia de cuidado culturalmente informada pode ser mais efetiva no tratamento dos transtornos por uso de substâncias.

O primeiro autor do estudo, André Miguel, que é psicólogo e professor assistente de pesquisa do Elson S. Floyd College of Medicine, nos EUA, e a Dra. Ana Cecília Marques, psiquiatra e coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) falaram ao Medscape sobre os resultados do trabalho. 

Os autores analisaram dados de sete ensaios clínicos randomizados que investigaram tratamentos ambulatoriais para o transtorno por uso de cocaína. Dois estudos tiveram acompanhamento de oito semanas e envolveram apenas intervenções psicossociais, e o acompanhamento das outras cinco pesquisas foi de 12 semanas com intervenções tanto psicossociais como farmacológicas. Ao todo, foram incluídos 629 participantes norte-americanos, sendo 232 (36,9%) homens brancos, 165 homens negros (26,2%), 138 (21,9%) mulheres brancas e 94 (14,9%) mulheres negras.

Os trabalhos incluídos na análise utilizaram como ferramentas de avaliação na linha de base entrevista clínica estruturada seguindo a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV, sigla do ingês, Diagnostic and Statistical Manual), o Addiction Severity Index (ASI), além de rastreamento toxicológico de urina semanal ao longo do tratamento e relato do paciente sobre o uso de substância com o método Timeline Follow-back.

A média de idade dos participantes negros foi maior do que a dos brancos. Os homens brancos relataram mais dias trabalhados no mês anterior ao início do tratamento, diferença especialmente maior quando comparados com negros (homens e mulheres). Já a proporção de indivíduos participando de programas assistenciais do governo foi maior entre os pacientes negros – particularmente mais alta entre as mulheres negras.

Quanto ao padrão de uso de cocaína, os autores identificaram que indivíduos brancos iniciaram o uso mais precocemente do que os negros, porém, o tempo médio de uso regular da droga foi maior entre negros. Mulheres brancas apresentaram uma frequência média de uso de cocaína maior do que os outros três subgrupos.

Com relação às comorbidades psiquiátricas, o transtorno por uso de álcool foi mais comum entre os homens brancos do que entre os negros (independentemente do gênero). Por outro lado, as mulheres brancas apresentaram maior prevalência de transtornos depressivos e de ansiedade. As pacientes mulheres brancas também tiveram mais chance de referir história de violência emocional e abuso físico do que os participantes dos outros subgrupos, bem como uma tendência maior de sofrer violência sexual do que homens de ambas as etnias. Já as mulheres negras tiveram mais chance de ter história de abuso físico do que os homens negros.

Sobre o tratamento, as mulheres brancas apresentaram uma proporção menor de dias em abstinência do que homens (brancos e negros) e, comparadas com os outros três subgrupos, obtiveram a menor chance de alcançar abstinência completa durante o tratamento.

Para os pesquisadores, os achados indicam que as mulheres (tanto brancas como negras) e os homens negros podem se beneficiar mais de tratamentos que abordem questões de emprego e outros determinantes sociais, por exemplo, assistência jurídica e moradia, enquanto homens brancos podem se beneficiar mais de tratamentos que abordem problemas relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas. As mulheres brancas podem se beneficiar mais se esses tratamentos abordarem intervenções ligadas ao tratamento de outros transtornos mentais e experiências traumáticas.

Procura por tratamento: menor em mulheres e negros

A pesquisa em questão evidenciou uma prevalência de homens brancos nas amostras analisadas, fenômeno que é corroborado pela literatura. Estudos apontam que, embora as mulheres representem cerca de 40% dos usuários de cocaína nos EUA, apenas 30% dos pacientes em tratamento para transtorno por uso de cocaína são mulheres. [2,3]

O pesquisador explicou que vários fatores contribuem para que as mulheres busquem menos tratamento, entre eles, o estigma.

"No passado era maior, porém, ainda hoje eu diria que é mais difícil assumir um problema ligado ao uso de substâncias e buscar tratamento para as mulheres do que para os homens", afirmou o psicólogo, acrescentando que, há também o fato de os tratamentos historicamente terem sidos desenvolvidos e testados em estudos feitos com maioria masculina. A predominância de homens nos grupos de tratamento pode ser outro fator aversivo para muitas mulheres, assim como falta de políticas de conscientização sobre tratamento e prevenção voltadas para elas, bem como carência de um modelo de tratamento desenvolvido para esse grupo.

Os negros também tendem a participar menos dos tratamentos para abuso de substâncias. Isso, segundo André Miguel, pode ser explicado, em algum grau, da mesma forma que para as mulheres, além das questões ligadas a vieses raciais na justiça norte-americana (com tendência a sentenças mais rígidas para negros). "Negros já são uma minoria da população norte-americana (menos de 20%), sendo assim, mesmo que os negros busquem tratamento na mesma frequência que os brancos, a proporção de tratamentos será < 20%. Deste modo, além de fazerem o tratamento com uma maioria branca, com problemas e demandas diferentes das suas, o próprio tratamento foi desenvolvido e testado em uma maioria branca", explicou o pesquisador.

Por que as mulheres brancas apresentaram os piores resultados?

Segundo André Miguel, os achados permitem inferir que mulheres brancas que buscaram tratamento para cocaína nos EUA tinham um quadro clínico mais grave e pior resposta à terapia em comparação com as outras populações analisadas.

"Embora esse estudo não nos permita fazer inferências de causalidade, ele abre a hipótese de que a pior resposta ao tratamento entre mulheres brancas está associada a um quadro clínico mais grave (já que esse foi outro ponto que diferenciou as mulheres brancas das negras)", disse ele, ressaltando que isso não significa que as mulheres brancas que usam cocaína, mas que não estão em tratamento, sejam mais graves que as outras três populações.

"Como aparece nas limitações do estudo, a população que usa cocaína e está em tratamento tende a ser diferente – e mais grave – do que os usuários que não estão em tratamento. Deste modo, por termos estudado apenas pessoas em tratamento, não podemos generalizar nossos achados para aqueles que não estão em acompanhamento", ponderou.

André Miguel considera que outro ponto importante do estudo diz respeito ao fenômeno conhecido como telescoping effect, que sugere que as mulheres que buscam tratamento para o uso de substâncias tendem a apresentar um quadro clínico mais grave e ter pior resposta que homens (observado em vários estudos anteriores).

"Nesse sentido, uma das principais contribuições desse estudo se deve ao fato de termos observado que as mulheres negras respondem tão bem quanto os homens, e que apenas as mulheres brancas responderam pior ao tratamento. Por termos observado essa diferença 'de raça' entre as mulheres, nosso achado sugere que o telescoping effect pode estar mais associado a fatores socioeconômicos e culturais do que à predisposições biológicas ligadas ao gênero", afirmou.

Para a Dra. Ana Cecília, isso pode estar associado a diferentes fatores, entre eles, o fato de o tratamento, inicialmente, não ter sido desenhado para mulheres, pois até o começo deste século, a maioria dos usuários era homem. Além disso, ela explicou que com a emancipação feminina no mercado de trabalho a mulher passou a adotar comportamentos antes considerados masculinos, e o uso de drogas aumentou entre elas, mas os tratamentos não estão ajustados às suas especificidades, o que impede a busca. A médica também disse que, até hoje, o preconceito contra as mulheres usuárias é muito maior do que contra os homens; "o preconceito norte-americano contra as mulheres brancas usuárias pode ser maior, o que pode ter influenciado negativamente o resultado do tratamento", pontuou.

André Miguel lembrou que os resultados observados na pesquisa se referem à população norte-americana e que, embora possam servir como referência para estudos no Brasil, não podem e não devem ser generalizados para a população brasileira.

Como os resultados podem impactar a prática clínica

A pesquisa da Yale University School of Medicine em parceria com a Unifesp mostrou a importância de incluir populações minoritárias em estudos de intervenção. Essa abordagem permite, segundo o André Miguel, investigar o perfil clínico e as diferentes demandas de cada população, determinar fatores preditores de proteção e risco específicos de cada subgrupo, além das causas ligadas à resposta ao tratamento dessas populações, permitindo a criação de tratamentos mais efetivos.

Com relação especificamente à parte clínica, o psicólogo destacou que a pesquisa traz características de perfil clínico e de histórico de violência que são generalizáveis para todos os grupos ou são específicos de um subgrupo. "Nossos achados sugerem, por exemplo, que investigar e oferecer suporte para problemas legais pode trazer mais benefícios aos homens negros, enquanto investigar e oferecer suporte para experiências traumáticas de violência pode trazer mais benefícios às mulheres e brancas", destacou, acrescentando que os achados também podem contribuir para o desenvolvimento de instrumentos e questionários de anamnese específicos para diferentes populações, obtendo assim informações mais relevantes em menos tempo.

A Dra. Ana Cecília ressaltou que todas as variáveis relacionadas com o perfil sociodemográfico do usuário influenciam a adesão e a efetividade do tratamento, incluindo aspectos como gênero, raça, bem como outros elementos, por exemplo, escolaridade, estado civil, situação laboral, classe socioeconômica, idade, tipo de droga utilizada, idade de início e religiosidade.

"Algumas variáveis são mais relevantes que outras, como é o caso da idade, idade de início, gênero, situação socioeconômica e escolaridade. Usuários adolescentes têm muita dificuldade de aderir ao tratamento, principalmente se o início for precoce (antes de 13 anos), pois a dependência evolui com um padrão de uso de múltiplas substâncias e graves consequências. Mulheres, independentemente da raça, buscam menos o tratamento que homens, mas quando começam, aderem mais. Além disso, as variáveis sociodemográficas guardam estreita relação entre si, isto é, estudar uma única característica do usuário exige uma análise estatística complexa. Cada país tem sua cultura e assimila as diferentes raças de forma peculiar, o que também influencia o resultado das pesquisas", explicou.

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