Bem-vindo ao Fator de Impacto, sua dose semanal de comentários sobre um novo ensaio clínico. Eu sou o Dr. Francis Perry Wilson.
Era a Kidney Week – o encontro anual da American Society of Nephrology – na semana passada, e 14.000 médicos desembarcaram em Washington D.C., nos Estados Unidos, para discutir os mais recentes avanços neste campo.
É no espírito da homeostasia que eu quero falar sobre um estudo recém-publicado no periódico J ournal of the American Medical Association, respondendo a uma pergunta que todos temos nos indagado: poderia um suplemento alimentar barato e amplamente disponível alterar o curso do comprometimento renal nas pessoas com diabetes?
Em uma maravilhosa peça de planejamento fatorial, o ensaio de fato analisou dois suplementos: a vitamina D na dose de 2.000 UI/dia de colecalciferol e o óleo de peixe (ácidos graxos ômega 3).
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Atualmente, a vitamina D é como o Charlie Brown dos suplementos; estamos sempre escolhendo ela para bater o pênalti no jogo do ensaio clínico e, invariavelmente, acaba não dando em nada.
E, fazendo analogias com esportes, ninguém comemorou o fracasso da vitamina D no Maracanã. Os nefrologistas têm empurrado vitamina D nos pacientes há anos sem, atrevo-me a dizer, muitas evidências. Este era um trabalho que, esperávamos, trouxesse essas evidências.
O óleo de peixe também não ajuda, como você pode constatar aqui. Os gráficos mostram como a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) se modificou ao longo do estudo nos pacientes dos grupos de controle e da intervenção. Você irá notar uma queda bem significativa de cerca de 12 mL/min ao longo dos cinco anos do estudo, destacando a seriedade com a qual precisamos considerar a função renal nos pacientes com diabetes. Mas em termos de diferenças, nada. Nenhum benefício com a vitamina D. Nenhum benefício com o óleo de peixe.
Eu me atualizei com o primeiro autor, Dr. Ian de Boer, na Kidney Week e perguntei se, diante destes resultados, ele orientaria seus pacientes com diabetes a tomar vitamina D ou óleo de peixe.
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Agora, este ensaio clínico foi um pouco especial; foi particularmente descentralizado. Um único centro em Massachusetts, nos EUA, fez o estudo, mas foi realizado quase inteiramente por e-mail e telefone; com pacientes de todos os EUA enviando amostras de sangue e de urina para o centro de pesquisa. Isso obviamente gerou uma perda de acompanhamento maior do que a que nós gostamos – cerca de 30% – o que poderia ofuscar qualquer benefício potencial nos resultados finais. Perguntei ao Dr. de Boer se ele estava preocupado com isso.
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Em outras palavras, provavelmente não há nada aqui.
Mas isso não é uma coisa ruim. Este foi um ensaio clínico de alta qualidade mostrando que não precisamos concentrar nossas energias nisso. Nossos pacientes têm recursos suficientes para usar, sem precisar se preocupar com o que devem tomar como suplemento. Com a vitamina D e o óleo de peixe fora de circuito, podemos nos concentrar melhor no controle da pressão arterial e da glicose, em uma alimentação de qualidade e na prática de exercícios. Não é tão fácil como ir até a loja de suplementos, mas, na verdade, nada que valha a pena nunca é fácil.
Dr. Francis Perry Wilson, MSCE, é médico, professor associado de medicina e diretor do Yale's Program of Applied Translational Research. Seu trabalho de divulgação científica pode ser encontrado no Huffington Post, no NPR e no Medscape. O Dr. Francis tuíta como @methodsmanmd e hospeda o conjunto do seu trabalho de comunicação científica no site www.methodsman.com .
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Citar este artigo: O Charlie Brown dos suplementos ataca novamente - Medscape - 13 de dezembro de 2019.
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