COMENTÁRIO

Veg(etari)anismo faz mal à saúde?

Dra. Carla Vorsatz

Notificação

9 de dezembro de 2019

A questão dos potenciais estados carenciais causados por uma nutrição inadequada é pertinente, relevante e deve ser considerada com atenção por todos os médicos e profissionais de saúde. Aqui, abordaremos apenas os temas relacionados com a prática do veg(etari)anismo, embora seja importante manter em mente que muitas pessoas que se alimentam de carne e produtos industrializados sofrem de deficiências nutricionais importantes, por vezes graves, mas isso foge ao escopo deste artigo.

Dra. Carla Vorsatz

Precisamos contextualizar a comida e o ato de se alimentar se quisermos compreender o problema a partir de uma perspectiva mais ampla: comer é um ato prenhe de significado afetivo, desde o aleitamento materno, à bananinha amassada que a vovó fazia para você, aos almoços/lanches/jantares em família, onde se constroem e consolidam os laços de afeto, aos presentes "gostosos" para as pessoas amadas, o "agradinho" às crianças, o "primeiro jantar", na expectativa de iniciar uma relação amorosa. Tudo isso cala fundo na nossa psiquê; comer é sobretudo um ato de amor.

Outro elemento importantíssimo é o tipo de alimentação culturalmente aceito e praticado pelo grupo ao qual você pertence, ou que você frequenta, ou ainda com o qual você se identifica. Qual é a sua "comida caseira" há gerações? A resposta a essa pergunta situa bem o cardápio considerado "normal" no seu recorte sociocultural.

Proteína animal no ocidente

No nosso país, a carne – leia-se proteína animal – é (ou era) considerada o elemento central da refeição, com o restante dos alimentos servindo meramente de "acompanhamento". Ainda vemos isso nos restaurantes, quando em geral escolhemos "carne, peixe ou ave" e o garçom pergunta "qual vai ser o acompanhamento"? Exceção feita para as massas, que já costumam trazer a proteína animal como ingrediente da receita.

Neste contexto, simplesmente parar de comer carne e comer somente os acompanhamentos levará inexoravelmente a um estado carencial. A carne traz os nutrientes necessários para o bom funcionamento do nosso organismo e os acompanhamentos complementam o que falta no alimento de origem animal.

Pois bem. Acontece que, do ponto de vista estritamente alimentar, comer carne é comer o intermediário.

Os nutrientes que obtemos da carne do animal em nosso prato foram obtidos por este animal (a) comendo outro animal que, por sua vez, os obteve a partir de uma dieta herbívora ou (b) o animal no nosso prato era herbívoro e obteve esses nutrientes dos vegetais.

Como nos negócios, eliminar o intermediário é sempre uma possibilidade de aumentar a margem de lucro; se pudermos obter os alimentos diretamente da fonte, prescindindo do intermediário, estaremos fazendo um excelente negócio. Até porque o intermediário traz sérias desvantagens, mas isso será tratado em outro momento.

Primeiro exemplo: aminoácidos essenciais

Vamos ilustrar o que expomos acima tomando como exemplo os aminoácidos essenciais. Como sabemos, os aminoácidos essenciais, ou aminoácidos indispensáveis, são aqueles que o organismo humano não é capaz de sintetizar e precisa obter de fontes externas. O nome é autoexplicativo: são indispensáveis à vida. Dentre os 21 aminoácidos comuns a todas as formas de vida, os humanos não sintetizam nove: valina, leucina, triptofano, treonina, fenilalanina, isoleucina, metionina, histidina e lisina. Os aminoácidos essenciais se combinam para formar proteínas, que constituem o alicerce da vida animal e humana.

Durante muito tempo, a carne, o leite e os ovos foram considerados fontes completas de proteínas para os humanos.

Mas os vegetais também são fontes das mesmas proteínas. (Lembra do intermediário? Vaca não como carne, obtém ou sintetiza os aminoácidos essenciais do capim.) Podemos ver algumas fontes vegetais de aminoácidos essenciais na Tabela 1.

Tabela 1. Fontes de origem vegetal dos nove aminoácidos essenciais (listagem não exaustiva)

Aminoácidos essenciais Alimentos que os contêm
Valina Castanha do Pará (ou do Brasil), feijão vermelho, alho, milho, nozes, ervilha, soja, amêndoa, avelã, cacau, centeio, cevada, berinjela, beterraba e cebola.
Leucina Amendoim, castanha de caju, castanha do Pará, avelã, pepino, tomate, berinjela, repolho, quiabo, espinafre, feijões e ervilha.
Triptofano Amendoim, caju, ervilha, amêndoa, abacate, couve-flor, batata, banana e sementes de girassol.
Treonina Castanha de caju, castanha do Pará, nozes, abacate, cogumelos, ervilha, feijões, batata, chuchu, berinjela, beterraba, rabanete, quiabo, nabo, chicória, aspargos, brócolis, salsa, pepino, cebola roxa, espinafre, tomate, couve, centeio e cevada.
Fenilalanina Amêndoa, amendoim, nozes, castanha de caju, castanha do Pará, avelã, pistache, pinhão, soja, grão de bico, feijões, ervilha, lentilha, alface, batata, agrião, maçã, cenoura e tomate
Isoleucina Castanha de caju, nozes, amêndoa, amendoim, avelã, gergelim, abóbora, batata, ervilha e feijões.
Metionina Castanha do Pará, semente de abóbora, soja e arroz integral.
Histidina Trigo, cevada, centeio, cacau, ervilha, feijões, cenoura, beterraba, berinjela, nabo, mandioca e batata.
Lisina Soja, ervilha, tremoços e amendoim.

A primeira coisa que salta aos olhos é que a maioria desses alimentos não faz parte da tradicional "comida caseira" da mesa do brasileiro, ou seja, se a pessoa simplesmente parar de comer proteína de origem animal e continuar comendo só arroz branco, feijão preto e batata inglesa, e como salada, alface, tomate e cebola como salada, vai ficar desnutrida, fato.

Culpa do veg(etari)anismo ou falta de informação nutricional adequada?

Segundo exemplo: vitamina B12

É bem sabido que não comer alimentos de origem animal no contexto descrito acima causa carência de vitamina B12 e uma miríade de quadros clínicos carenciais, simples e complexos. [1]

O consumo diário recomendado de vitamina B12 é:

  • Crianças pequenas entre 1 e 3 anos: 0,9 microgramas (mcg) por dia

  • Crianças entre 4 e 8 anos: 1,2 mcg por dia

  • Crianças entre 9 e 13 anos: 1,8 mcg por dia

  • Adolescentes e adultos: 2,4 mcg por dia

Lactentes entre 7 e 12 meses de idade precisam de 0,5 mcg de B12 por dia, e os lactentes com menos de seis meses de idade precisam de apenas 0,4 mcg por dia.

As gestantes devem ingerir 2,6 mcg diariamente, enquanto as nutrizes precisam de 2,8 mcg por dia.

No entanto, segundo informações nutricionais do USDA National Nutrient Database for Standard Reference existem fontes vegetais de vitamina B12, como podemos ver na Tabela 2.

Tabela 2. Fontes de vitamina B12 de origem vegetal

Veganas Porção B12
(mcg)
Vegetarianas Porção B12
(mcg)
Leite de amêndoas enriquecido com B12 um copo 3 Iogurte natural desnatado 200 mL 1,37
Leite de coco enriquecido com B12 um copo 3 Leite desnatado 200 mL 1,15
Levedo de cerveja uma colher de sopa 2 Queijo cottage a 1% ¾ de xícara 1,07
Leite de soja original enriquecido com B12 um copo 1,2 Queijo suíço 28 g 0,95
Cereal matinal pronto enriquecido com B12 ½ a ⅓ de xícara 0,6 a 6 Ovo uma unidade, médio 0,39
Tofu  113 g 2,4 Sorvete de baunilha ½ xícara 0,26

Como podemos constatar, é viável não ingerir alimentos de origem animal e mesmo assim não ter carência de B12.

O objetivo deste artigo não é abordar cada uma das possíveis carências relacionadas com o veg(etari)anismo, mas deixar claro que a afirmação "não comer carne faz mal" não tem respaldo nutricional, fisiológico, histórico nem científico.

Ao adotar a alimentação veg(etari)ana é necessário reformular o cardápio e adotar novos alimentos que não fazem parte do nosso dia a dia. Não basta "substituir" a carne animal por "carne vegetal", a reformulação precisa ser completa.

O que come ou deve comer um veg(etari)ano? A lista é longa: vegetais, hortaliças, legumes, raízes, tubérculos, cogumelos, brotos, favas, feijões, todas as frutas, nozes, castanhas, amêndoas, cereais integrais e sementes integrais. De preferência tudo da safra, plantado e colhido em um raio de 50 km da residência da pessoa. Esse seria realmente o ideal, sob todos os aspectos.

Está na moda, mas não é nenhuma novidade

A prática do vegetarianismo, termo que começou a ser usado por volta de 1839, [2] remonta comprovadamente a 3.300 anos antes de Cristo no subcontinente indiano.

O termo veganismo, também chamado de "vegetarianismo estrito", foi cunhado por Donald Watson em 1944 [3] ao fundar a Vegan Society, na Inglaterra, como dissidente da Vegetarian Society. A ideia do nome veio de manter o início e o fim do termo " veg etari ano ".

Os nomes são muitos e as práticas variadas: vegetarismo, xerofagia, vegetarianismo, veganismo, ovo-lacto-vegetarianismo e por aí vai.

O vegetarianismo ocidental oficial, até 1847 era chamado de "pitagorismo", em referência a Pitágoras, que supostamente teria sido vegetariano, [4] bem como vários filósofos da Grécia antiga.

Os principais tipos de alimentação com restrição ao consumo de proteínas de origem animal são:

  • Lacto-vegetariano: consumo de leite e derivados, mas não de ovos; não consome carne nem peixe.

  • Lacto-ovo-vegetariano consumo de leite e derivados e de ovos e produtos apícolas; não consome carne nem peixe.

  • Flexitariano: reduz o consumo de carne durante a maior parte do tempo.

  • Vegano: exclui todos os produtos de origem animal, inclusive leite e derivados e o uso de couro, peles, lã e produtos retirados de animais.

  • Pesco-vegetariano ou pescetariano: consome peixe e frutos do mar, mas nenhum outro alimento de origem animal.

Por que ser veg(etari)ano?

A razão mais comum é o amor pelos animais. Quando olhamos os animais que costumamos comer serem tratados como animais de estimação em outras culturas e vice-versa – como os chineses que comem cachorros – constatamos o quanto essas definições são meras convenções culturais.

O vegano é sobretudo alguém que se preocupa com o bem-estar animal e não compactua com a ideia da exploração animal, de que o animal existe para nos servir (de alimento, de vestimenta, de meio de transporte, para trabalhar a terra, etc.).

Se as paredes dos abatedouros fossem de vidro, todos seriam vegetarianos. Paul McCartney, vegetariano

Atualmente, outra grande procura do vegetarianismo é em busca da saúde, são as pessoas querendo se livrar da síndrome metabólica dos países industrializados.

Um aspecto importante que tem recebido cada vez mais a atenção da mídia e valeu ao ator Leonardo DiCaprio um Oscar pela produção do documentário Cowspiracy é a questão da sustentabilidade, da inviabilidade econômica de dispor de uma quantidade de terra suficiente no planeta para servir de pasto ao gado de corte de modo a poder alimentar todos os habitantes.

Podemos dizer que os principais motivos que levam alguém a abraçar o veg(etari)anismo são:

  • Prevenção de doenças

  • Interesse pelo bem-estar animal

  • Proteção ambiental

  • Respeito a preceitos religiosos

 

Leonardo DiCaprio não foi a primeira celebridade a se interessar pelo veg(etari)anismo. A lista é longa, podemos citar alguns como Leonardo da Vinci, Benjamin Franklin, Mahatma Gandhi, Albert Einstein, Brigitte Bardot, Yoko Ono e Paul McCartney. Já nos idos da década de 60, Paul McCartney dizia que "se as paredes dos abatedouros fossem de vidro, todos seriam vegetarianos".

E o que as sociedades médicas e de nutrição internacionais dizem disso?

As sociedades American Academy of Nutrition and Dietetics, [5]Dietitians of Canada, [6]Australian National Health and Medical Research Council, [7]New Zealand Ministry of Health, [8]Harvard Medical School, [9] e a British Dietetic Association, [10] consideram que a alimentação vegana bem planejada é apropriada para todas as fases da vida, incluindo a infância e a gestação.

Em pesquisas clínicas preliminares, as dietas veganas reduziram o risco de diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, obesidade e cardiopatia isquêmica. [11,12,13,14] 

Não podemos mais fazer ouvidos de mercador às diferentes práticas alimentares e tirar o velho "não comer carne faz mal à saúde" da algibeira, mera opinião desprovida de embasamento e que não convence mais ninguém.

O veg(etari)anismo está na moda, é verdade, mas não é um modismo passageiro. Existem povos veg(etari)anos há milênios e o ocidente não é o centro do mundo, só do nosso mundo. Precisamos ajudar os nossos pacientes que optarem por uma alimentação veg(etari)ana a não cair na armadilha de comer apenas os "acompanhamentos" e adoecer por carência de vitaminas e minerais. É fundamental orientarmos esse caminho com as informações pertinentes e provermos suplementos alimentares, caso seja necessário – o que nem sempre é indicado.

O veg(etari)anismo faz mal à saúde?

Ao que tudo indica, não. O ser humano não precisa comer carne para ter saúde e viver bem. As diretrizes das sociedades internacionais afirmam que a alimentação vegana é apropriada para todas as idades e as melhores evidências disponíveis até o momento indicam que este tipo de alimentação tem uma ação benéfica na prevenção e como auxílio ao tratamento das doenças metabólicas.

E os animais e o planeta agradecem.

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